Contemplar uma tela de Zéh Palito é confrontar questões sociais do País da maneira mais sutil, bela e poderosa que se possa imaginar. O rosa, tom que transmite paz, tranquilidade e felicidade, se tornou a cor escolhida pelo artista para retratar pessoas negras em situações de empoderamento e lazer.
“Eu pinto autorretratos e retratos — sempre de pessoas negras ou de minorias étnicas. O corpo negro, quanto mais escuro, mais associado a estereótipos negativos: agressividade, violência, serviço braçal. Quando eu pinto esses corpos com rosa, quebro esse estereótipo,” disse o artista ao Page9.
Hoje, suas obras podem ser vistas na Galeria Simões de Assis, em São Paulo, na individual Meu Quintal é Maior do Que o Mundo, que reúne 15 obras inéditas. O título vem de um poema do Manoel de Barros — sobre saber quem se é, sobre ter raízes.
“Todos os pequenos elementos, se as pessoas pararem para olhar com atenção, são coisas que existem no meu quintal em Limeira: retratos dos meus pais, meu autorretrato, os meus cachorros, as plantas, as frutas, o azulejo,” disse o artista.

Por trás das telas, uma conexão que nunca se perdeu: a família, as raízes no interior, o desejo de conhecer o mundo. Um sentimento de pertencimento que caminha junto de um olhar que se expande sem deslumbre.
Zéh Palito cresceu em Limeira, com pouco acesso à arte por meio de galerias ou museus. “Nunca vi, quando criança, pessoas que se parecessem comigo retratadas numa obra de arte. Hoje isso é diferente — crianças podem ir ao museu e ver retratos de pessoas que se parecem com elas. Esse sentimento é incrível.”
“Eu gostava muito de gibi, de super-heróis. E não existia nenhum super-herói negro. Depois vieram o Pantera Negra, o Miles Morales. Acho que esse sentimento faz com que você passe a acreditar em você mesmo, no seu sonho."
Aos 16 anos, Danilo Omwisye (seu nome de batismo) sofreu uma lesão no joelho enquanto jogava bola. Sua mãe, que trabalhava como funcionária doméstica, o inscreveu em uma oficina de pintura em tela, no Palacete Levy.

“Era uma turma voltada para a terceira idade, mas ela conseguiu uma vaga pra mim. Eu gostei e associei a pintura com o grafite que eu estava começando a fazer, por influência de um primo. Desde então pinto tela e parede.” Pintar na rua foi sua primeira formação. Depois, se graduou em Artes Plásticas pela EMCEA e em Design Gráfico pela FAAL, ambas em Limeira.
Zéh Palito era um dos personagens que retratava anonimamente pela cidade — e acabou se tornando seu nome artístico, com fama que ultrapassou e muito os limites da cidade no interior de São Paulo.
A família sempre está presente, de alguma maneira. Na mostra da Simões de Assis, as peças foram criadas em colaboração com o pai, que trabalhava como soldador, em azulejo — inspiração de uma viagem juntos a Barcelona e Marrocos. Em novembro, uma exposição no Sesc Belenzinho vai reunir obras feitas com a mãe, que trabalha com tecido e fuxico.

Há murais assinados pelo artista em todos os cantos do mundo: Estados Unidos, Canadá, Espanha e Coreia. O maior fica em Brasília. “Já visitei 81 países e quero chegar a 100. Quero escrever um livro sobre viagens e arte — contar minhas experiências viajando como um corpo negro brasileiro.”
As viagens alimentam o trabalho, mas é o quintal de Limeira que inspira suas telas mais recentes. “Meu trabalho tem três referências: o Brasil, onde nasci e vivo; a África, onde morei na Zâmbia e viajei por uns 15 países; e os Estados Unidos, de onde estudo a cultura afro-americana. Todas as minhas obras têm referência desses três lugares.”
“Só o fato de eu pintar um casal negro no jardim, descansando, já é um ato político — porque são corpos automaticamente associados à servidão. Ali eles estão aproveitando a vida como todas as pessoas sempre foram retratadas. Menos eles.”
Com 40 anos e uma carreira consolidada — integra coleções como Instituto Inhotim, Pérez Art Museum Miami e El Museo del Barrio, em Nova York com telas que já ultrapassam seis dígitos e têm fila de espera por novas obras.

Entre seus colecionadores estão Jay-Z e Beyoncé, que em 2022 adquiriram uma de suas obras para a coleção particular do casal. A obra foi comprada por meio de um art advisor apresentado a Zéh Palito em Nova York, e direcionada para a mansão deles (ou acervo) nos Hamptons.
Ao fato de suas telas integrarem coleções de grandes artistas, diz: “Sou muito grato por isso, chega a ser uma honra pensar que essas pessoas convivem com minha arte na vida delas.”
Ainda assim, jamais esquece de onde veio ou ignora a potência e a importância de sua arte. “O ponto alto na carreira de um artista são suas obras serem adquiridas por museus: é onde a obra é eternizada, cuidada e respeitada como história e cultura de um povo.” É um grande colorista. Mas, acima de tudo, um humanista.
O Meu Quintal é Maior do Que o Mundo
Em cartaz até 7 de novembro.
Galeria Simões de Assis: Alameda Lorena, 2.050, São Paulo.
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