“Ela é o Tropicalismo encarnado,” resume Caetano Veloso, melhor amigo do pai, Gilberto Gil, e tio de Preta Gil, a protagonista de Meu Nome É Preta, série documental dividida em quatro episódios que terá sua temporada balizada por duas datas importantes.
A estreia acontece exatamente um ano depois da morte da cantora, aos 50 anos, vítima de um câncer no intestino que se arrastou por anos e fez ela e todos que estavam ao seu redor sofrerem por longo tempo.
O último episódio será exibido no sábado, dia 8 de agosto, quando Preta estaria completando 52 anos.
Além desse, Preta ainda será lembrada com a exibição de outro projeto audiovisual em sua homenagem: o documentário Preta – Eu Não Ando Só, exibido pela Globo.
A observação de Caetano tem a ver com a percepção do momento artístico-histórico e do estilo da sobrinha, que repudiava qualquer tipo de repressão ou censura.
Preta nasceu em 1974, quando Gilberto Gil, então com 32 anos, já estava no terceiro casamento, tinha três filhos — um deles, Pedro, nascido durante o exílio, em Londres, e filho dele com Sandra, a mesma mãe de Preta — e retornava ao Brasil para retomar a carreira dentro de um clima pesado para a arte, a cultura ou qualquer outra espécie de manifestação pública.
Se para Caetano, Preta era a melhor tradução do tropicalismo, para Gil, a filha representava a liberdade, o reencontro com um novo tempo. “Ela nasceu depois de eu ter atravessado um momento de turbulência,” diz um emocionado Gil, admitindo que o impacto do nascimento da filha fez com que ele chorasse por oito dias seguidos. “Ela era o símbolo da minha volta ao Brasil, do meu recomeço.”
Filha de Gil, sobrinha de Caetano, afilhada de Gal Costa, Preta emerge em um ambiente que se divide entre o Rio de Janeiro (onde nasceu em agosto de 1974) e Salvador, para onde foi levada aos seis meses e passou parte da primeira infância. “Sou uma carioca com sotaque baiano,” autodefine-se.

Nesse meio, Preta surgiu causando estranhamento e polêmica até quando não tinha controle sobre o tema. Como, por exemplo, 13 dias após seu nascimento, quando o pai foi registrá-la num cartório em Copacabana e a funcionária do local se negou a aceitar o nome.
A insistência de Gil em mostrar exemplos semelhantes (Branca, Rosa, Clara...) pouco impactou a escrivã e a escolha só foi vitoriosa quando a sogra, mãe de Sandra, propôs uma alternativa mais palatável: “Aceita o Preta e coloca Maria no nome, fica um pouco mais cristão”.
Assim, Preta Maria Gadelha Gil Moreira — que por pouco escapou de ser “Pedra”, feminino de Pedro — surge nas suas mais diversas formas. “Desde criança ela era metida, um acontecimento,” diz o primo-irmão Moreno Veloso, filho de Caetano e de Dedé (irmã de Sandra), um dos 52 entrevistados que constroem o mosaico multifacetado da personalidade de Preta.
Em capítulos de pouco menos de uma hora, o documentário é dirigido por Mini Kerti — já experiente pelas bem-sucedidas realizações de Refavela 40 (2019) e Jorge Mautner: Kaos em Ação (2020) — e mostra todas as fases e facetas da curta e fulgurante trajetória de Preta.
Amigos (com destaque para uma emocionada Amora Mautner), irmãos, irmãs (as quatro dão um depoimento em conjunto), madrasta, pai e mãe todos são unânimes em reconhecer a menina divertida e agitada que se transformou na adolescente problemática (era péssima aluna, como comprovam os boletins escolares) até chegar na mulher ousada, sem barreiras, nem preconceitos, mãe de um filho e avó de uma neta.
Esses depoimentos de tantas testemunhas que ressaltam a essência de Preta dividem o espaço com uma rica seleção de imagens de arquivo de várias épocas — muitas com fotos e vídeos da intimidade da família Gil — e mais ainda com a voz da própria Preta.
Incisiva sem perder a graça, ela fala de preconceitos, do racismo que sofreu na escola por parte de colegas e dos pais desses colegas, da opção por começar a trabalhar ainda na adolescência, do gosto pela noite e pelos shows, e até da nudez que estampou na capa de seu disco de estreia, Prêt-à-Porter, lançado em 2003, quando Gilberto Gil era ministro da Cultura.
Entre os destaques do primeiro episódio estão a relação dela com o irmão mais velho, Pedro, a quem venerava e considerava um artista completo, e a reaproximação com o pai depois da mágoa da separação dele e de sua mãe e o imediato relacionamento de Gil com a nova mulher, Flora.
Pedro foi o primeiro grande trauma sofrido por Preta. Ele morreu em um acidente automobilístico quando tinha 19 anos, na Lagoa, no Rio de Janeiro, em janeiro de 1990.
Já com Flora, que entrou na vida do pai quando ela tinha cinco anos, o relacionamento precisou ser construído aos poucos, com os dois lados cedendo. A separação dos pais havia sido tão impactante que Preta desenvolveu um bloqueio com a música Drão, feita por Gil e dedicada à mulher de quem se separara.
O reencontro de pai e filha na última aparição pública dela tendo a canção como elo confirma que a pergunta lançada há mais de quatro décadas continua atual: quem poderá fazer aquele amor morrer?














