O Miró que quase ninguém viu
Foto: Vicent Solar/ Persona Comunicação

O Miró que quase ninguém viu

Exposição em São Paulo traz tapeçarias raramente exibidas e 140 obras que revelam a inquietude do artista que nunca parou de se reinventar

Poucos artistas do século 20 construíram uma linguagem visual tão imediatamente reconhecível quanto Joan Miró.

Mas reduzir o catalão às formas lúdicas e às cores vibrantes talvez seja a maneira mais fácil de ignorar a complexidade de uma obra que atravessou guerras, experimentou materiais improváveis e nunca se acomodou. 

É esse lado do artista, menos conhecido do grande público, que a exposição Miró: Mestre das Formas, em cartaz no MAB FAAP, pretende revelar. Reunindo mais de uma centena de obras vindas de instituições espanholas e coleções particulares, a mostra percorre cinco décadas da produção do artista e inclui pinturas, esculturas, gravuras, fotografias e um conjunto de tapeçarias que raramente é emprestado pela família. 

Inicialmente concebida com 69 obras e destinada ao circuito asiático, a exposição mudou sua rota para o Brasil, ganhou novos empréstimos ao longo do caminho e hoje reúne 140 obras, entre elas oito tapeçarias produzidas por Miró em parceria com o artista têxtil Josep Royo. 

"Depois da destruição da tapeçaria instalada no World Trade Center, a família deixou de emprestar essas obras. Conseguir reunir oito delas foi resultado de muita negociação e de uma relação de confiança construída ao longo dos anos," disse Roberto Souza Leão, CEO do Instituto Totex, responsável pela exposição, ao Page9.

Fundació Pilar | Joan Miró a Mallorca, depósito colección particular

Parte da relação de confiança foi construída por Joan Punyet Miró, neto do artista e responsável por preservar seu legado, que veio a São Paulo para a abertura da exposição. Para ele, a herança do avô vai muito além da pintura. 

“O mais importante sobre Miró é a força da cor — o vermelho, o amarelo, o verde, o azul — e também sua enorme generosidade e solidariedade. Ele foi um artista profundamente democrático, com um espírito filantrópico muito forte,” disse Joan ao Page9

"O diferencial desta mostra é apresentar cinco décadas da produção de Miró. Não é um recorte específico. O visitante acompanha toda a evolução do artista," disse Roberto. "Desde o período das duas guerras, quando suas obras eram muito mais sombrias, até a explosão de cores que caracteriza sua produção posterior.” 

Punyet Miró conta que o avô nunca quis ser tratado como um monumento. "Ele criou fundações em Barcelona, Maiorca e Mont-roig não para construir um mausoléu em torno da própria figura, mas para apoiar a cultura contemporânea.” 

As lembranças que guarda do convívio familiar também ajudam a explicar essa visão. "Passei muito tempo com meu avô em Maiorca. Hoje compreendo a importância do silêncio, das cores que ele me ensinou a pintar e da conexão com a natureza."

A eterna busca por liberdade está presente em toda a exposição. Miró transformava objetos corriqueiros, como caixas de ovos e até os brinquedos dos netos, em esculturas e fazia intervenções sobre pinturas prontas. Insistia em experimentar novos materiais mesmo quando já era um dos artistas mais consagrados de sua geração. 

Foto: Vicent Solar/ Persona Comunicação

"Ele dizia que, para alcançar a liberdade criativa de uma criança, era preciso muita maturidade," disse Roberto. "Essa coragem de experimentar atravessa toda a obra dele."

Mais do que apresentar obras raras, Miró: Mestre das Formas convida o visitante a conhecer um artista que passou boa parte da vida criando, experimentando e reinventando sua própria linguagem. 

Em cartaz até 12 de outubro.

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