O artista chileno Alfredo Jaar tem um dos melhores trabalhos na atual Bienal de Veneza. Aos 70 anos, chega à sua quinta participação naquela Bienal. A primeira, em 1986, marcou uma virada em sua trajetória, projetando internacionalmente um artista que até então produzia há mais de uma década no Chile.
Jaar é um dos mais reconhecidos artistas latino-americanos da atualidade. Ele está no Brasil para a abertura de duas exposições. Uma em cartaz na Galeria Luisa Strina, em São Paulo com o título, O lado escuro da lua, e uma minirretrospectiva intitulada Você e eu e os outros, na Pinacoteca do Ceará, com curadoria de Moacir dos Anjos, que inaugura em 15 de agosto.
As duas exposições acabam mostrando momentos diferentes. Na Strina, está o jovem Jaar: trabalhos feitos no Chile entre 1974 e 1981, quando tinha entre 18 e 25 anos, no período que começa logo após a queda de Salvador Allende e a ascensão de Pinochet ao poder. Em Fortaleza, Moacir dos Anjos, que acompanha há anos a obra do artista, apresenta períodos mais amplos de sua produção.

Jaar conversou com o Page9 sobre as duas exposições e sua carreira.
Calmo e muito acessível, Jaar recontou sua vida, intercalando com momentos de reflexão sobre períodos obscuros da história, injustiças e tragédias. Ele explica como o contexto do seu país e do mundo sempre o impactaram muito. Por pressão do pai, que não via a menor viabilidade em ser artista no Chile dos anos 1970, cursou arquitetura embora soubesse que seu caminho era como artista. Jaar tinha 18 anos quando, em 1974, realizou alguns dos primeiros trabalhos que hoje estão na exposição da Luisa Strina.
Mudou-se para Nova York em 1982, aos 26 anos, e conseguiu emprego em um escritório de arquitetura. Levava o que chamava de uma “vida dupla”: trabalhava como arquiteto durante o dia para financiar sua atividade como artista. Dedicava noites e fins de semana para entender o sistema da arte nova-iorquino que, segundo ele, praticamente só dava espaço a americanos e alemães.

Inconformado com essa falta de diversidade, quis “trazer o mundo para Nova York”. Em 1985, veio ao Brasil fotografar os garimpeiros da Serra Pelada. Levou as imagens para uma estação de metrô de Nova York, que dava em Wall Street, para mostrar a brutalidade da extração e contrapor à vida glamourosa dos traders do ouro.
O trabalho teve enorme repercussão e culminou com o convite para a Bienal de Veneza de 1986. Jaar tinha 30 anos e nem sequer era representado por uma galeria comercial.
Na volta, com convites para exposições e aquisições começando a aparecer, decidiu largar o emprego de arquiteto. Pediu apenas uma garantia ao escritório: se a vida como artista desse errado, poderia voltar?
“Não precisei voltar,” lembra.
Nos últimos dez anos, Jaar sentiu necessidade de abordar a crise climática. Procurou um geólogo para identificar os dez minerais mais críticos para a vida contemporânea. Descobriu que sem eles não existiriam iPhones, computadores, carros elétricos, baterias, aviões e inúmeras outras ferramentas fundamentais da vida atual.
Quarenta anos depois de chegar a Veneza com um trabalho sobre a extração de ouro em Serra Pelada, Jaar volta à Bienal com The End of the World. A obra, minimalista e dramática, que reúne em um cubo de apenas quatro centímetros dez materiais críticos — cobalto, terras raras, cobre, estanho, níquel, lítio, manganês, coltan, germânio e platina — essenciais tanto à tecnologia contemporânea quanto à transição energética e envolvidos em enormes disputas geopolíticas.
O pequeno cubo ocupa o centro de um longo espaço do Arsenale tomado por luz vermelha. A escala é quase uma provocação: dez materiais dos quais depende boa parte do mundo contemporâneo condensados em quatro centímetros. A obra irá para o MAAT, de Lisboa, ano que vem.
A exposição na Luisa Strina volta aos primórdios, mostrando que questões políticas e sociais são o cerne da sua produção desde cedo.
Para o artista, mostrar essas obras atualmente é pertinente diante do radicalismo e do autoritarismo nos governos em diferentes partes do mundo. Os trabalhos realizados durante a ditadura chilena podem funcionar, segundo ele, como um modelo de resistência por meio da cultura.
A estratégia naquele período era “dizer sem dizer,” utilizando poesia, sugestões e entrelinhas para escapar da censura. Para Jaar, pior que a censura imposta pelo governo era a autocensura provocada pelo medo.
As obras mais poéticas são da série dos onze. Obcecado com a data da queda de Allende, 11 de setembro de 73, fez calendários que a data se repetia indefinidamente. Como se os chilenos tivessem ficados presos naquela data eternamente.

Um trabalho posterior, realizado entre 1979 e 1981, foram os Estudos sobre a Felicidade, em que ele buscava criar, em plena ditadura, um espaço para as pessoas expressarem opiniões e, simbolicamente, votarem. Foi então às ruas perguntar às pessoas se eram felizes e realizou retratos dos participantes e transcreveu alguns depoimentos.

A aparência do próprio artista ajudava a não ser preso. Ele lembrou rindo que era hippie, tinha cabelos compridos e usava tamancos. Imaginava que os militares simplesmente o consideravam um louco e o deixariam em paz; e foi o que aconteceu.
Para Jaar, esses trabalhos que estão na Strina sintetizam uma das ideias que o guiam:
“A arte não pode mudar o mundo, mas pode mostrar que o mundo pode ser diferente.”
Em cartaz até 19 de setembro.














