Os alfaiates que vestem a Faria Lima

Os alfaiates que vestem a Faria Lima

Em um tempo em que a roupa virou commodity e o esforço, um estorvo, a alfaiataria sobrevive porque vende exatamente o contrário

O uniforme não oficial da nova Faria Lima é calça jeans e polo com o logotipo bordado no peito. O terno, que um dia foi obrigatório, sumiu do escritório. A gravata, então, virou peça de noivo.

A verdade é que no pós-pandemia tudo conspira contra o ofício de alfaiate: do estilo masculino que abraçou o conforto durante o expediente à profissão que quase nenhum jovem quer seguir.

No entanto, há um seleto grupo de alfaiates em São Paulo que nunca teve tanto trabalho. Costuram, sob medida, para um cliente específico: o executivo que, justamente porque pode usar o que quiser, escolheu continuar usando o que é impecável.

São cinco nomes que vestem a turma do dinheiro, e cada um deles guarda uma teoria sobre por que, contra todas as previsões, a alfaiataria não morreu.

O que esses cinco entendem, cada um à sua maneira, é que a roupa comunica antes da fala. E o executivo de Faria Lima sabe disso. Procura discrição absoluta, tons que não chamem atenção, uma perfeição tão silenciosa que passa despercebida.

Mas essa discrição tem um preço: exige conhecimento profundo do corpo, do tecido, da proporção. Em outras palavras, alguém que saiba muito bem o que está fazendo.

Leilson Augusto, 54 anos, é o mais discreto desse grupo. Não tem vitrine, não tem placa na porta, não tem perfil patrocinado no Instagram. Mesmo assim, há quase duas décadas, é ele quem veste alguns dos homens mais poderosos do mercado financeiro como, por exemplo, o próximo CEO do Santander, Gilson Finkelsztain, ex-B3.

O método é o oposto do varejo: marca hora, sobe no elevador de uma gestora ou de um banco, estende a trena sobre o ombro de um presidente e tira as medidas ali mesmo, entre uma reunião e outra.

Noventa por cento do trabalho dele acontece assim, a domicílio, ou em um endereço discreto na própria Faria Lima, sempre com horário agendado. Aprendeu o ofício aos 13 anos, com o pai, alfaiate no interior, meio a contragosto. Por alguns anos, foi também a mão por trás do sob-medida da Daslu, nos últimos tempos da loja.

Seus clientes buscam qualidade e precisam estar bem vestidos, pessoas elegantes que entendem que uma boa impressão em uma reunião com investidores é meio caminho andado. Trabalha com tecidos das italianas Zegna e Scabal, nomes que conhecem o valor de um fio bem colocado.

Marcelo Martins, o CEO da Cosan, é cliente de Leilson há 15 anos. Para ele, o alfaiate concentra três atributos que raramente se encontram juntos: alfaiataria clássica de altíssima qualidade, comprometimento com prazos e preço justo.

“Ele é, sem sombra de dúvidas, o alfaiate mais competente e talentoso que conheço. Recomendo de olhos fechados”, diz. É o tipo de afirmação que, nesse mundo, vale mais que qualquer publicidade.

Os outros quatro nomes chegaram ao ofício por caminhos radicalmente diferentes. Ricardo Almeida, 71, é o nome mais conhecido de todos, e o que menos se encaixa na imagem do alfaiate de ateliê.

Fundou sua marca em 1983 com uma pequena fábrica e quatro funcionários, abriu a primeira loja em 1991 no Morumbi Shopping, e em 2026 chega aos 43 anos de história.

Pelo caminho, vestiu Lula durante a campanha presidencial de 2002, a pedido do marqueteiro Duda Mendonça, fez o uniforme da Seleção Brasileira em duas Copas do Mundo e virou embaixador da Mercedes-AMG e da Ducati. Sua fábrica de 8 mil metros quadrados, no Bom Retiro, abastece 20 lojas próprias pelo país. Tem uma parceria com a italiana Loro Piana que, segundo ele, só 13 marcas no mundo conseguiram.

Almeida foi um dos primeiros a ter a ideia de alfaiataria sob medida para executivos no Brasil e um terno sob medida feito pessoalmente por ele pode passar dos R$ 37 mil. “Era impossível uma marca vestir um cara alto, um cara baixo, um cara gordo, um cara magro sem perder identidade. Você só conseguiria fazer isso na medida da pessoa.”

Há dois anos, Ricardo só atende em seu estúdio, na Torre Mata Atlântica, na Cidade Matarazzo – um playground de altíssimo padrão para quem procura mais do que um atendimento personalizado –, e divide a operação com os filhos Ricardo e Arthur, que tocam a RA2, marca mais jovem do grupo.

Ricardo Lacerda, fundador e CEO do BR Partners, é cliente de Almeida. O que o distingue, para Lacerda, é a atenção personalizada, desde a escolha dos tecidos até o corte muito preciso na medida.

