Benito di Paula: o último romântico

Benito di Paula: o último romântico

Com o sambão-joia, o artista criou um estilo único para mostrar ao público sua música e sua figura singular

Quase tudo em Benito di Paula tinha o toque da originalidade. 

Seu visual marcado pelo cabelo comprido e encaracolado, com o rosto emoldurado por um indefectível cavanhaque que formava um V embaixo de seu queixo, se completava com um singular pseudônimo (seu nome verdadeiro era Uday Veloso) e, principalmente, pela criação de um estilo diferente de fazer sambas, o sambão-joia.

Todos esses elementos traziam uma marca personalíssima, que muitas vezes beirava a cafonice, mas que, orgulhosamente, foi mantida por ele até o dia de sua morte, ocorrida ontem, aos 84 anos, em São Paulo. 

Benito estava internado no Hospital 9 de Julho e enfrentava um câncer de próstata.

Única também era a figura desse artista que criou uma escola musical que surgia e se esgotava em si própria. 

Fluminense de Nova Friburgo, onde nasceu em 28 de novembro de 1941, Benito, um entre 12 irmãos, era filho de um ferroviário e de uma dona de casa. 

A origem cigana pelo lado paterno despertou nele não somente o interesse pela música, como também alimentou seu lado andarilho. 

Ele saiu do interior do Rio (onde aos 16 anos já optara pelo pseudônimo) para a Capital (onde serviu ao Exército e começou a se apresentar em boates) e de lá, seguiu em frente fazendo uma parada em Santos (onde manteve o gosto pelo circuito das casas noturnas) até optar por se fixar em São Paulo.

A escolha foi acertada: São Paulo foi decisiva para o crescimento da carreira de Benito, que também teve papel fundamental na projeção de um tipo de samba feito na região do Baixo Bixiga. Como lembra o crítico Zuza Homem de Mello no livro A Canção no Tempo, Benito ajudou a revelar e exaltar casas como Balacobaco, Telecoteco e, finalmente, a Catedral do Samba.

Os próprios nomes dos lugares, Telecoteco e Balacobaco, já ajudavam a indicar onde Benito pretendia chegar. 

Ao vocabulário da malandragem carioca, Benito acrescentava o seu toque pianístico, que dava ao instrumento um caráter percussivo. Com Benito, o piano mantinha a sua grandeza ao mesmo tempo que ganhava a leveza e a agilidade de um tamborim.

Faltava um ingrediente, que de imediato Benito também teve a sensibilidade de perceber: o romantismo. Acrescido isso estava completa a receita.

O reconhecimento nacional chegaria em 1973 com o disco Um Novo Samba, que carregava o sucesso Retalhos de Cetim — e ainda trazia Benito na capa com colar e gravata borboleta. 

A música, um samba-lamentoso que narra a história de um sambista que ensaia o ano inteiro para no final ser abandonado por uma cabrocha, emocionou o público de forma instantânea e colocou o nome do compositor nos mais altos pontos das paradas de sucesso.

O sambão podia ser joia para ele e para o público, mas Benito seguia sendo desprezado pela crítica, que não via no que ele fazia uma fidelidade dedicada ao samba na mesma linha de alguns de seus contemporâneos, como Paulinho da Viola, Martinho da Vila e João Nogueira.

Benito aparentemente superava essa má vontade exagerando ainda mais no figurino — entravam smokings, mais colares e brincos de argola —  e empilhando novos sucessos. 

É dessa época outro sucesso, Charlie Brown, um samba com levada swingante e estrutura nonsense em que o músico, numa conversa com o personagem das histórias em quadrinhos criado por Charles M. Schulz o convidava para conhecer o Brasil, suas belezas e seus personagens, como Vinicius de Moraes, Jorge Ben e Luiz Gonzaga.

A partir dos anos 80, a decadência do mercado fonográfico e um certo desinteresse dos programas televisivos pela imagem over do artista foram determinando que Benito di Paula se afastasse da mídia. 

Seus shows entraram num circuito restrito de clubes e boates e ele acabou sendo esquecido até pelas emissoras de rádio dos segmentos mais populares.

No novo milênio, Benito tentou ressurgir trazendo consigo um novo parceiro, o filho, Rodrigo, com quem gravou e fez centenas de apresentações pelo Brasil sem repetir o sucesso de anos anteriores.

Entre os raros momentos em que Benito esteve em evidência está o lançamento do disco Benito 80: Novo Samba Sempre Novo, gravado em 2022 e que trazia entre os convidados nomes como João Bosco, Teresa Cristina e Juçara Marçal. 

Outra forma de reconhecimento ocorreu no ano passado, quando Benito di Paula voltou a ser lembrado a partir de uma homenagem feita durante o Carnaval. O compositor foi o tema da escola de samba Águia de Ouro, em São Paulo, que dedicou a ele o enredo “Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do jeito que a vida quer”. O desfile, com Benito em cima de um carro alegórico, marcou uma das derradeiras aparições do músico.

Seu último show foi no final de julho, em São Paulo. Benito novamente se apresentou ao lado do filho e ainda recebeu no palco o cantor (e admirador) Zeca Baleiro. Era a garantia de que seu romantismo seria mantido pelas novas gerações.

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