Entrar numa exposição de Roy Lichtenstein é achar que sabemos o que vamos encontrar: contornos pretos, cores primárias, quadrinhos, os famosos pontos Ben-Day. Poucas linguagens visuais do século 20 se tornaram tão reconhecíveis. Mas Roy Lichtenstein: Like New, no Whitney Museum, em Nova York, mostra que há muito mais por trás dessa estética tão familiar.
A primeira grande retrospectiva nova-iorquina desde a mostra do Guggenheim, em 1993, percorre sua produção dos anos 1940 até sua morte, em 1997, em mais de 130 obras. Mais do que reunir os sucessos da Pop Art, tenta libertá-lo de um estilo.
“Todo mundo reconhece a obra de Lichtenstein por sua linguagem visual, mas queríamos ir além da superfície. O que acontece no coração desse trabalho?,” indaga Meg Onli, curadora ao lado do artista Alex Da Corte. Para ele, a descoberta é uma prática “curiosa, estranha e sempre em busca de alguma coisa.”
Logo na entrada, uma explosão visual: o Greene Street Mural. Criado em 1983 para a galeria Leo Castelli, no SoHo, o painel de quase 30 metros foi destruído após a apresentação original e agora reaparece recriado à mão. Seguindo o percurso, somos transportados a 1962, para a primeira exposição individual Pop de Lichtenstein na mesma galeria.

Oito pinturas, entre elas The Kiss (1961), Blam (1962) e Laughing Cat (1961), que desconcertaram a crítica da época, são reunidas novamente. A reconstituição chega aos mínimos detalhes. “Analisamos inclusive a altura em que elas tinham sido penduradas para recriar o ambiente,” conta Alex Da Corte.
“O interessante é o que parece tão simples e mecânico nas pinturas de Lichtenstein, quase machine-like, exigia um trabalho artesanal,” aponta Alex Da Corte. No início, ele usava uma escova de dentes para fazer a tinta atravessar uma tela de alumínio e criar seus famosos pontos Ben-Day.
Desenhos, colagens, estudos e maquetes — alguns inéditos, doados por sua mulher Dorothy Lichtenstein e pelo espólio do artista — revelam o trabalho minucioso por trás daquela aparência industrial. “Todo bom artista precisa saber desenhar — e, boy, como ele sabia!,” resume Alex Da Corte.
Em uma sala oval, diversos espelhos que não refletem convidam à reflexão. “Eles sugerem um reflexo, mas nunca refletem nada,” observa Meg Onli, que considera esse um dos highlights da exposição. O interesse de Lichtenstein pela maneira como enxergamos as imagens é anterior até mesmo à Pop Art.
A exposição recupera a influência de Hoyt Sherman, seu professor na Ohio State University, que propunha exercícios com flashes e imagens vistas por instantes. O objetivo era investigar não apenas o que os olhos captam, mas o que permanece na memória. Uma pista para compreender toda a sua obra: Lichtenstein não reproduzia simplesmente objetos, mas a imagem que construímos deles.

Diante de Super Sunset Billboard (1967), passado e presente se encontram. Uma visitante especial acrescenta outra camada à história: Joan Kron, jornalista e promotora de projetos de arte pública nos anos 1960. Foi ela quem, ao lado de Audrey Sabol, idealizou o projeto Art on Billboards e encomendou a Lichtenstein o painel original.
Joan chegou a fotografar o artista diante da obra e agora, quase seis décadas depois, reencontra sua recriação. “É uma alegria enorme estar aqui,” diz, emocionada, lembrando que levou cerca de quarenta anos para ver sua ideia de levar arte aos outdoors ganhar vida. O encontro também comove Alex Da Corte, responsável pela recriação do painel, instalado diante de uma janela do Whitney Museum, como se a paisagem pintada se prolongasse no horizonte real do rio Hudson.
Paisagens voltam a ser um tema nas obras tardias do artista, inspiradas pelas tradicionais pinturas chinesas em tinta (shanshui). Em Treetops Through the Fog (1996), da série Landscapes in the Chinese Style, que fecha a exposição, Lichtenstein reinterpreta essa tradição por meio de seus característicos pontos Ben-Day, que se dissolvem em montanhas e névoas, numa delicadeza inesperada para quem entrou esperando explosões de cores e quadrinhos.
Saímos reconhecendo Roy Lichtenstein — e com a estranha sensação de tê-lo visto pela primeira vez.

Roy Lichtenstein: Like New
Em cartaz no Whitney Museum, em Nova York, até 10 de maio.
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