O elevador secreto para o mundo Prada

O elevador secreto para o mundo Prada

A grife celebra sua história em espaço de oito andares onde tudo começou, na Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão

É comum que, na ficção, existam passagens que levem os personagens a um lugar mágico. Na vida real, elas também existem. 

Disfarçada de um elevador prateado, a entrada para o mundo Prada fica na bicentenária Pasticceria Marchesi 1824, na Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão. 

O endereço, além de ser um movimentado e luxuoso ponto turístico, abriga a primeira boutique da marca, então chamada Fratelli Prada, inaugurada em 1913 por Mario, avô de Miuccia Prada, e Martino Prada. Era a única loja da grife que permanecia aberta em 1988, quando a estilista decidiu lançar sua primeira coleção de prêt-à-porter. O resto é história.

É na Prada Galleria que essa imersão acontece. Sob a direção de Miuccia Prada, o projeto foi inaugurado durante a semana de moda milanesa e reúne, em oito andares, uma série de experiências que englobam compras, hospitalidade, história, arte, cinema, esporte e, claro, moda. 

A visita começa pela Pradasphere, área expositiva dedicada às origens da marca e às transformações pelas quais passou ao longo do tempo. É lá que repousa a Satiro Bag, bolsa de noite em seda marmorizada e plissada, adornada com franzidos e dobras decorativas, que remonta aos primórdios da Fratelli Prada. 

A peça permaneceu salvaguardada na sede industrial da marca em Valvigna, onde ficam os arquivos históricos das coleções de artigos de couro e calçados, além das instalações de produção e desenvolvimento das coleções da Prada e da Miu Miu e dos armazéns de matérias-primas.

Seus fechos estruturais, esculpidos à mão com figuras mitológicas, remetem a um momento em que as artes decorativas europeias eram profundamente moldadas por influências orientais — um fascínio intercultural que permeou as belas-artes e as artes aplicadas do final do século XIX e início do século XX. 

Uma pequena figura desafiadora, semelhante a um sátiro, emerge com a língua de fora, encarando o mundo. Miuccia Prada resgatou essa imagem em sua coleção de verão 2024. Além da bolsa, há malas, estojos de viagem e sapatos que datam da segunda década do século XX e remetem ao período em que a Prada foi nomeada fornecedora oficial da família real italiana, em 1919.

Nas salas seguintes, é possível reconhecer as criações da própria Sra. Prada. Entre elas, há um look formado por casaco, calça de alfaiataria e sapatos Oxford, pertencente à sua primeira coleção de prêt-à-porter, para o inverno de 1988. 

Composta por setenta peças, a coleção utilizava os melhores tecidos e fazia referência ao gosto pessoal da estilista e ao seu guarda-roupa, mesmo quando as propostas contrariavam suas preferências. Incluía uma alfaiataria sem frescuras, inspirada em roupas masculinas em preto e marrom, acompanhada de conjuntos e vestidos em vermelho vibrante e pink, com silhuetas dos anos 1950.

Dali em diante, ao percorrer os ambientes linhas do tempo acompanham fielmente a evolução de seus clássicos, da bolsa Hyperbole, de sua estreia no inverno de 1988, a outros acessórios e sapatos que remetem ao design revolucionário da marca. 

Nos manequins, sejam estáticos ou dispostos em torno das saias giratórias — uma referência à última passarela de verão 2027, que ecoa o amor de Miuccia pela peça —, as criações são hipnotizantes, seja por suas superfícies táteis, pelos bordados e estampas ou pelo movimento. 

Por fim, ainda é possível encontrar os uniformes para astronautas, desenvolvidos em parceria com a Axiom Space para incorporar tecnologias avançadas aos trajes espaciais da Nasa no programa Artemis.

No caminho, entre as telas que permitem fazer buscas imediatas nos arquivos da Prada, há uma pequena sala, espécie de reprodução reduzida do cinema de Godard na Fondazione Prada, com sessões de filmes. É petit, mas aconchegante.

No andar superior, fica o Studio, onde funciona o ateliê dedicado a compras altamente personalizadas, mediante agendamento, além de um hall central destinado a compras privadas e eventos. 

Acima, o Appartamento resgata o conceito de um apartamento do século XVIII, concebido para receber convidados e sediar jantares privados e ocasiões especiais. O espaço tem curadoria do renomado fotógrafo Andreas Gursky.

No topo, o Osservatorio Fondazione Prada é dedicado à experimentação visual e à pesquisa na intersecção entre tecnologia, cultura contemporânea e expressão artística. Concebido como uma plataforma aberta a novas formas de criação de imagens e mídias, explora como as linguagens visuais evoluem em resposta às mudanças tecnológicas, sociais e políticas do nosso tempo.

Pelo elevador — aquele mágico do início do percurso —, é possível chegar ao Passaggio Segreto. O interessante desse caminho secreto, que desemboca diretamente na loja Prada Donna, é a exposição, de fato, secreta, que reúne episódios menos conhecidos da história da marca, como o celular LG Prada. 

Os itens reunidos revelam os resultados de intuições pioneiras e experimentos que integram a prática autorreflexiva e colaborativa que define a metodologia da Prada. Entre eles, estão as bisnagas de uso único para produtos de beleza, concebidas para evitar a oxidação. 

Em conjunto, esses objetos representam alguns dos pioneirismos audaciosos da empresa, cujas influências repercutem amplamente.

Nesse nível subterrâneo, a Prada Donna foi renovada com a expansão, que quase duplica seu espaço de exposição. A boutique reúne as coleções femininas e uma extensa área dedicada a viagens, além de produtos para casa e beleza, em meio a murais históricos e objetos de arquivo. Na diagonal, fica a Prada Uomo, também acessível por uma passagem subterrânea.

Com esse grand finale, já dá para voltar à Marchesi, a pasticceria fundada por Angelo Marchesi em 1824 e que hoje pertence ao grupo Prada, para comer um panino. 

Para chegar lá, vale ir de escada ou elevador — mas cuidado para não se deixar seduzir por todo o percurso mais uma vez.

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