Mas há algo mais que Almeida entende, e que poucos conseguem verbalizar: o executivo de Faria Lima não quer se destacar. Quer desaparecer dentro de uma perfeição tão absoluta que ninguém note a roupa, apenas ele, empoderado, seguro.

“Não adianta você querer vestir um executivo da Faria Lima de fashion”, diz Almeida. “Tons escuros, não tão claros, camisa branca ou azul. É a leitura da tribo. Coisas extravagantes vão ser rejeitadas.”

Ele descreve o ambiente farialimer quase como um pátio de escola, em que o que destoa vira alvo de bullying. “Existe uma panelinha ali, em geral, em que um sacaneia o outro. A maior parte é tudo homem. Então não dá para inventar muito.”

Bruno Colella, 46, é a quarta geração de uma linhagem que costura. O avô, Nicola Colella, italiano, foi um dos primeiros alfaiates artesãos do Brasil a industrializar o processo de costura, com uma fábrica no bairro da Água Branca, em São Paulo, que funcionou por 50 anos.

Antes dele, ainda na Itália, mais alfaiates na família. O pai não costurava, mas seguiu na moda por outro caminho: tinha uma marca de varejo cujas roupas ele mesmo vestia.

“A gente nunca usou roupa de terceiro para trabalhar", diz Bruno. Ele próprio demorou a seguir o ofício do avô. Passou alguns anos em uma trading de comércio exterior antes que a roupa o puxasse de volta, em reuniões com executivos de multinacionais que paravam suas apresentações para perguntar onde ele comprava os ternos, cortados pelo vô Colella. “A pauta da reunião virava completamente outra. A gente ficava dez minutos falando da operação de importação e cinquenta falando da Colella.”

Em 2013, montou loja própria na Vila Nova Conceição, a BRNC, que acaba de passar por uma reformulação pensada para uma experiência de permanência e relacionamento com seus clientes.

Para Colella, um terno bem feito é antes de tudo um ato de autocuidado. E o autocuidado, ele acredita, transparece na primeira impressão. “Um cara com um terno mal cortado, com proporções que não estão adequadas ao biotipo dele, é um cara que não está atento aos detalhes. A roupa transparece isso.”

O executivo que bate em sua porta quer uma roupa extremamente slim no corpo, não aceita muita sobra de tecido. É um cara bastante exigente com medida e detalhes. Nos últimos anos, esse mesmo cliente passou a pedir tecidos mais tecnológicos, com um toque de elastano, em parte porque virou comum chegar ao trabalho de bicicleta elétrica.

A roupa precisa respirar com o corpo, acompanhar o movimento, mas sem abrir mão daquela precisão que define a Faria Lima.

Pedro Corulla, 68, fez o caminho oposto: chegou pela vanguarda. Está na moda há mais de meio século. Muito jovem, vendeu para os amigos as camisas de um baile produzindo o lote por conta própria. Logo depois entrou na Gledson, marca vanguardista dos anos 1970, e na década seguinte criou a própria grife, a Zona de Risco.

Surfista, praticante de yoga e motociclista, costuma dizer que carrega uma criatividade inata. Há cerca de uma década, fincou-se de vez na alfaiataria sob medida, hoje tocada em um ateliê de 400 metros quadrados na Vila Nova Conceição, onde trabalha com tecidos da Zegna, da Loro Piana e da Cerruti.

Para Corulla, o pedido do cliente é por credibilidade, seriedade e confiança, sobretudo entre os mais jovens do mercado financeiro, exigentes ao extremo. Ele não vende: consulta. “Ofereço sugestões e coordenação de cores. Minha roupa se autopropaga porque os clientes são elogiados e me indicam. E quando alguém experimenta uma roupa sob medida pela primeira vez, nunca mais quer voltar a usar roupa pronta.”

Vasco Vasconcellos, 55, chegou à alfaiataria pela técnica. Vem de uma família gaúcha em que mãe e avó costuravam, embora ele mesmo não tenha encostado na máquina na infância.

Despertou aos 19 anos, trabalhando como vendedor na Brooksfield em Porto Alegre. Quando aparecia um cliente no domingo precisando fazer uma barra, e os alfaiates não trabalhavam, era ele quem improvisava com fita, para não perder a venda. Pediu para os alfaiates ensinarem. A técnica de venda virou paixão pelo métier.

Anos depois, foi gerenciar a loja da Ermenegildo Zegna no Rio e em 2012 decidiu se especializar na Itália. Seus parâmetros hoje são as grandes casas do bespoke mundial: a napolitana Kiton, a romana Brioni, a inglesa Anderson & Sheppard, da Savile Row. Atende clientes do Brasil inteiro, tem filial em Brasília desde agosto de 2022 e uma fábrica com 87 funcionários, ou 87 artistas, como prefere chamá-los.

Para Vasconcellos, um terno bem feito traz autoridade. “Você já sai de casa empoderado e trabalha de outra maneira.”

