Do menino engomadinho que brincava nas ruas de Belo Horizonte sonhando em se vestir com as marcas de surfwear (como Billabong, Quiksilver e Rip Curl), passando pelo advogado recém-formado que virava as noites criando moldes de roupa com guardanapos e papel higiênico, até a consolidação como um dos principais nomes da alfaiataria premium e contemporânea no Brasil — responsável, por exemplo, pelo terno do casamento e da cerimônia de posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Esse é apenas um vislumbre da trajetória de Alexandre Won, de 45 anos, que falou com a reportagem do Page9, via chamada de vídeo, logo após atender um de seus clientes em seu charmoso ateliê na Rua Normândia, em Moema, São Paulo. Nossa conversa aconteceu em uma segunda-feira fria e começou com o alfaiate elogiando o clima: “Eu gosto deste tempo. Ele é bom para se vestir melhor,” brincou.
Won vem de uma família coreana. O pai nasceu em um berço bastante rígido, tradicional e militar. Já a mãe pertencia a uma linhagem de artistas — e ela mesma sempre foi estilista e uma excelente costureira. “Ela começou fazendo moda no Bom Retiro e acabou crescendo como empreendedora, chegando a abrir mais de 10 lojas de moda feminina em Belo Horizonte”, contou. “Cresci no chão de fábrica, acompanhando minha mãe nessa jornada na moda. Além disso, ela sempre fazia as minhas roupas e as dos meus irmãos,” disse.
Aliás, a mãe era bastante radical nesse quesito. Quando era criança, Won não brincava nas ruas usando as roupas que as outras crianças e pré-adolescentes usavam na época, mas sim aquelas confeccionadas por ela. “Eu lembro bem de brincar na rua com camisa e shortinho de alfaiataria, todo engomadinho. Na época, tudo o que eu queria era me vestir com as roupas dos meus amigos. Sonhava em ter uma roupa da Billabong, mas minha mãe dizia: ‘não, não, não’,” disse.
Won cresceu, portanto, com uma forte referência estética. Após se formar em Direito, viveu o drama de se vestir de acordo com seus altos padrões. “Minha mãe não fazia mais as minhas roupas. Na época, rompi com a família e fui deserdado porque me casei com uma mulher contra a vontade deles,” disse. “Então, comecei a buscar lojas, marcas e alguém que conseguisse me vestir da forma que eu acreditava esteticamente.”
Segundo ele, seu “corpo era mais difícil”, pois praticava muito esporte e era viciado em musculação. “As proporções do meu corpo eram diferentes. Nada funcionava: marcas nacionais, internacionais, camiseiros, alfaiates experientes que carregavam pastinhas e me visitavam no escritório... Eu acordava de manhã para ir ao trabalho e me sentia frustrado. Teve uma vez que o proprietário de uma marca muito famosa, depois de oito tentativas de me vestir, chegou a me ligar para dizer que o que eu buscava era impossível.”
Won ouviu desse proprietário que não havia como atendê-lo porque “tudo o que já havia tentado estava muito bom, as proporções estavam ótimas e as roupas estavam boas.” O empresário ainda avisou que não devolveria o dinheiro e que a relação terminava ali.
O alfaiate ficou, claro, muito impactado com a resposta e pensou: “Gente, não é possível.” E foi a partir desse estalo que sua história mudou.
Won sabia que era possível, sim, fazer uma roupa que atendesse às suas expectativas. Obsessivo com a ideia, criou uma rotina dividida entre o escritório de advocacia e madrugadas intermináveis de estudo e prática. “Eu tinha vinte e poucos anos e passava a madrugada fazendo moldes de estudo com guardanapo e papel higiênico. Como é um material maleável e barato, funcionava bem, já que eu não tinha como gastar com tecido,” disse.

Encantado pelo processo, ele começou a estudar todas as escolas possíveis de alfaiataria (italiana, americana, francesa, inglesa, asiática...). “Eu não conseguia mais pensar em outra coisa. O Direito foi ficando para trás. Me apaixonei tanto que montei um ateliê para fazer minhas primeiras peças,” disse.
Alexandre Won apropriou-se de forma rigorosa do termo Bespoke. Ao contrário do "sob medida" convencional — que apenas ajusta moldes pré-existentes —, o processo de Won cria uma peça do zero absoluto para o corpo do cliente. “Isso em uma época em que não se falava em Bespoke. Ninguém sabia o que era. Tive que bater muito nessa tecla, mesmo depois de ficar conhecido,” disse.
Ele acredita que foi essa abordagem que gerou as conexões para o seu sucesso. “As pessoas bacanas me procuravam porque eu realmente fazia algo que não existia no mercado e que nasceu da minha própria dor, da minha necessidade. Também tive a oportunidade de aprender fazendo roupas para amigos, pais de amigos e familiares. Tive a oportunidade de aprender errando; refazia uma roupa 10 vezes se fosse necessário,” disse. “Assim criei minha própria identidade, o que é difícil, porque não temos escolas de alfaiataria no Brasil, a literatura é vaga e até buscar informações na internet é complicado.”
Ao criar sua própria identidade, Won acabou desenvolvendo uma criação que hoje é um sucesso replicado por várias marcas: a tecnologia de estruturação para manter a gola da camisa sempre em pé.
