O dono daquelas mãos
O ventilador não estava quebrado, só precisava de um aperto em uma das hastes.
Diagnóstico feito, ele desceu para pegar a maleta de ferramentas azul-petróleo que eu tinha dado para o André num dia dos namorados recente. Puro romance.
Enquanto isso, tentava lembrar o nome dele.
Augusto, Bernardo, Carlos. Repassei o alfabeto três vezes.
Adriano, Bruno, Cassiano. Nada.
Curioso, porque eu sabia o nome do guarda da rua, do entregador da farmácia, do rapaz do hortifrúti, da professora de hidroginástica da minha mãe. Só o dele que não.
Talvez o tivesse visto a vida inteira como objeto. Uma boia, um ombrelone, uma espreguiçadeira e o moço da piscina. A vergonha que sentia daquela situação era proporcional ao calor que só aumentava.
Fui até o banheiro jogar uma água no rosto. Quando voltei, ele me esperava à porta com a chave de fenda na mão, escada debaixo do braço, pano no ombro e uns parafusos entre os dentes.
Era a primeira presença masculina naquele quarto em muito tempo. Não conto Pedro, que gostava de aparecer à noite quando seu pai ainda dormia comigo ou pulava na cama de manhã cedo chamando a gente para brincar. Ele ocupava o espaço em silêncio, com passos firmes e quase sem falar.
Também em silêncio, acompanhava tudo como se fosse uma final de campeonato.
Ele subiu na escada. Eu observei.
Apertou um parafuso. Dois, três.
Pediu o pano, que tinha caído no chão enquanto ele armava a escada. Entreguei por engano a toalha de rosto.
Match point.
Ele sorriu. Ligou o ventilador.
As pás voltaram a girar sem o “tec tec” de antes.
Agradeci empolgada, como se pudesse compensar o fato de não saber o nome dele.
Com uma mão só, pegou a escada, o pano, a chave de fenda. Acenou com a outra e saiu.
Fechei a porta e me pus debaixo do ventilador. Meu cabelo voou, exceto o que estava colado pelo suor na testa. Eu continuava com calor.
Tirei a blusa. Depois a regata. Abri a janela.
Nenhuma das três coisas ajudou.
Fiquei alguns segundos olhando para as hastes no teto.
A terapeuta me lançou aquele sorriso irritante no cineminha da minha cabeça. Tanto tempo olhando para trás que o dono daquelas mãos nem nome tinha.















