Diário de uma man-eater: capítulo 8

Diário de uma man-eater: capítulo 8

Os relatos íntimos de uma recém-divorciada de 45 anos

O dono daquelas mãos

O ventilador não estava quebrado, só precisava de um aperto em uma das hastes.

Diagnóstico feito, ele desceu para pegar a maleta de ferramentas azul-petróleo que eu tinha dado para o André num dia dos namorados recente. Puro romance.

Enquanto isso, tentava lembrar o nome dele.

Augusto, Bernardo, Carlos. Repassei o alfabeto três vezes.

Adriano, Bruno, Cassiano. Nada.

Curioso, porque eu sabia o nome do guarda da rua, do entregador da farmácia, do rapaz do hortifrúti, da professora de hidroginástica da minha mãe. Só o dele que não.

Talvez o tivesse visto a vida inteira como objeto. Uma boia, um ombrelone, uma espreguiçadeira e o moço da piscina. A vergonha que sentia daquela situação era proporcional ao calor que só aumentava.

Fui até o banheiro jogar uma água no rosto. Quando voltei, ele me esperava à porta com a chave de fenda na mão, escada debaixo do braço, pano no ombro e uns parafusos entre os dentes.

Era a primeira presença masculina naquele quarto em muito tempo. Não conto Pedro, que gostava de aparecer à noite quando seu pai ainda dormia comigo ou pulava na cama de manhã cedo chamando a gente para brincar. Ele ocupava o espaço em silêncio, com passos firmes e quase sem falar.

Também em silêncio, acompanhava tudo como se fosse uma final de campeonato.

Ele subiu na escada. Eu observei.

Apertou um parafuso. Dois, três.

Pediu o pano, que tinha caído no chão enquanto ele armava a escada. Entreguei por engano a toalha de rosto.

Match point.

Ele sorriu. Ligou o ventilador.

As pás voltaram a girar sem o “tec tec” de antes.

Agradeci empolgada, como se pudesse compensar o fato de não saber o nome dele.

Com uma mão só, pegou a escada, o pano, a chave de fenda. Acenou com a outra e saiu.

Fechei a porta e me pus debaixo do ventilador. Meu cabelo voou, exceto o que estava colado pelo suor na testa. Eu continuava com calor.

Tirei a blusa. Depois a regata. Abri a janela.

Nenhuma das três coisas ajudou.

Fiquei alguns segundos olhando para as hastes no teto.

A terapeuta me lançou aquele sorriso irritante no cineminha da minha cabeça. Tanto tempo olhando para trás que o dono daquelas mãos nem nome tinha.