Não é particularmente revelador constatar que a moda vive nas pessoas. Nos modos de adornar o corpo, combinar tecidos, posar e construir uma imagem de si.
Durante décadas, entretanto, a história da moda brasileira deixou de contemplar grande parte da população, raramente reconhecendo a centralidade da experiência negra na construção da cultura visual do País.
Em seu novo livro Negras Maneiras de Vestir: Moda, Memória e Arte Afro-Brasileira (Editora Paralela) Hanayrá Negreiros resgata esse passado invisibilizado e investiga os vários códigos de vestimenta pelos quais pessoas negras inscreveram memória, desejo e identidade na cultura visual brasileira, ao unir imagens históricas e fotografias de seu arquivo pessoal.

O resultado é “um grande álbum de famílias negras” em que a moda é guia e ferramenta de reconstrução de lembranças tanto quanto de narrativas positivas para a posteridade.
“Eu acredito em moda como manifestação artística e cultural, mas também como plataforma para entendermos a história de um país,” diz a pesquisadora, curadora e professora de moda, que cresceu como neta e bisneta de costureiras e alfaiates negros, em entrevista ao Page9.
Ao cursar moda na universidade, identificou que histórias como a de seus familiares não eram contempladas em nenhuma parte do currículo, cuja perspectiva era mais anglo e eurocêntrica. Doutoranda em História, ela hoje se dedica a pesquisar o vestir das mulheres africanas no Maranhão durante o período colonial.
“É muito importante que consigamos olhar para a nossa história de maneira crítica através da moda. A moda ainda é entendida por muita gente como algo fútil e superficial — e, claro, sabemos que há uma série de problemáticas nesta indústria —, mas quando deslocamos um pouco o olhar, percebemos que a moda íntima e doméstica é muito politicamente carregada. Quando escrevo sobre a minha avó Therezinha, por exemplo, que tinha uma única calça jeans e só a vestia quando o meu avô não estava presente, constatamos nisso um recorte de gênero. Por outro lado, meu avô, que ascendeu socialmente, também usava o vestir como afirmação pessoal em espaços de supressão. E isso não é apenas escolha estética, né? Precisamos enxergar a moda através de lentes antirracistas, feministas, anticoloniais.”

Sua avó e muitos outros de seus familiares protagonizam o livro por meio de registros de festas, casamentos e aniversários analisados por Hanayrá. Outra parte é, entretanto, dedicada a fotografias do século 19, provenientes dos acervos da Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, que retratam mulheres negras das quais não tem qualquer registro de nome, de modo que Hanayrá imagina as histórias delas.

Uma dessas fabulações se manifesta na capa do livro: a autora posa segurando Mulher Negra da Bahia — retrato de uma mulher sem nome registrado, que Negreiros preferiu renomear Belíssima da Bahia com o intuito de devolvê-la individualidade — e veste peças de Carol Barreto, Angela Brito e Lane Marinho.

“Na maioria dos casos, nossas primeiras informações de moda vêm das nossas famílias,” diz ela, que teve a ideia de escrever o livro ao explorar sua própria árvore genealógica. “E se essas histórias ou arquivos não existirem, é preciso também se debruçar sobre as lacunas. Por que não existem? É importante jogar luz sobre esse apagamento sistêmico,” diz.
A segunda metade do livro examina o vestir como extensão da espiritualidade através da ancestralidade estética do candomblé, além da representação da moda em diáspora nas artes plásticas ao observar obras de artistas como Rosana Paulino e Larissa de Souza, tecendo uma vibrante trama que conecta moda, história, espiritualidade e arte sob uma perspectiva negra contemporânea.
“A ideia é propor uma forma de pensar a moda que se firma na experiência, mas permanece aberta à continuidade. O vestir é forma de expressão e existência; é linguagem e resistência. A moda tem o poder de aproximar as pessoas e facilitar discussões que parecem difíceis. Todo mundo se veste e se relaciona com o vestir.”













