“Do que você lembra?”, questiona uma voz no início do primeiro trailer de A Odisseia, aguardada adaptação da epopeia de Homero dirigida por Christopher Nolan.
A pergunta está no cerne do mito de Odisseu, o guerreiro grego que dá nome ao poema. Na sua acidentada viagem de retorno à Ítaca, ilha onde deixou mulher e filho para lutar na Guerra de Troia, o ardiloso herói corre o risco não só de perder o rumo, mas de esquecer para onde está indo. A ameaça aparece na breve visita que Odisseu e seus guerreiros fazem à terra dos lotófagos – onde se come lótus, flor que provoca a perda da memória. E também quando Odisseu, amarrado ao mastro de seu navio, ouve o canto das sereias, que faz os viajantes esquecerem seu destino para lançar a embarcação contra as rochas.
A memória dos séculos conservou as extraordinárias aventuras e desventuras de Odisseu (ou Ulisses, na forma latina do nome). Ao lado da Ilíada, poema épico em que ele também aparece, a Odisseia é uma pedra basilar da literatura universal. Em julho, essa história imortal ganhará nova vida nos cinemas mundo afora, com Matt Damon como Odisseu.
Abaixo, o leitor encontrará as informações fundamentais para melhor apreciar o filme – e para ler esse clássico dos clássicos. Há excelentes traduções em português, como as de Donaldo Schüler (L&PM) e de Frederico Lourenço (Companhia das Letras).

O poeta
Homero, poeta cego que teria vivido no século IX ou VIII a.C., é tido como o autor de dois monumentos literários da Antiguidade: a Ilíada, que conta, em 14 mil versos, um episódio da guerra entre gregos e troianos, e a Odisseia, que narra, em 12 mil versos, os dez anos que Odisseu levou para voltar a Ítaca (e isso depois de dez anos lutando em Troia!). Na Poética, Aristóteles também atribui a Homero um poema cômico intitulado Magrites, do qual só uns poucos fragmentos chegaram a nossos dias.
Essa é a lenda: na verdade, nada se sabe sobre Homero. Sequer existe certeza de que tenha mesmo existido um poeta com esse nome. É bem provável, aliás, que a Ilíada e a Odisseia não sejam obras do mesmo autor.
Só o que parece certo é que a criação desses poemas narrativos envolveu um aedo – um poeta-cantor que versificava mitos da tradição oral. Em uma passagem comovente da Odisseia, um aedo canta o episódio da conquista de Troia pelos gregos, sem saber que Odisseu está entre seus ouvintes. O implacável guerreiro chora ao ouvir sua própria história.

A guerra
Evento central de boa parte dos mitos gregos, a Guerra de Troia teria acontecido na costa noroeste do que hoje é a Turquia, séculos antes dos poemas atribuídos a Homero. Escavações na região já encontraram diferentes ruínas que, de forma duvidosa, foram identificadas como a cidade arrasada pelas forças gregas. Só que Troia não foi erguida em pedra: ela é feita da matéria do mito, imune ao desgaste do tempo.
O conflito começa quando Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta, é raptada pelo troiano Páris. Todos os gregos são chamados para vingar a ofensa. Mais recentemente, os guerreiros de rede social pegaram em armas para se opor à escalação de uma atriz negra, Lupita Nyong´o, no papel de Helena.
Bobagem: para interpretar Helena, exige-se antes de tudo que a atriz seja linda. Lupita cumpre o requisito.
O herói e sua família
Sitiada por dez anos, Troia manteve-se inexpugnável, até que Odisseu teve a ideia de deixar, na porta da cidade, um enorme cavalo de madeira recheado de guerreiros. Os troianos arrastaram a estátua para dentro dos muros da cidade – que foi então impiedosamente destruída pelos gregos.
Tanto quanto a espada, o engano e a dissimulação são armas de Odisseu. Em entrevista à revista Time, Nolan se mostrou preocupado com a reação do público à dubiedade moral desse herói. Mas o diretor de Oppenheimer acredita que Odisseu será redimido pela devoção à sua mulher, Penélope (Anne Hathaway). Pois a Odisseia é também a história de um amor que sobrevive a vinte anos de ausência – e do filho do casal, Telêmaco (Tom Holland), que no início da Odisseia (o poema: o filme talvez mude a ordem dos eventos) percorre cidades gregas para perguntar aos sobreviventes da Guerra de Troia sobre o paradeiro de seu pai.
Os deuses
Telêmaco conta com uma ajudante poderosa: Atena, deusa sábia e guerreira. Ao longo da Odisseia, ela também protege Odisseu – que, no entanto, é perseguido pelo pior inimigo que um navegante pode ter: Poseidon, deus dos mares.
Os deuses homéricos gostam de descer ao chão dos mortais. Na Ilíada, eles até participam de batalhas – alguns lutam ao lado dos gregos; outros, dos troianos. Na entrevista à Time, Nolan diz que preferiu apresentar os deuses não em forma humana, mas como “tempestades, mares turbulentos” e outras forças da natureza. Mesmo assim, o diretor chamou Zendaya para encarnar Atena.

Os monstros
Junto com os deuses, a Odisseia inclui uma categoria de seres sobrenaturais que não apareciam na Ilíada: criaturas fantásticas como a feiticeira Circe, os ciclopes (gigantes de um olho só), os também gigantescos Lestrigões, e dois monstros marinhos, Cila e Caribde.
Há também as sereias, que, na imaginação grega, não eram belas mulheres com rabo de peixe. Homero não chega a descrever suas sereias, mas pinturas em vasos antigos as representam na forma de grotescas aves com cabeça de mulher. (Não se veem sereias nos dois trailers de A Odisseia divulgados até o fechamento desta revista, mas esperamos que Nolan seja fiel à versão grega original.)
Todos esses bichos estranhos aparecem no relato que o próprio Odisseu faz de suas aventuras quando, depois de um naufrágio, encontra abrigo no palácio de Alcínoo, gentil rei dos feácios. Odisseu é um sujeito matreiro: pode ter inventado histórias para encantar seus anfitriões – e a todos nós, que veremos A Odisseia no cinema.















