A sétima arte faz parte da vida de Renata de Almeida desde cedo. Ainda criança, frequentava as matinês do cinema da Rua Augusta, hoje ocupado pelo Cinesesc, para assistir Tom e Jerry.
“Minhas irmãs saíam correndo do cinema, e eu ficava decepcionada. Naquela época, não havia muitos filmes para criança; Mogli era um dos raros filmes infantis. Já um pouco mais velha, fui com meus pais assistir a Dersu Uzala, de Akira Kurosawa, a filmes de Truffaut e a A Gaiola das Loucas. Tinha também o Peter Sellers, com a Pantera Cor de Rosa,” diz em entrevista ao Page9.
O tempo passou e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo entrou na vida de Renata em 1989. Era a 13ª edição do evento criado pelo crítico de cinema Leon Cakoff em 1976.
“A Mostra surgiu durante a ditadura militar no Brasil. Naquela época, saíam muitas matérias dizendo que o único lugar em que as pessoas podiam votar era na Mostra,” diz, referindo-se ao voto do público, que até hoje acontece após cada sessão, elegendo, ao final de cada edição, as melhores produções.

Renata e Cakoff se casaram e, depois que ele faleceu, em 2011, ela se tornou diretora da Mostra. Este ano, em que o evento completa 50 anos, há muito o que comemorar: mais do que uma seleção de filmes que, muitas vezes, não chegam ao circuito comercial, a Mostra é importante para a formação cultural de todos que moram na maior cidade do País e arredores.

“Teve um momento em que achávamos que o público da Mostra envelheceria junto com ela, até deixar de existir. Foi quando fizemos uma pesquisa e descobrimos que de 10% a 15% das pessoas estavam indo à Mostra pela primeira vez!”
O público, que lota os cinemas e faz as famosas “filas da Mostra” — onde os cinéfilos se reconhecem, amigos se encontram e muitos casais são formados — é um capítulo à parte nesses 50 anos.
Há grupos de WhatsApp e muito burburinho durante o evento, no famoso “boca a boca” para indicar um filme que, muitas vezes, poderia passar despercebido. Afinal, só este ano são 380 produções de 93 países, entre inéditos, clássicos restaurados e filmes infantis que integram a Mostrinha, que chega à sua terceira edição.
“Muita gente vai à Mostra sabendo que vai encontrar os amigos. E o paulistano é um tanto tímido, né? A Mostra acaba sendo uma boa desculpa para conversar. Você pergunta a alguém qual filme vai ver e, como são tantas opções, é fácil se sentir um pouco perdido. Aí as pessoas trocam dicas nos bares, nas filas... Uma recomenda um filme à outra, e isso cria um sentimento de pertencimento. Existem grupos de amigos da Mostra, pessoas que sabem que, pelo menos uma vez por ano, vão se encontrar,” diz Renata.
Ela lembra de um grupo de senhoras de Natal, no Rio Grande do Norte, que conheceu em uma das edições.
“Elas me falaram que juntam dinheiro o ano todo para vir a São Paulo na época da Mostra. Alugam um Airbnb, ficam todas juntas, é uma reunião de amigas em função do evento. Isso é muito legal.”
Chegar à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é um marco. Renata revela o sentimento às vésperas de uma edição histórica.
“Eu sempre fui um pouco temerosa com números. Cinquenta anos criam uma expectativa, e expectativa às vezes decepciona. Mas agora já passou esse temor, a gente trabalhou pra caramba, e tem muita coisa comemorativa. Acho que é uma vitória ter conseguido chegar até aqui.”
“São tantos anos existindo e ainda sendo relevante. Tem um público jovem que chega pela primeira vez e um público fiel que continua. A gente tem que estar feliz e grato por ter chegado até aqui. Aos trancos e barrancos, como o mundo anda, mas a gente está aqui.”

Renata de Almeida ressalta que, como curadora, está atenta ao que acontece no mundo, acompanhando as mudanças do audiovisual para incluí-las na Mostra.
“Ao longo dos anos, a Mostra foi se adaptando. Quando surgiu a realidade virtual, por exemplo, abrimos espaço para ela, com uma instalação maravilhosa de Laurie Anderson [em 2018]. Como curadora, tenho que estar atenta não só ao público, mas também ao mundo. Isso traz renovação.”
Ela revela histórias de bastidores de nomes consagrados do cinema que passaram pela Mostra no início de suas carreiras.
“Quentin Tarantino apresentou seu primeiro filme na Mostra, Cães de Aluguel, em 1992. Aqui, ficou superamigo da atriz portuguesa Maria de Medeiros — andavam de uma sala para outra juntos e, anos depois, fizeram Pulp Fiction.”
“O cineasta italiano Paolo Sorrentino também apresentou seu primeiro filme, Um Homem a Mais, na Mostra, em 2001. Ele não saía do hotel, e fui perguntar se estava tudo bem. Então me informaram que ele teve uma ideia para um roteiro. Anos depois, em 2004, em Cannes, ele apresentou o filme As Consequências do Amor, que se passa num hotel, e contou que havia escrito o roteiro durante a Mostra.”
O espanhol Pedro Almodóvar, o alemão Wim Wenders e o português Manoel de Oliveira são alguns dos diretores que passaram por São Paulo para prestigiar o evento. Eles são lembrados no livro Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (COSAC), em que Renata de Almeida reúne histórias divertidas, relatos de resiliência, encontros proporcionados pela Mostra e momentos importantes de sua vida pessoal.

