Poucos artistas do século 20 construíram uma linguagem visual tão imediatamente reconhecível quanto Joan Miró.
Mas reduzir o catalão às formas lúdicas e às cores vibrantes talvez seja a maneira mais fácil de ignorar a complexidade de uma obra que atravessou guerras, experimentou materiais improváveis e nunca se acomodou.
É esse lado do artista, menos conhecido do grande público, que a exposição Miró: Mestre das Formas, em cartaz no MAB FAAP, pretende revelar. Reunindo mais de uma centena de obras vindas de instituições espanholas e coleções particulares, a mostra percorre cinco décadas da produção do artista e inclui pinturas, esculturas, gravuras, fotografias e um conjunto de tapeçarias que raramente é emprestado pela família.

Inicialmente concebida com 69 obras e destinada ao circuito asiático, a exposição mudou sua rota para o Brasil, ganhou novos empréstimos ao longo do caminho e hoje reúne 140 obras, entre elas oito tapeçarias produzidas por Miró em parceria com o artista têxtil Josep Royo.
"Depois da destruição da tapeçaria instalada no World Trade Center, a família deixou de emprestar essas obras. Conseguir reunir oito delas foi resultado de muita negociação e de uma relação de confiança construída ao longo dos anos," disse Roberto Souza Leão, CEO do Instituto Totex, responsável pela exposição, ao Page9.

Parte da relação de confiança foi construída por Joan Punyet Miró, neto do artista e responsável por preservar seu legado, que veio a São Paulo para a abertura da exposição. Para ele, a herança do avô vai muito além da pintura.
“O mais importante sobre Miró é a força da cor — o vermelho, o amarelo, o verde, o azul — e também sua enorme generosidade e solidariedade. Ele foi um artista profundamente democrático, com um espírito filantrópico muito forte,” disse Joan ao Page9.
"O diferencial desta mostra é apresentar cinco décadas da produção de Miró. Não é um recorte específico. O visitante acompanha toda a evolução do artista," disse Roberto. "Desde o período das duas guerras, quando suas obras eram muito mais sombrias, até a explosão de cores que caracteriza sua produção posterior.”

Punyet Miró conta que o avô nunca quis ser tratado como um monumento. "Ele criou fundações em Barcelona, Maiorca e Mont-roig não para construir um mausoléu em torno da própria figura, mas para apoiar a cultura contemporânea.”
As lembranças que guarda do convívio familiar também ajudam a explicar essa visão. "Passei muito tempo com meu avô em Maiorca. Hoje compreendo a importância do silêncio, das cores que ele me ensinou a pintar e da conexão com a natureza."
A eterna busca por liberdade está presente em toda a exposição. Miró transformava objetos corriqueiros, como caixas de ovos e até os brinquedos dos netos, em esculturas e fazia intervenções sobre pinturas prontas. Insistia em experimentar novos materiais mesmo quando já era um dos artistas mais consagrados de sua geração.

"Ele dizia que, para alcançar a liberdade criativa de uma criança, era preciso muita maturidade," disse Roberto. "Essa coragem de experimentar atravessa toda a obra dele."
Mais do que apresentar obras raras, Miró: Mestre das Formas convida o visitante a conhecer um artista que passou boa parte da vida criando, experimentando e reinventando sua própria linguagem.
Em cartaz até 12 de outubro.














