Da caçamba ao Masp: a virada de jogo da Zerezes

Da caçamba ao Masp: a virada de jogo da Zerezes

Como a carioca Zerezes ajustou o grau do design brasileiro e transformou óculos em souvenir de museu

Quase 15 anos depois de transformar madeira descartada em objeto de desejo, a carioca Zerezes tem motivos de sobra para comemorar e continuar enxergando longe.

Tudo começou durante uma viagem internacional, quando Luiz Rocha viu pela primeira vez óculos de sol feitos de madeira. O desejo de compra logo despertou outra vontade: transformar aquela descoberta em uma possibilidade de negócio. Bastou voltar ao Brasil para a ideia começar a ganhar forma.

Estudante da PUC-Rio, Luiz se uniu ao amigo e colega do curso de design Hugo Galindo para desenvolver um projeto a partir de móveis de madeira descartados em caçambas pelas ruas da cidade. Nasciam, assim, os primeiros modelos de óculos de sol da Zerezes.

O projeto nunca se sustentou apenas pelo apelo estético. Os fundadores buscavam um propósito, e o encontraram tanto no reaproveitamento de materiais quanto em uma forma diferente de pensar o design. Os óculos deveriam fazer com que as pessoas se sentissem bonitas, confiantes e confortáveis.

De lá para cá, muita coisa já foi testada — incluindo óculos produzidos inteiramente com canudos recolhidos em praias —, sempre com a calma e o cuidado de não perder de vista o DNA da Zerezes. “A gente nunca quis surfar ondas momentâneas. Sempre olhamos para o longo prazo,” diz Rodrigo Latini, CEO da empresa.

Até a entrada dele como sócio, em 2016, foi conduzida sem pressa. Antes do contrato, veio um período de experiência. “Fizemos um combinado. Eu lembro que eu sugeri fazer um ano de teste. Um ano para ver se gostam de mim, se eu gostei também. Então, assim, a gente teve um ano de intensas conversas, e mudamos muita coisa,” disse ao Page9.

Uma pulga criativa atrás da orelha

Seguindo os passos do pai, Rodrigo estudou economia no Ibmec, mas sempre teve uma pulga criativa atrás da orelha.

“Eu tive uma influência muito grande do meu avô, que faleceu quando eu ainda era novo. Ele não era formado na área, mas era designer e arquiteto de interiores. Foi uma pessoa que influenciou muito toda a família. Meus tios são arquitetos e designers de joias. Eu cresci nesse universo da ourivesaria.”

Depois de se formar, Rodrigo teve o estalo de trabalhar com um objeto físico e, mais do que isso, de empreender. A oportunidade apareceu na hora certa.

Quatro anos após a fundação, a Zerezes ainda funcionava como um projeto conceitual criado por estudantes: era uma empresa pequena, faturava cerca de R$ 1 milhão por ano e começava a ansiar por uma transformação.

“Quando recebi o convite para entrar, eles já tinham se formado e queriam transformar a Zerezes em uma empresa capaz de sustentar suas vidas,” diz Rodrigo.

Naquele momento, a marca também começava a trabalhar com acetato, abrindo caminho para uma nova fase criativa e comercial.

“A gente estava começando a fazer os óculos de acetato, mas não queria entregar mais do mesmo. Existia uma dúvida sobre o que poderíamos fazer de diferente caso a madeira deixasse de ser o principal alicerce da companhia.”

Muito além de enxergar melhor

Foi justamente nesse período que a Zerezes decidiu entrar no segmento de óculos de grau. Ao estudar o mercado, a equipe percebeu que havia uma lacuna que ia muito além da falta de boas armações — e que ainda passa despercebida por muita gente.

A própria experiência de Rodrigo ajudou a revelar o problema.

“Muito antes de entrar na Zerezes, eu queria comprar óculos de grau. Trabalhava com pessoas mais velhas e queria transmitir um ar de responsabilidade, uma certa inteligência, porque os óculos têm essa associação com o intelecto.”

Durante uma viagem, ele encontrou modelos que lhe deram a autoconfiança que buscava. Depois, decidiu entender melhor as lentes oferecidas pelas óticas. Achou que havia aprendido tudo — até começar a trabalhar efetivamente com o produto.

“Dois anos depois, comecei a trabalhar com óculos de grau aqui e descobri que não tinha entendido nada. Naquela época, cada ótica me oferecia uma coisa diferente. Eram lentes, tecnologias e tratamentos distintos. Um nome que eu achava que era o da marca, por exemplo, era apenas o nome do antirreflexo — e ainda existiam diferentes tipos daquele mesmo antirreflexo.”

