Barbarela nasceu em 1976, na Avenida Prado Júnior. O nome veio do filme estrelado por Jane Fonda. A alma, Copacabana tratou de inventar sozinha.
Ali, deputado bebia ao lado de travesti, grã-fina dividia o balcão com cafajeste, artistas conversavam com acompanhantes de luxo, jornalistas descobriam que as melhores reportagens jamais poderiam ser publicadas. O Barbarela nunca foi apenas uma boate: era um endereço onde a madrugada resolvia não ir dormir.
Os antigos contam uma cena que virou folclore. No aniversário de um célebre bon-vivant carioca, descendente da lendária linhagem do Clube dos Cafajestes, o playboy Jorginho Guinle atravessou a porta do Barbarela carregando uma caixa com dez garrafas de Dom Pérignon, como quem leva flores para o funeral da mediocridade.
Alguns homens entram discretamente. Outros fazem da própria entrada um espetáculo. No auge de um striptease, uma mulher vestida de pantera dominava o palco. Chamaram Jorginho. Ele subiu, abriu uma garrafa no sabre, fez a rolha cortar o salão como um cometa e levou a garrafa à boca da pantera. Ela bebeu, sorriu. Ele a beijou demoradamente. Abraçaram-se como dois cúmplices de um pecado elegante. O salão veio abaixo. Uns aplaudiam, outros invejavam. E havia quem apenas acendeu outro cigarro, porque sabia que aquela noite ainda estava começando.
Em outra noite, Cazuza comemorou o aniversário no Hippopotamus. Para qualquer pessoa normal, a festa terminaria ali. Para Cazuza, aquilo era apenas o aperitivo. Reuniu uma dezena de amigos e atravessou Copacabana rumo ao Barbarela, como quem muda de ato numa ópera etílica. A partir dali, o relógio perdeu qualquer autoridade.
Champanhe, uísque, cigarros, gargalhadas, mulheres perigosamente bonitas, homens perigosamente interessantes e beijos que nasceram apenas para não sobreviver ao amanhecer. Ninguém queria ir embora: ir embora era uma falta de educação com a noite.
Quando finalmente empurraram a porta do Barbarela, o relógio marcava dez da manhã. Os jornaleiros já empilhavam os jornais, os garçons serviam os primeiros cafés e o sol invadia Copacabana com a delicadeza de um fiscal da Receita. Eles ainda tinham perfume de madrugada na roupa e álcool suficiente na alma para acreditar que a vida, quando bem vivida, sempre chega atrasada no dia seguinte.
Havia uma elegância quase obscena naquele desperdício de tempo. Hoje chamam isso de excesso; naquele Rio, chamavam apenas de terça-feira.
Mas o Barbarela também era feito de personagens que hoje pareceriam invenção de algum roteirista bêbado. Contam que Yarley, figura lendária da noite de Copacabana, discutiu com um empresário alemão. A voz subiu, um pequeno canivete apareceu, meia dúzia de habitués segurou os dois e, antes que a polícia tivesse tempo de imaginar o que estava acontecendo, a confusão já havia terminado.
Quinze minutos depois, alguém brindava no balcão, outro pedia outra dose e uma vedete voltava ao palco. No Barbarela até os escândalos tinham prazo de validade. A decadência nunca foi triste: apenas vestia melhor que todo mundo.
Por mais de quatro décadas, stripteases, humor, música e personagens deram vida a um dos últimos inferninhos de Copacabana. Sobreviveu ao moralismo, às ressacas, às patrulhas dos bons costumes e às mudanças de comportamento. Caiu apenas diante da pandemia, em 2020. Resistiu à hipocrisia brasileira, mas não resistiu a um vírus.
Foi ali que Cazuza eternizou um dos versos mais bonitos e mais cruéis da música brasileira: "Tomei champanhe e cicuta com comentários inteligentes mais tristes que os de uma puta no Barbarela às quinze pras sete."
O champanhe era o luxo, a cicuta era a conta. Às seis e quarenta e cinco da manhã não existia glamour. Restavam apenas os sobreviventes da noite, quando o batom já havia borrado, a gravata tinha perdido o nó e a alma finalmente dizia a verdade.
Talvez por isso Cazuza tenha escolhido exatamente aquele lugar. O Barbarela nunca vendeu fantasia: vendia uma sinceridade que só aparece quando a madrugada já expulsou todas as máscaras.
No fundo, Cazuza não escreveu sobre uma boate. Escreveu sobre um Rio de Janeiro que produzia personagens em vez de celebridades. Um Rio onde Jorginho Guinle dava Dom Pérignon na boca de uma pantera, onde uma discussão podia terminar em gargalhada, onde dez horas da manhã eram apenas uma continuação da noite anterior e onde a vida tinha o péssimo hábito de acontecer antes que alguém pensasse em fotografá-la.
Talvez seja por isso que tanta gente sinta saudade daquele tempo. Não por causa da boemia, mas porque, naquela época, até a decadência tinha classe. De leve...