Hoje, quem marca uma “consulta” no ateliê de Won passa primeiro por uma entrevista com uma consultora de estilo, que entende o momento do cliente, suas necessidades e faz uma pré-seleção de tecidos. “É como se fosse a triagem em um pronto-socorro. Primeiro, o cliente afere a pressão, a temperatura... aí já entro com essas informações em mãos,” brincou.
Na conversa seguinte, Won busca entender profundamente quem é aquela pessoa e qual é o seu momento de vida. “Busco observar os trejeitos, como ela se comporta, se se movimenta muito, o jeito como sustenta o corpo... Feito isso, começo um projeto no papel. Ou seja, a modelagem começa do nível zero,” disse.
O percurso segue com uma prova feita apenas com um tecido bruto de teste e, posteriormente, uma segunda prova com a roupa já construída. “Quando visto alguém e vejo a felicidade da pessoa, quando ela se enxerga de uma maneira diferente e está claramente impactada com o resultado, eu volto lá atrás, quando comecei tentando atender às minhas próprias necessidades,” disse.
“Vejo com frequência que a vida da pessoa melhora depois das provas. Acho que as energias que circulam ali acabam se expandindo de uma maneira positiva e muito relevante. É muito nítido no comportamento dos clientes: eles crescem na profissão, conseguem relacionamentos mais interessantes, se sentem muito mais seguros... Estar bem-vestido faz toda a diferença.”
Os clientes de Won costumam ser mais experientes e com alguma vivência em alta alfaiataria. Ele também os identifica como pessoas que estão passando por momentos de transformação ou que sentem a necessidade de se renovar. “É difícil encontrar um cliente aqui que não conheça alfaiataria, que não entenda o que está pedindo ou que não se identifique com a linguagem do meu trabalho. Meu estilo, além de ser muito clássico, tem pitadas contemporâneas e modernas para trazer leveza e jovialidade dentro de toda essa tradição.”
E, claro, são clientes com a vida financeira organizada. Uma roupa feita sob medida por Alexandre Won não sai por menos de US$ 5 mil.
Won ficou amplamente conhecido pelo público geral depois de assinar o terno que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou em seu casamento com Janja, além do modelo utilizado na cerimônia de posse de seu terceiro mandato.
Além do presidente, Won já vestiu diversos empresários, agentes do mercado financeiro (a chamada Faria Lima), políticos e artistas. Sempre muito discreto, ele prefere não citar nomes, mas com uma pesquisa simples é possível encontrar clientes ilustres como o chef Érick Jacquin, os atores Chay Suede e Rodrigo Lombardi, o ex-jogador Kaká e o empresário Roberto Justus.
Won abre uma exceção para falar de um dos seus clientes mais especiais: o atleta paralímpico, modelo e apresentador Fernando Fernandes. No caso dele — que utiliza cadeira de rodas devido a uma lesão medular sofrida em 2009 —, a modelagem ganhou um papel ainda mais profundo.
“O Fernando Fernandes é um cliente que me deixou muito emocionado. A assessoria dele me ligou perguntando se eu vestiria um cadeirante, pois disseram que ninguém queria atendê-lo dada a complexidade do trabalho. Eu aceitei o desafio com muito prazer. Todo o processo foi incrível e aprendi bastante com ele. Em certa ocasião, ele tirou uma selfie no reflexo do provador e me disse que não se sentia tão bonito desde o acidente; que era a primeira vez que tinha vontade de tirar uma foto de si mesmo. Isso me marcou bastante,” disse.
Além da alfaiataria, Won tem outra grande paixão: a coquetelaria. “Em minhas viagens, esse é um itinerário obrigatório. Às vezes, chego a visitar dois ou três bares de coquetelaria por dia. Gosto muito da atmosfera e de ambientes que convidam a um momento de relaxamento e à conversa com pessoas interessantes,” disse.
Durante o processo de reformas físicas em seu ateliê em Moema (motivado pela criação de uma linha de peças prontas), o alfaiate decidiu reservar um espaço reservado para encontrar amigos — para eventualmente tomar um uísque ou fumar charutos de forma descompromissada.
Em um desses encontros, durante uma conversa com Ricardo Miyazaki — bartender, empresário e fundador do The Punch, um dos principais bares de coquetelaria de São Paulo —, nasceu uma sociedade e, consequentemente, o bar Provador.
O espaço é um speakeasy superexclusivo escondido dentro do ateliê de Won. O local atende apenas 11 pessoas por turno (sendo sete lugares dispostos diretamente no balcão e duas mesas com dois lugares cada). O bar funciona estritamente sob reserva, que pode ser realizada por meio do Instagram @oprovadorbar.
Um dos grandes trunfos da casa é contar com um dos melhores bartenders do país: Ryu Komorita. O vencedor do prestigiado torneio World Class Brasil 2024 explora uma infinidade de coquetéis clássicos — alguns inspirados no universo da moda, como o Tuxedo e o Blue Blazer — e customiza os drinques de acordo com as preferências de cada cliente, sem a necessidade de um menu fixo.
Assim como vestir um terno assinado por Alexandre Won, passar uma noite no Provador tem o poder de deixar qualquer um mais elegante. Pode acreditar.