Rodrigo e o time mergulharam, então, no setor óptico. Encontraram uma série de questões que não pareciam fazer sentido, dos preços à maneira pouco convidativa como os produtos eram apresentados nas lojas.

“O mercado funciona a partir da ideia de resolver um problema médico. Ele mexe com uma necessidade e com o medo de não cuidar dos olhos. No fim, a venda se torna mais técnica, mais chata e até problemática. Em vez de ser apresentado como um acessório de moda, o óculos de grau aparece apenas como algo destinado a corrigir a visão,” diz.

Eis o grande clique. A Zerezes enxergou uma lacuna no mercado e a oportunidade de trabalhar um produto com propósito, capaz não apenas de melhorar a visão, mas também de ajudar as pessoas a expressar quem são.

As possibilidades eram praticamente infinitas: metal, acetato, armações discretas, óculos grandes, modelos clássicos ou mais ousados. Hoje, essa aposta se traduz também nos números: 70% das vendas da Zerezes vêm dos óculos de grau, enquanto os modelos solares representam 30%.

A antiga marca conhecida principalmente pelos óculos de madeira passou a ter sua principal força justamente nas lentes transparentes.

A virada de chave

O processo de transformação começou em 2019, com muita pesquisa, escuta e revisão interna, mas só ganhou forma concreta em 2021, depois da pandemia. A empresa redesenhou praticamente tudo: equipe, estratégia, posicionamento e experiência de marca.

A mudança veio acompanhada de uma entrada mais contundente em São Paulo. No Rio, a Zerezes já jogava em casa, com cinco lojas físicas: a primeira delas inaugurada no fim de 2016. Restava descobrir se a bossa carioca também encontraria espaço entre os paulistas.

Encontrou — e com folga.

“Foi um estouro. As lojas de São Paulo performaram muito acima do que esperávamos e, em muitos casos, melhor do que as do Rio. São Paulo abraçou muito a gente desde o início,” diz Rodrigo.

As lojas físicas se tornaram parte central da experiência imaginada pelos sócios — e também um dos pontos de partida para a expansão dos óculos de grau. Em vez da atmosfera clínica das óticas tradicionais, a Zerezes decidiu levar seu design autoral para cada detalhe dos espaços.

A arquitetura deixou de ser apenas cenário para participar da narrativa da empresa. É uma forma de traduzir, em metros quadrados, a cultura que a marca pretende construir.

Uma das inaugurações mais recentes — e talvez uma das mais simbólicas — fica na Rua Garcia d’Ávila, em Ipanema. O endereço, anteriormente ocupado pela Louis Vuitton, ganhou uma flagship da Zerezes no térreo, enquanto os andares superiores passaram a abrigar o escritório da equipe.

“Essa loja foi um passo ousado e muito oportuno para o momento que estamos vivendo. Ela veio para coroar todas as projeções que começamos a fazer em 2019,” diz o CEO.

O Brasil ainda está no campo de visão

Questionado sobre uma possível expansão internacional, Rodrigo diz que, por enquanto, a presença da empresa fora do País é praticamente inexistente. Não por falta de ambição, mas porque a marca ainda enxerga muito espaço para crescer por aqui.

“A única coisa que posso dizer de verdade é que, pela primeira vez, estamos começando a pensar nessa possibilidade. Não temos nem um site em inglês, ainda. Mas o Brasil é muito grande e ainda há muita coisa para fazer aqui dentro.”

Com 39 lojas distribuídas por diferentes estados do País, a Zerezes mostra que seu crescimento continua de vento em popa, sem precisar perder a calma ou surfar qualquer onda passageira.

Depois de colaborações com nomes como Farm, Dendezeiro e Masp, a marca volta agora ao radar do museu paulistano com uma nova coleção.

A parceria, que já tem as armações Bo e Pape, agora integra Lena e Haru, dois modelos já conhecidos da Zerezes que ganham novos acabamentos e detalhes inspirados na arquitetura do museu. O resultado mantém o design autoral da marca, mas acrescenta referências aos edifícios do Masp — transformando os óculos em uma espécie de souvenir para usar no rosto.

Ou, para os mais apegados, guardar no acervo particular.

A novidade será celebrada em uma noite especial de lançamento, com apresentação exclusiva do pianista Amaro Freitas. Um encontro entre design, arquitetura, moda e música, que resume bem o percurso da Zerezes: uma marca que começou recolhendo madeira em caçambas e, mais de uma década depois, chega ao museu não como visitante, mas como item de coleção.

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