O corre das marcas esportivas brasileiras

O corre das marcas esportivas brasileiras

Para chegar na frente e competir com grifes gringas, o investimento é pesado em tecnologia, dados e estilo

Em uma simples caminhada pelo shopping é inegável a proliferação de lojas esportivas que incentivam, a cada vitrine, uma vida mais ativa, saudável e feliz. Diversas marcas com foco em atividade física surgiram nos últimos anos, graças a mudanças sociais que impulsionaram a pesquisa tecnológica e estética. 

“Nos últimos anos, a tecnologia deixou de ser um atributo exclusivo das grifes internacionais e passou a ser uma característica reconhecida da indústria esportiva brasileira. Desenvolvemos produtos de altíssima performance,” diz Márcio Callage, CMO da Vulcabras, grupo que detém a Olympikus.

O mercado brasileiro de roupas atléticas atingiu US$ 4.443 bilhões em 2025, segundo a consultoria IMARC Group. Até 2034, a expectativa é de que alcance US$ 6.195 bilhões. O principal motivo apontado é a crescente conscientização sobre a saúde, refletida pelo aumento da frequência a academias e da prática de esportes. Entre os praticantes de atividade física no País, 66% se exercitam entre quatro e sete vezes por semana (Panorama Setorial Fitness Brasil 2025). 

Outros pontos associados à expressividade do mercado são a constante urbanização, tendências de consumo geradas por influenciadores e a popularidade do futebol (especialmente em ano de Copa do Mundo). 

“O esporte ganhou um novo significado, especialmente após a pandemia. Se antes era visto ‘só’ como atividade física, hoje representa bem-estar, saúde mental, socialização e qualidade de vida,” diz Rafael Gouveia, diretor de operações da Vulcabras.

Assim, modalidades variadas como corrida de rua, beach tennis, trilhas e outras práticas ganharam milhões de adeptos. “O consumidor ficou mais segmentado. Hoje existem necessidades específicas para corredores iniciantes, atletas de alta performance, praticantes de crossfit e yoga,” diz Rafael.

“Esse crescimento em escala e diversidade criou espaço para o desenvolvimento de produtos mais especializados.” De 2016 a 2026, a Olympikus cresceu mais de 300% na venda geral.

As redes sociais tiveram um papel fundamental na transformação do mercado. “Milhões de pessoas acompanham criadores de conteúdo compartilhando treinos e provas. Essa dinâmica cria identificação e incentiva. Na corrida, isso é ainda mais evidente,” diz Márcio. “O corredor não compra apenas um tênis, mas participa de assessorias, viaja para provas e acompanha lançamentos. Ele busca produtos que expressem sua evolução no esporte.” Inclusive, a corrida é o setor carro-chefe da Olympikus.

“Nosso principal destaque é a família Corre. Pelo terceiro ano consecutivo, o Corre foi o tênis mais utilizado pelos corredores brasileiros (Strava), além de ter sido o sexto produto mais buscado no Google em 2025,” diz o CMO da Olympikus.

A modalidade também se destaca na Centauro, a maior rede multicanal de produtos esportivos da América Latina, com 230 lojas no Brasil e 750 mil acessos diários digitais. A corrida forma o core da empresa ao lado do futebol.

80 milhões de corações pulsantes

Dos cerca de 80 milhões de brasileiros que praticam atividade física, a Centauro é procurada por 30 milhões, segundo a varejista. Dessa forma, a empresa é, de acordo com a sua diretora de marcas, licença e marketing, Claudia Paoli Martinez, o maior mailing de moda esportiva do País.

Com tanto insumo sobre os hábitos de quem pratica esporte no Brasil, a multimarcas fitness decidiu há 10 anos criar linhas próprias para aproveitar brechas de mercado. Nasceram aí a Oxer, a Nord e a Adams. 

“Nesse movimento de desenho das marcas, percebemos que há um forte movimento de lifestyle esportivo. Então, não pensamos em produtos apenas para a prática em si, mas o que a pessoa usa antes, durante e depois do treino,” diz Claudia.

