A arte indígena amazônica invade Nova York

A arte indígena amazônica invade Nova York

Em cartaz na David Nolan Gallery, “Riverlines” reúne três gerações de artistas e conecta saberes ancestrais à arte contemporânea

Nova York — A meia quadra de distância do Metropolitan está a David Nolan Gallery.

Fundada em 1987, a galeria construiu sua reputação exibindo grandes nomes da arte moderna e contemporânea e ampliou seu programa para incluir artistas e produções que desafiam as narrativas tradicionais da história da arte.

Neste verão, a galeria exibe Riverlines, exposição dedicada às obras de três gerações de artistas indígenas amazônicos: Chico da Silva, Joseca Yanomami e Kuenan Mayu. 

Por meio da pintura, do desenho e do tecido de casca de árvore, os artistas interpretam tradições ancestrais e afirmam a arte amazônica como uma prática estética e política, em diálogo com questões como clima, extrativismo e direitos indígenas.

Assim como os rios que atravessam a Amazônia, Riverlines revela conexões entre territórios, memórias e conhecimentos transmitidos entre gerações.

O curador da mostra, Simon Watson, canadense naturalizado nos Estados Unidos, acessou o universo das artes indígenas por meio da obra de Chico da Silva (1910–1985). 

Primeiro artista indígena a ter seu trabalho exposto na Bienal de Veneza, Chico caiu no esquecimento após sua morte, até ser redescoberto por Watson na área de exposições privadas da Galeria MaPa, em São Paulo, em 2022. 

Desde então, três individuais dedicadas à sua produção já foram organizadas. Sua pintura constrói universos visuais povoados por seres híbridos, animais fantásticos e formas extraídas das mitologias e tradições do Norte do Brasil.

Seguindo a ordem cronológica, vem Joseca Yanomami (1971), artista do povo Yanomami que traduz em desenho as imagens e conhecimentos transmitidos pelos xamãs de sua comunidade. 

A mais nova entre eles é Kuenan Mayu (2003), artista que pertence a uma linhagem indígena diversa — Magüta (Tikuna), Tariana e Tukano —, nascida e criada em Ticuna Feijoal, território indígena às margens do rio Solimões, na fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. 

A primeira vez que Mayu saiu de seu território foi aos 16 anos, quando se mudou para Brasília para acompanhar a mãe, que foi estudar medicina. “Foi um choque de realidade muito grande,” disse ao Page9, em uma vídeo chamada durante sua passagem pelos Estados Unidos para a abertura da exposição. “Ao mesmo tempo em que encontrei uma educação com mais estrutura, também encontrei muita violência institucional.” 

A falta de acolhimento despertou na artista uma dimensão política. “Hoje eu me entendo como uma ‘artivista’, porque acredito na arte como uma ferramenta de transformação, movimentação e articulação,” disse. 

Sua experiência como mulher indígena e trans também atravessa sua relação com o corpo e com as possibilidades de existência que sua obra investiga.

De volta à sua comunidade, após a mãe interromper o curso de medicina em meio a episódios de racismo e violência institucional, Mayu passou a unir as práticas tradicionais de seu povo às experiências que havia vivido fora. “Comecei a pensar como o meu corpo indígena atravessava esses espaços e como a arte poderia criar pontes entre esses mundos.”

A artista trabalha sobre a casca sagrada do tururi, material que conheceu na infância acompanhando as mulheres de sua comunidade. “Minha avó fazia o tururi, que é esse material que eu trabalho até hoje. É uma prática sagrada, porque todo o processo envolve uma relação espiritual.”

Sua série Évora nasce desse universo, inspirado em um lugar sagrado associado à fartura, abundância, prosperidade e coexistência. “Eu queria imaginar futuros possíveis a partir dessa visão, mas também trazer uma reflexão política: quando uma pessoa olha para o meu trabalho, eu quero que ela resgate uma memória de humanidade que foi perdida.”

Para Mayu, a arte é uma forma de propor outras maneiras de se relacionar com o mundo. “Meu trabalho parte desse lugar espiritual, mas também como uma metáfora para apontar um caminho possível. Eu não estou buscando uma solução para o mundo, mas mostrando que existem outras formas de se relacionar e imaginar futuros.”

Representada pela galeria Mazzuchelli Cardoso, a artista se prepara para participar do 39º Panorama de Arte Brasileira do MAM, em São Paulo, que começa no dia 12 de setembro.

Em sua obra, beleza, memória e conhecimento ancestral são inseparáveis — e sem fronteiras. 

Riverlines
Até 31 de julho.
David Nolan Gallery, Nova York