O livro traz prefácio do cineasta Walter Salles e coordenação editorial de Álvaro Machado.
Um dos nomes importantes da Mostra de São Paulo é Abbas Kiarostami. O cineasta iraniano tornou-se mundialmente conhecido com Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987).
Desde então, exibiu todos os seus filmes na Mostra, incluindo o clássico O Gosto da Cereja (1997), cuja adaptação feita pelo diretor argentino Lisandro Alonso, com Wagner Moura no papel principal, deve chegar aos cinemas em 2027. O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1997. Kiarostami morreu em 2016, aos 76 anos.
Ele foi homenageado com o Prêmio Leon Cakoff em 2012, e dá nome ao Prêmio Especial Abbas Kiarostami, concedido para reconhecer obras que dialogam com a sensibilidade poética.
Nos dez anos de sua morte, será tema da exposição STEPS – Fotografias Inéditas de Abbas Kiarostami, no MIS, entre os dias 20 de outubro e 08 de novembro. O filho do cineasta, Ahmad, veio a São Paulo prestigiar a Mostra. Renata fala com carinho do cineasta.
“A Mostra lançou cineastas que marcaram sua história, e isso é sempre lembrado. Kiarostami foi um deles, e tivemos uma relação muito forte. A Mostra ajudou a projetar o cinema iraniano no Brasil,” disse.
Entre os filmes que serão exibidos na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo estão o vencedor do Festival de Cannes, Fjord, do romeno Cristian Mungiu, e o vencedor do Festival de Veneza, Mulher Desconhecida, da dinamarquesa May el-Toukhy. Mas, quando pergunto se Renata de Almeida teria algum filme para indicar ao público, ela se esquiva.
“Não! Isso é função sua, não minha,” brinca, acrescentando que este ano foram 1.700 filmes inscritos, mas ela não assiste todos.
“Tenho uma equipe que vê os filmes e vai me falando: ‘Esse sim, aquele talvez.’” Eu vejo muitos filmes, vou aos principais festivais, mas não tenho ideia de quantos filmes assisto por ano. Mas são muitos!”
A Mostra também abre espaço para séries, e isso não é de hoje. Che, de Steven Soderbergh (2008), foi exibida no Brasil primeiramente no evento. Este ano, um dos destaques será a apresentação de dois episódios de Sócrates Brasileiro, ainda em finalização.
A série sobre o jogador do Corinthians e da Seleção Brasileira, uma das figuras mais importantes da Democracia Corinthiana, é o primeiro trabalho do diretor Walter Salles depois do sucesso de Ainda Estou Aqui.

Já a Mostrinha, em sua terceira edição, nasceu não só do desejo de formar uma nova geração de cinéfilos, como Renata explica.
“O impulso para criar a Mostrinha, além da formação de público, veio porque comecei a ficar muito chocada com o que a infância representa hoje. Ao longo da história, as crianças passaram a ser tratadas como adultos e até submetidas ao trabalho nas fábricas. Hoje, lembro da história em Gaza, de como as crianças eram violentadas e consideradas tão culpadas quanto os adultos. Não podemos deixar o conceito de infância ser esquecido. Precisamos protegê-la.”
O evento acontece até 29 de outubro, em 57 salas de cinema, espaços culturais e CEUs espalhados pela capital paulista.
Além dos filmes, a programação inclui o Encontro de Ideias, com debates sobre o mercado audiovisual; a exposição Tempo e Movimento: Os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Solar Fábio Prado; e os lançamentos de um livro de memórias de Renata de Almeida e de 50 Anos, 50 Cartazes: A História dos Cartazes da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que reúne os cartazes das 50 edições do festival.
A edição 51 da Mostra está garantida, e Renata revela que a preparação para o evento do ano que vem já começou. “Já temos algumas ideias e estamos trabalhando nisso,” conta.
Os cinéfilos agradecem e desejam vida longa à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.