Esse pensamento foi central na tomada de decisão de tornar a ACE, até então uma linha esportiva da C&A, em uma marca autônoma. “Hoje, trabalho, bem-estar, deslocamento, treino e vida social fazem parte de uma mesma rotina,” diz Filipe Albuquerque, diretor executivo da ACE. Embora faça parte do ecossistema da C&A Brasil, ACE nasce com identidade, operação, e-commerce e lojas próprias. O primeiro espaço físico foi inaugurado em maio deste ano em São Paulo. “Já registramos forte aderência do público, alcançando mais de 1,3 milhão de pessoas nas redes sociais e mais de 2,3 milhões de visualizações.” 

ACE foi desenvolvida com tecidos premium, como o butter touch (com toque macio) e o cool touch (sensação refrescante e maior conforto térmico). Modelagem precisa e pegada minimalista, que facilita a transição entre diferentes ocasiões, são outros elementos trabalhados.

 

Parceiras de treino

A versatilidade também é peça central no desenho de outra nova marca, a Reserva Sprint, nova etiqueta de roupas e calçados da marca carioca. O passo inicial foi dado em outubro passado, com uma coleção de 33 produtos encontrados no site e em lojas selecionadas. O sucesso foi tamanho que a grife já trabalha em um spin-off com o intuito de saltar de 33 para 400 produtos — e uma linha feminina.

Nos primeiros seis meses da Sprint, foram vendidos R$ 12 milhões. A projeção é de que, entre os meses finais de 2026 e 2027, sejam levantados R$ 48 milhões. “Os códigos de vestuário se flexibilizaram e houve um boom de interesse por longevidade — altamente conectada à atividade física. Mas, ao mesmo tempo, há um consumo irrefreável e cansativo de produtos e informações,” diz Pedro Cardoso, diretor de marca e novos negócios da Reserva.

“A solução que encontramos foi a de apresentar uma proposta de durabilidade, baseada em matéria-prima tecnológica de primeira, associada àa atemporalidade estética. Assim, despertamos um prazer maior e fidelizamos melhor,” diz. “Eu mesmo tenho peças que uso para esportes radicais com 15 anos e elas me dão muita felicidade quando as visto. É muito bom não ter precisado trocá-las ao longo do tempo, são minhas parceiras de treino.”

Moda e performance

A Lauf, fundada por Marina Rovery e Anna McDowell, é conhecida por fugir do lugar- comum. Estampas (muitas), corta- vento com recorte nas costas, matelassê, laços e até fivelas fazem parte do léxico da marca.

“Temos a linha básica, claro, como todo mundo. Porém, a gente é mais conhecida pela ousadia. Nossa cliente geralmente bate o olho e sabe que é Lauf de longe,” diz a CEO Marina Rovery. As amigas fundaram a marca a partir de uma queixa: pouca diversidade de produto para as mulheres quando o assunto era roupa esportiva.

“Você só encontrava preto, cinza e no máximo um bordô ou azul- marinho – quando dava muita sorte. Sendo que nós treinávamos (triathlon) igual a todo mundo. Foi assim que começou, vimos um espaço para pensar algo novo,” diz Marina. “Fashion meets performance, temos esse lema. Tanto que olhamos as temporadas de desfiles, não apenas as tendências atléticas, como principais referências.”

O boom esportivo é tamanho, e diverso, que até quem era conhecido por roupa íntima se juntou à corrida — como é o caso da Hope com a linha Resort, criada em 2017. “A moda íntima, assim como a fitness, é bem próxima ao corpo: tem um elemento funcional de comprimir, levantar e moldar. Somado a isso, o maquinário e os tecidos são similares — tudo isso corroborou para o investimento, já tínhamos o know-how,” diz Sandra Chayo, diretora institucional do grupo Hope.

E um valor desejado por todos, independente de gênero, é o conforto, aponta a executiva. “A moda fitness é muito confortável, acima de tudo; e hoje, no Brasil, temos uma combinação de estilo e tecnologia têxtil que permite uma grande diferenciação — algo que não acontece em nenhum outro lugar,” diz Sandra. “A gente tem produto aqui muito superior, em conforto e estética, ao que eu vejo lá fora.”

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