A revista americana The Atlantic publicou em sua capa de agosto um artigo de muita repercussão, intitulado The Age of Reading is Over.
Fundada em 1857, a revista é focada em ensaios longos que costumam fomentar o debate intelectual nos Estados Unidos.O artigo retoma uma previsão feita em 1962 pelo teórico canadense Marshall McLuhan, que acreditava que o Ocidente caminhava para uma era “pós-letrada”, em que a escrita deixaria de ocupar o centro da vida cultural. Na época, a televisão era a grande ameaça ao livro. Segundo a The Atlantic, a verdadeira era pós-letrada não chegou com a televisão, mas com os smartphones.
A televisão era um risco, mas tinha limites — a programação acabava. Naquela época, os canais saiam do ar a partir de determinado horário. Agora, o conteúdo é infinito.
O mundo moderno exige leitura constante, seja de mensagens de WhatsApp, e-mails, legendas, notificações e publicações. Então, a leitura não está em risco, o skill que se exige do leitor é que mudou drasticamente. O argumento do artigo não é que as pessoas deixaram de ler ou escrever, mas a forma como isso é feito mudou. Está em sintonia com a vida agitada: frases curtas, diretas e simples. E isso tem impactado toda a produção artística e cultural.
Ler um romance de 500 páginas exige concentração, imaginação e uma capacidade de foco ao longo de horas ou dias. Além disso, a literatura tem sua complexidade e ambiguidade que a fazem uma arte e as pessoas hoje toleram menos a dúvida. A autora nota que os best-sellers da atualidade têm frases bem mais curtas que há um século — média de ⅓ menor — e uma linguagem mais direta e simples.
Antes de chegar na literatura, o próprio jornalismo tem sido fortemente impactado; artigos e ensaios mais densos, como os que são publicados pela Piauí, pelo The New Yorker e pelo The Economist, estão restritos a um nicho de leitores.
O próprio artigo da The Atlantic é um teste para o argumento: são mais de 10 páginas com muitos dados e referências, uma leitura densa que exige atenção e raciocínio.
Ao longo dos séculos, livros, jornais e ensaios ajudaram a desenvolver aquilo que alguns pesquisadores chamam de “atenção profunda”: a capacidade de permanecer focado em uma única narrativa por períodos prolongados, o que gera reflexões e articulações cerebrais. Aquela sensação boa de se estar tão compenetrado no livro, que ao tocar uma campainha ou ser chamado por alguém, é preciso sair do transe e se ambientar de novo na realidade.
A internet usa a lógica oposta. Tudo acontece ao mesmo tempo de forma fragmentada, superficial, o que permite o multitasking — o Millennial consegue participar de reunião no Zoom, enquanto responde e-mail vendo o feed do Instagram; parece que a falta de atenção é o objetivo.
A jornalista argumenta que esse novo normal altera como pensamos, aprendemos e participamos da vida social e pública. Se a cultura escrita moldou a ciência moderna, a educação, o pensamento crítico e a própria civilização, que tipo de sociedade emergirá quando vídeos curtos e fluxos intermináveis de estímulos substituírem a leitura como principal forma de interação e conhecimento? A polarização política já é um reflexo disso.
Pesquisas conduzidas pelo National Endowment for the Arts mostram que a leitura de livros vem diminuindo entre os americanos, especialmente entre os mais jovens. Menos da metade dos adultos americanos leu qualquer livro em 2022. O percentual de pessoas que leem por prazer em um dia qualquer caiu de 28% para 16% entre 2004 e 2023. O consumo de jornais impressos entre jovens adultos praticamente desapareceu, e os vídeos se tornaram a principal fonte de acesso às notícias.
Existe uma ponta de esperança — ainda que o artigo enxergue como uma gota no oceano e limitado a um grupo ínfimo da população mundial. Tem sido cada vez mais visível o contramovimento que busca a valorização do livro. Desde a brava resistência das livrarias independentes — (meus lugares favoritos como McNally Jackson, em Nova York, Hatchards, em Londres e Gato Sem Rabo, em São Paulo) — aos clubes de livros entre amigos ou liderados por celebridades e o fenômeno do BookTok, do TikTok.
A cantora Dua Lipa criou dentro de sua plataforma Service95 um clube do livro que escolhe mensalmente obras de diferentes países e promove entrevistas com os autores em podcasts.
O mundo literário tem abraçado a tendência sem preconceito — que existia muito no meio intelectual — e este ano Dua Lipa assumiu a curadoria do London Literature Festival.
O desafio é manter essa tendência de verdade — ler é mais do que moda, é a pedra fundamental de toda e qualquer civilização. É um prazer que exige dedicação, esforço e paciência, com poder transformador, que nutre corpo e alma — mas que não é imediato.
O exemplo forte que The Atlantic abre e termina o artigo é o da Biblioteca de Alexandria, que simbolizava o ápice de uma civilização há mais de 2 mil anos, em que os governantes priorizavam o conhecimento como estratégia de crescimento. Os reis criavam expedições à caça de documentos, livros e pesquisas, e traziam estudiosos para viver e pesquisar em Alexandria, o que a transformou em um centro de ciência e filosofia. Foi ali que se calculou com precisão a circunferência da Terra, que se organizaram as primeiras edições de Homero e, se desenvolveu parte da geometria que ainda estudamos hoje. Com o tempo, a prosperidade adquirida alterou o foco, o estudo deixou de ser prioridade. Muitos historiadores consideram que o descaso foi o verdadeiro culpado pela destruição da biblioteca, e os incêndios uma consequência disso.
Não foi o fim da Biblioteca de Alexandria que inaugurou a Idade das Trevas; o fato de a sociedade ter parado de cuidar dela e a protegê-la mostrava que a decadência intelectual já tinha começado bem antes. Food for thought.













