Figura mais que conhecida no mundo da beleza — não apenas pelo visual marcante, um descendente de japoneses com cabelos extralongos, mas por ser o que se chama de “fundamento” da indústria de cabeleireiros —, Celso Kamura, 67 anos, é também nome quente entre políticos. Em ano de eleição, como este, e data em que comemora 50 anos de profissão, Celso conta que a agenda lota com candidatos que precisam mudar o visual e de… sorte. “Todo ano que tem eleição, esse salão ‘chove’. É uma loucura. É vereadora, deputado... E o que eles querem? Sorte,” diz Celso, de sua sala no terceiro andar do salão na Rua da Consolação, em São Paulo.
Celso já cuidava dos cabelos de Marta Suplicy desde 1999, quando foi procurado, em 2010, por João Santana, marqueteiro de Dilma na época. A então futura Presidenta precisava de um novo estilo para ganhar as eleições. “Ia ser o Wanderley [Nunes, cabeleireiro], mas João falou que não. Que tinha que ser eu. E a Dilma não ia aguentar uma equipe tão grande em cima dela. Porque o Wanderley só corta, né? Eu sozinho faço tudo: corto, penteio, maquio… ,” diz, deixando claro que hoje não existe picuinha alguma (pelo menos do seu lado) em relação aos colegas de profissão da mesma geração. “O Marco Antonio [de Biaggi, cabe] já falou mal de mim na Veja. Ele cantava todas as minhas clientes…”
Celso também cuida de Fernando Haddad, de quem corta o cabelo desde que era prefeito de São Paulo. “Ah, de vez em quando eu tenho que falar para ele: ‘você tá muito feio…’”
Autoridade em beleza no Brasil, Celso Kamura construiu, ao longo dessas cinco décadas de trabalho, uma marca forte para além dos dois salões próprios que comanda: tem quatro salões licenciados, um deles abriu no fim do ano passado em Lisboa; uma linha com 120 SKUs entre tonalizantes, shampoos e gel de cabelo; e uma escola, a EBN - Escola de Beleza e Negócio.
Unir o útil ao agradável ou, no caso, o criativo e o comercial foi uma das chaves do sucesso de Celso, que deve o seu desenvolvimento aos editoriais de beleza das revistas de moda. “Nos anos 1990, participei de todas as revistas. E isso ajudou a desenvolver o meu trabalho porque cada título tinha um estilo completamente diferente do outro. Descobri ali que existiam várias belezas para vários tipos de pessoas,” diz ele, que bate na tecla que todo cabeleireiro precisa gostar de moda. “Minha primeira capa foi da revista Manequim, com Regina Duarte e a filha dela. Acabou a luz no estúdio, ficamos umas quatro horas assim. Imagina a Regina Duarte…”
E foi justamente fazendo capa de revista que ele conheceu uma das suas maiores clientes. “A Angélica chegou superatrasada para as fotos da extinta revista Mercado Mundo Mix, no ano 2000. Fiz escovão, botei mecha preta, vermelha, maquiei bem over e ela amou a minha rapidez. Nunca mais me deixou,” diz ele, que também cuida do corte do Luciano Huck. Angélica foi sócia de Celso no salão no Village Mall, no Rio, entre 2013 e 2022. Hoje, o salão é um licenciamento.
Nascido no Paraná, Celso se mudou para São Paulo com um ano, depois que seu pai morreu. Aos 13, foi office boy. Aos 16, ainda trabalhando em escritório, fez um teste de maquiador no salão de um vizinho e passou. “Ser maquiador não era uma profissão, era uma brincadeira. Quando entrei no salão, com pessoas trans, vi que pertencia ali. Existia muito preconceito na rua e eu sempre fui pintosérrima. Eu preferia me passar por mulher do que ficar passando carão na rua,” diz.
Numa viagem a Paris, em 1982, onde foi fazer curso de moda e criação com Alexandre de Paris e Jean-Louis David, se encantou com o profissionalismo dos cabeleireiros franceses. “As pessoas tinham um respeito por aquele profissional que não existia aqui. Ninguém dava esse valor à profissão de cabeleireiro aqui. Eu tinha um amigo que mentia, falava que fazia outra coisa, menos ser cabeleireiro,” diz.
Celso, junto com Marco Antonio de Biaggi, Mauro Freire e Wanderley Nunes, foi um dos primeiros cabeleireiros a se tornar estrela no País — movimento que já existia fora com Vidal Sassoon, Frédéric Fekkai, Jean-Louis David e Alexandre de Paris. “Abrimos caminho para os novos profissionais. Comecei a ser reconhecido na rua, fora da bolha da moda, por causa da Dilma. Para mim, sucesso é isso: ser reconhecido pelo seu trabalho,” diz.
Presidenta, governadores, prefeitos, globais, modelos, apresentadores… Celso fez tudo e todo mundo. Não se arrepende de nada (nem de ninguém) em sua carreira longeva. “Corrige aí. Não fiz todo mundo. Meu sonho era fazer a Vera Fischer. Ela foi e é babado…”

