Fim de uma era, pero no mucho

É consenso entre todos eles que a era do slim acabou. A silhueta apertada que dominou os anos 2010 – calça justa, paletó colado, barra curta – cedeu lugar a um corte mais amplo, de inspiração nos anos 1940, 1950 e 1960: cintura mais alta, pregas, pernas mais soltas. “As calças e os ternos estão um pouco mais largos, mas sempre desenhados, sempre bem estruturados”, diz Vasconcellos.

Corulla, que afirma praticar a moda mais ampla muito antes de ela voltar como tendência, tem refeito o guarda-roupa dos clientes: trocou as bocas estreitas de 16, 17 centímetros por 18, 19, até 20 nos mais altos. “Mas sempre com caimento impecável. Não é sobre roupa solta, é sobre conforto sem perder a elegância.”

Há, porém, uma exceção curiosa, e ela mora justamente na Faria Lima. Enquanto o resto do mundo afrouxa, o executivo do mercado financeiro insiste no corte ajustado. Colella observa que esse cliente quer uma roupa extremamente slim no corpo, não aceita muita sobra de tecido. É um cara bastante exigente com medida e detalhes. Uma bolha de resistência ao conforto, uma última trincheira do slim em um mundo que o abandonou.

O monograma bordado, aquele símbolo de status da alfaiataria sob medida, também está em retirada. Todos relatam queda na procura. Quando aparece, migrou do peito, onde já foi onipresente, para lugares mais discretos: o punho da camisa, ao lado de onde ficaria uma abotoadura, ou a costela, no estilo italiano. É uma mudança de paradigma, até porque, atualmente, na era do wellness, muitos pais dividem o guarda-roupa com os filhos.

Mas a grande virada, todos concordam, foi o expediente ter ficado casual. A melhor análise de quando isso começou talvez seja a de Almeida, que situa a origem do movimento bem antes da pandemia. “Antes do 11 de Setembro, principalmente nos Estados Unidos, vendiam aquela história de que ninguém mais precisava se vestir para trabalhar. Importava sua cabeça, sua criação, não sua roupa”, conta ele. Quando vieram os atentados e a crise, muita gente perdeu o emprego. “E aí quem se vestia bem é que conseguia recolocação. Voltaram a se vestir.” A pandemia, anos depois, trouxe o home office e desfez de novo o hábito. Hoje, com a volta aos escritórios, sobrou um meio-termo mais solto.

A consequência prática aparece no que se vende. Almeida despacha muito o caban, uma espécie de casaco-camisa que faz as vezes do paletó sem ser um. Colella vê os sócios das gestoras que atende trocarem a camisa e o blazer de antigamente pela dupla jeans e polo, e o mocassim pelo tênis. Leilson, que mal lembra a última vez que fez um terno completo de três peças para um executivo, é categórico sobre o que restou. “Colete e gravata, hoje, só noivo usa.” Ainda assim, nenhum deles vê o paletó em extinção. Pelo contrário. Almeida é enfático: “O mercado financeiro, por experiência minha de anos, precisa ter um blazer no escritório. Te dá mais peso, mais poder. O paletó é igual à bolsa da mulher.” É a última fortaleza do formalismo, a peça que resiste quando tudo mais cede.

Aqui mora a inquietação que atravessa todas as conversas. “Falam há muitos anos que a alfaiataria vai acabar”, diz Leilson. Ele mesmo é o retrato do risco: aprendeu com o pai, mas não tem ninguém aprendendo com ele. “Infelizmente, não. O jovem hoje fica muito nessas coisas de internet, tecnologia. Não é só a alfaiataria. Você não vê mais ninguém querendo aprender a ser sapateiro, por exemplo.” Corulla concorda e amplia o diagnóstico. “Os alfaiates estão morrendo e não têm reposição. Aquela costureira que criou o filho, pagou faculdade, esse filho não quer ser costureiro.” Colella resume na imagem do imediatismo. “A nova geração quer pular o processo para chegar no resultado." E a alfaiataria, lembra ele, é o avesso disso: “um aprendizado lento, manual, que a inteligência artificial não ensina”.

Mas o quadro não é só de despedida. Contra a maré, alguns desses ateliês viraram, eles próprios, escolas. Vasconcellos mantém um programa interno de capacitação na fábrica e no ateliê, inspirado justamente nas casas que admira (a Anderson & Sheppard, em Londres, é conhecida por formar seus tailors). “Investimos nos jovens para ter continuidade. Mas tem que ter paixão.” Ele desconfia dos que aparecem atrás do glamour. "Noventa por cento procuram porque querem estar perto das pessoas importantes que atendemos. Mas sair na foto é passageiro. Precisamos dos que compram isso como profissão, como legado.”

Em um tempo em que a roupa virou commodity e o esforço, um estorvo, a alfaiataria sobrevive porque vende exatamente o contrário: tempo, atenção, o luxo do que foi feito uma vez só, para um corpo só. Os jovens podem não querer aprender. Mas, por ora, ainda há quem queira vestir. E enquanto houver quem queira, haverá quem saiba fazer.

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