A maternidade é um tema antigo na literatura. O que mudou foi a maneira de abordá-la: aos poucos, a imagem idealizada abriu espaço para personagens mais complexas – mães cansadas, felizes, ausentes, amorosas. Humanas, acima de tudo.
No último romance de Mayra Sotto Mayor Bichara, Se Eu Soubesse Contar Infinitos (compre aqui), o tema é o fio condutor de uma relação marcada por amor, ausência, expectativas e heranças emocionais entre três gerações de mulheres: Tereza, Alice e Carolina.
A narrativa percorre momentos diferentes. De 1968, no auge da ditadura militar, salta para 1986, depois para o início dos anos 2000, até chegar nos dias de hoje, ambientada entre Rio de Janeiro, Paris, Nova York e Búzios. Um livro que soa familiar ao acompanhar grandes acontecimentos políticos e sociais através da vivência íntima de uma família.
A matriarca Tereza surgiu como uma mulher à frente de seu tempo. “Artista, livre e inquieta, ela constrói uma vida distante dos modelos tradicionais esperados para uma mulher de sua época,” disse a autora ao Page9.
Mas o que para ela representa liberdade é interpretado pela filha Alice como abandono. Desse conflito nasce uma das questões centrais do romance: como mulheres que tentam romper padrões também podem, sem perceber, transmitir suas próprias dores para a geração seguinte?
Anos depois, ao se tornar mãe de Carolina, Alice reproduz algumas das ausências que marcaram sua infância. É nessa terceira geração que o romance encontra sua possibilidade de reparação.

“Tereza começa a escrever para essa neta coisas que nunca conseguiu dizer para a filha. Quis trazer essa ideia de mulheres falando umas com as outras, compartilhando vivências,” disse Mayra, que se inspirou no trabalho da antropóloga Shere Hite sobre sexualidade feminina para a criação desses textos.
“O livro trata de confidências — dessas coisas que a gente adoraria trocar com as amigas, mas que muitas vezes não consegue. As personagens têm contradições, erros, acertos, e é justamente isso que cria identificação,” disse a autora.
A ideia de que a maternidade seria uma espécie de obrigação para a experiência feminina também dialoga com o romance. “Antes de ter filhos, ouvi algumas vezes que eu ainda não tinha experimentado completamente o feminino. Isso me fez pensar sobre como a maternidade é colocada, muitas vezes, como uma espécie de marco obrigatório,” disse.
Sem heroínas ou vilãs, o livro é um convite a refletir sobre como romper esses ciclos sem apagar a história. Não por acaso, está se tornando popular entre clubes do livro em diversos estados brasileiros.














