A encantadora de bilionários

A encantadora de bilionários

Vice-presidente da divisão de luxo da Sotheby’s, Phyllis Kao fala sobre a trajetória que a levou a conduzir os leilões mais importantes do mundo 

NOVA YORK – “Acho que você precisa se divertir. Caso contrário, se você não estiver se divertindo, o público percebe que ninguém está gostando do leilão,” disse Phyllis Kao ao comentar como conduz alguns dos mais importantes leilões do mundo organizados pela Sotheby's.

É curioso escutar alguém desse meio falar sobre diversão. Leilões costumam ser locais sóbrios, formais e muitas vezes tensos, com potenciais compradores travando batalhas de olhares e gestos para sair da sala com a peça desejada. Mas não para Phyllis.

A vice-presidente da divisão de luxo da Sotheby’s — e a leiloeira mais hip do momento — enxerga leilões com uma leveza incomum, menos como uma guerra de lances e mais como uma orquestra onde ela é a maestra e seu martelo é a batuta que rege os lances para cima e define os vencedores. 

“Ter prática em criar conexões humanas, de modo geral, ajuda você nesse meio,” disse Phyllis ao Page9.

A trajetória de Phyllis no meio dos leilões começou de maneira semelhante à de muitas pessoas desse meio: ela nunca pensou em trabalhar nisso. 

“Foi completamente por acaso [que me tornei leiloeira]. Estudei história da arte na faculdade e queria trabalhar com arte, mas achava que seguiria carreira acadêmica. Me candidatei para voltar à minha alma mater para fazer um doutorado, mas enquanto me preparava para voltar a estudar, surgiu uma oportunidade inesperada. Me convidaram para trabalhar temporariamente em uma pequena casa de leilões no norte da Califórnia,” explicou Phyllis, que imaginou continuar no trabalho apenas para ganhar experiência profissional antes de retomar os estudos.

Ela foi convidada para trabalhar em um leilão de pinturas chinesas a óleo, não como leiloeira, mas como tradutora inglês-mandarim. O que era para ser um freela acabou encantando Phyllis. 

“Eu gostei do trabalho, de poder trabalhar com arte e negócios ao mesmo tempo, de conhecer tantas pessoas diferentes o tempo todo e do ritmo. Então, pensei: ‘Bom, talvez eu continue por aqui.’”

E continua até hoje.

Após um período como preposta de leiloeiro, ela chegou ao púlpito para conduzir seu primeiro leilão e nunca mais parou. Quando questionada se estava nervosa em seu primeiro leilão, ela respondeu como alguém que nunca deixou o medo ser maior do que sua confiança: “Foi há muito tempo, então não me lembro. Mas tenho certeza de que foi legal.”

É com essa confiança que Phyllis conduz seus leilões. Durante as vendas, ela muda o tom da sua voz, troca de postura e por vezes se mostra levemente desinteressada no assunto somente para retomar com mais força. A entrevista com ela seguiu essa mesma dinâmica: por vezes, ela parecia desgostar de uma pergunta, apenas para abrir um sorriso ao final e engatar em uma resposta bem-humorada. 

Como tantas pessoas bem-sucedidas, Phyllis também contou com um pouco de sorte em sua trajetória. Seu estilo effortless cool casou perfeitamente com a nova realidade do universo de leilões após a pandemia, quando passaram a ser transmitidos online.

O que começou como uma forma de continuar as operações durante o isolamento social tornou-se uma oportunidade de ampliar o público. Com isso, a maneira de conduzir esses eventos também mudou. 

“Por causa da pandemia, nossos leilões noturnos passaram a ser transmitidos ao vivo como se fossem programas de televisão,” diz Phyllis. “As pessoas se acostumaram tanto e ficaram tão à vontade para dar lances de casa que nem todas voltaram a participar dos leilões presencialmente.”

E é nessa condução ao vivo que Phyllis demonstra toda a sua desenvoltura. Não são raras as vezes em que ela dissipa o ambiente tenso com uma frase inesperada. “Do fundo do meu coração, espero que todos aqui estejam bêbados,” disse ela antes de começar um leilão no San Francisco Museum of Modern Art, em sua cidade natal.

No meio dos leilões, muitos consideram Phyllis uma performer. Durante a disputa de lances, em vez da fala rápida e intensa de leiloeiros tradicionais, ela recorre à linguagem corporal: aponta para o público, fixa os olhos em potenciais compradores e passa o microfone para a plateia. Conduz tudo como um programa de auditório, enquanto versa com propriedade sobre os itens leiloados  — resultado de um processo de pesquisa que envolve conversas com especialistas e visitas a museus.

Mas apesar de fugir das tradições do métier, ela ainda segue algumas regras importantes, como, por exemplo, usar o bom e velho martelo para conduzir as vendas.

Foi assim que ela explicou a relação de um leiloeiro com o martelo, seu mais importante instrumento de trabalho. 

“Imagino que você espera que eu carregue meu martelo de leilão comigo? Não, não. Desculpe decepcionar você, mas não ando com meu martelo de leilão todos os dias,” explicou Phyllis com um largo sorriso. “Todo leiloeiro tem seu próprio martelo. Caso contrário, você ... você não é um profissional de verdade, certo?”

O bom humor, inclusive, é uma arma potente no meio dos leilões e é usada por Phyllis para conter o clima nas disputas de lance, que ela chama de “panela de pressão”.

“Todos nós estamos sujeitos aos mesmos gatilhos psicológicos. Todos temos pontos fracos parecidos que podem ser acionados. E acho que o ambiente de um leilão, sinceramente, reúne um conjunto único de fatores de pressão que intensificam o desejo, como se o colocassem dentro de uma panela de pressão,” diz Phyllis.

“O limite de tempo é um desses fatores. O fato de ser algo público, com todo mundo te observando, também intensifica muito o seu desejo. E acho que, quando você está dando lances em um leilão, sente uma descarga de adrenalina que também te afeta psicologicamente. [...] Somos seres humanos e expressamos emoções. Você consegue perceber isso pelas expressões faciais, e o momento em que as coisas acontecem também revela muita coisa. Então, se você quer ser um bom leiloeiro, precisa estar muito atento a todos esses aspectos.”

O figurino de Phyllis também segue uma lógica própria. Para os leilões diurnos, ela tem como pièce de résistance uma jaqueta vintage azul-marinho, de abotoamento duplo e inspiração militar, da Yves Saint Laurent. 

“Se você olhar fotos e vídeos meus, provavelmente é o que vai me ver usando com mais frequência,” disse. Ela combina a peça com um cinto italiano de couro vintage que ganhou da mãe quando era muito jovem. “Se não quero pensar muito e quero algo que sei que vai funcionar para mim, essa é minha escolha.”

A preferência por jaquetas, no entanto, não é apenas uma questão de estilo.

“É uma questão de funcionalidade. Não é uma resposta muito sexy, mas, quando estou conduzindo um leilão, geralmente uso um microfone de lapela, que precisa ser preso à lapela da jaqueta,” explicou. 

Como não costuma usar gravatas, ao contrário de alguns colegas que prendem o microfone nelas, Phyllis precisa de uma peça que permita acomodar o equipamento. “Se você usar apenas uma blusa, não funciona.”

As calças também fazem parte dessa equação: é nelas que Phyllis prende o transmissor do microfone. Mas isso não significa que seu visual seja inteiramente funcional. “Se fosse apenas uma questão de funcionalidade, provavelmente eu usaria um terno com gravata. Mas esse não é o meu estilo.”

Leia também: 

Siga o Page9 no Instagram — e assine a newsletter