O efeito Marília Mendonça que ecoará por muitas gerações

O efeito Marília Mendonça que ecoará por muitas gerações

Especial narra a trajetória da cantora que transformou a sofrência em hit e abriu caminho para novas vozes femininas 

Num dos momentos mais emocionantes de Marília Mendonça: Sentimento Louco, série de quatro episódios na Amazon Prime, familiares, amigos e parceiros da cantora escutam uma canção interpretada a cappella pelo compositor Vineshow. 

Ela se chama Conexão e trata-se de uma parceria dele com Marília, Juliano Tchula, Junior Gomes e Vinicius Poeta. 

Embora não fale diretamente sobre o acidente, versos como “o comandante já anunciou que chegamos ao ponto final/ Está na hora de acordar do sonho e voltar a viver…” provocam lágrimas sinceras em todos que conheceram a popstar sertaneja, que morreu num desastre de avião no dia 21 de novembro de 2021, aos 26 anos.

Dirigido por Susanna Lira, o especial que narra a trajetória de Marília é fiel a um dos maiores princípios da sertaneja — o de contar uma história com a qual o público se identifique (às vezes, de modo doloroso) e fazer com que ele se emocione.

No caso dessa estrela, nascida em Cristianópolis (cidade a 92 quilômetros da capital), mas criada em Goiânia, suas criações giravam em torno dos males do amor. 

Marília versou sobre maridos e namorados que traem, a dor de ser “a outra” e o preconceito contra as prostitutas. Por outro lado, abordou temas como empoderamento feminino e de como superar uma relação que não deu certo.

O estilo propagado por Marília — e, de quebra, pela dupla Maiara & Maraísa, parceiras de canto, composição e dores de cotovelo — foi batizado de sofrência e feminejo (este último, um rótulo que ela odiava porque o achava redutor). Seja qual for o epíteto que melhor couber ao gosto das sertanejas, o fato é que elas mudaram o foco do gênero.

Desde a criação do chamado estilo caipira — e depois sertanejo —, no início do século XX, as mulheres eram, em sua maioria, as vilãs das cantorias. 

Havia desde a Cabocla Tereza, assassinada pelo companheiro porque ousou repudiar o casebre em que moravam para conhecer a cidade grande (“Há tempo eu fiz um ranchinho/ Pra minha cabocla morar/ Pois era ali nosso ninho/ Bem longe deste lugar…/…/ Agora já me vinguei/ É este o fim de um amor/ Essa cabocla eu matei/ É a minha história, doutor,” diz a letra, que fez sucesso na voz de Tonico & Tinoco) ou a desalmada que não sentia empatia pelo amor de seu companheiro (“Diga se te deixei faltar amor/Se o meu beijo é sem sabor/ Se eu não fui homem pra você/ Diga que tudo não passou de um sonho/ E o amor que te proponho/ É pouco pra te convencer…,” suplicam Zezé di Camargo & Luciano em Coração Está em Pedaços. 

Os contos sobre mulheres sem coração, ora vejam só, ressoavam mais no público feminino, que se compadecia da situação.

As mulheres sempre foram minoria e tiveram menos popularidade. Nalva Aguiar, uma ex-musa da Jovem Guarda transmutada em cantora sertaneja, e Roberta Miranda, cujo repertório alterna boleros com músicas de temática caipira, foram as primeiras artistas a quebrar o predomínio masculino do universo sertanejo. 

Posteriormente, cantoras como Sula Miranda, Samara e Jayne e duplas como As Marcianas tentaram, sem muito êxito, vingar nesse universo musical. O sucesso de Paula Fernandes, no início dos anos 2000, abriu espaço para a explosão do universo feminino.

Há várias barreiras quebradas por Marília Mendonça e agregadas. Primeiro, a cisma dos empresários do gênero em contratar mulheres (e isso o autor dessa matéria presenciou in loco: uma cantora disse que escutou de um empresário que não contratava “artista que menstrua”). 

Marília também estava fora do padrão sílfide muitas vezes exigido pelo mercado — e alguns dos convidados do documentário falam abertamente desse preconceito. 

Houve, no entanto, uma identificação do público feminino (e masculino também) com as histórias entoadas pela compositora. São composições que, inclusive, extrapolaram o gênero sertanejo: Marília foi gravada por Gal Costa (Cuidando de Longe, que ela escreveu ao lado de Juliano Tchula, Júnior Gomes e Vinícius Poeta e entrou no disco A Pele do Futuro, de Gal, com direito a dueto das duas) e tinha admiradoras como Adriana Calcanhotto, que disse: “Ela deixa um legado importante tanto na sua obra como atitude.”

Susanna Lira entrou em contato com o universo de Marília Mendonça em 2017, quando dirigiu a série Rotas do Ódio. E de tanto a equipe de filmagem entoar as canções da sertaneja no karaokê, a cineasta se encantou com a sofrência embutida nas letras. O apreço de Susanna pelo universo de Marília Mendonça faz toda a diferença. Em geral, quando se aborda um personagem desse meio, é por um olhar de preconceito, sem ressaltar a qualidade musical. Susanna, no entanto, trata Marília com o respeito que ela merece e se preocupa em explicar as origens, influências e motivações da popstar sertaneja.

Marília nasceu num ambiente de extrema pobreza, a ponto da família ter apenas arroz como refeição principal e vender os móveis da casa para garantir sua sobrevivência. O encantamento pela música logo cedo passou de hobby para profissão. Durante a adolescência, ela passou a cantar em bares e boates, sempre acompanhada pela mãe, a fim de garantir o sustento da família. O talento dela para a criação de canções chamou a atenção da Workshow, uma empresa de agenciamento artístico do mercado sertanejo. A princípio, ela atuava como compositora para outros nomes da casa. Pouco depois, se bandeou para a carreira solo. O resto é história.

Sentimento Louco conta a trajetória de Marília com detalhes e farto material de arquivo. Um dos merecidos destaques da produção é a importância de Juliano Tchula, principal parceiro do início da carreira da cantora — que, desiludido com o universo sertanejo, se recolheu e recusa qualquer pedido de entrevista. 

Há também detalhes sobre os problemas causados pelo excesso de exposição, de álcool e do preço alto que o showbiz do universo sertanejo cobra de quem busca o sucesso. Acima de tudo, é um retrato fiel de uma menina cujo sonho era se tornar uma estrela — o que, evidentemente, conseguiu de modo exemplar.

Susanna, que também retratou as vidas de Jorge Loredo (o eterno Zé Bonitinho), da escritora Fernanda Young e do comediante Mussum, dá uma conclusão perfeita sobre o impacto causado por Marília Mendonça. 

“A porta que ela abriu junto com Maiara & Maraísa e outras cantoras que estão surgindo não vai se fechar. É uma geração que quer muito continuar falando sobre esse assunto. O efeito Marília é eterno.”

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