A moda dos bons modos

A moda dos bons modos

A etiqueta sempre existiu. A diferença é que agora a plateia que testemunha os erros é do tamanho do rombo da Mappin

Os perfis de etiqueta se multiplicaram no Brasil numa velocidade que só a internet permite, e a explicação é mais simples do que parece: pela primeira vez na história, mobilidade social e vida em rede aconteceram ao mesmo tempo, e a combinação abriu uma ferida nova. Passamos a cruzar, todos os dias, gente de mundos que antes jamais se tocavam, seja no feed, no casamento da prima rica, na mesa que a sogra armou para impressionar a visita... 

Essa obsessão tem data de origem e não nasceu ontem: quando a aristocracia precisou engolir a burguesia, porque um lado tinha título e o outro tinha dinheiro, e nenhum dos dois sobrevivia mais sozinho sem o que faltava ao outro, nasceu um mercado de trocas que precisava de moeda própria. O título comprava respeitabilidade para o dinheiro novo; o dinheiro sustentava um sobrenome que já não pagava as próprias contas. Como toda transação exige prova de que as partes pertencem ao mesmo clube, os modos à mesa viraram a moeda visível dessa troca: quem sabia todos os gestos provava que merecia a cadeira, mesmo sem o título ou mesmo sem a fortuna que a justificavam.

Atualizado para os dias de hoje, os herdeiros desse título seguem, em geral, sem tostão, e descobriram uma saída elegante: monetizar a única herança que ainda lhes resta, que são as boas maneiras. Democratizam a etiqueta em nome dos antepassados, ensinam no Instagram o que a família sempre soube de graça, e cobram por isso porque os víveres estão pela hora da morte e os sofás precisam de um forro novo. É generoso perceber que o mesmo gesto que antes separava as classes agora paga o aluguel de quem nasceu do lado certo da separação.

A lista do que ensinam é grande: sentar, receber, cumprimentar, montar mesa, dobrar guardanapo, escolher presente, usar os talheres certos, sobreviver a uma quantidade impressionante de situações que, até pouco tempo, atravessávamos no improviso, com poucos danos à civilização ocidental. Sempre existe uma regra que a gente ignorava e, pior, alguém disposto a avisar que a ignorância estava à mostra. Você achava que estava só tomando sopa; descobre que estava expondo a biografia inteira.

A etiqueta sempre existiu e serviu, durante séculos, como gramática de reconhecimento entre grupos sociais; a diferença é que agora a plateia que testemunha os erros é do tamanho do rombo da Mappin. Uma intimidade sem intimidade nenhuma, em que milhões de pessoas passaram a reconhecer as pistas de grupos aos quais nunca pertenceram. 

Uma coisa é reconhecer, outra é dominar o código – e nesse intervalo prospera uma indústria inteira dedicada a ensinar como não dar bandeira.

Tem algo de infantil nessa esperança de que um conjunto de regras baste para nos proteger do julgamento, e não custa lembrar de onde vem o hábito. A criança aprende cedo que certos comportamentos rendem aprovação e outros provocam aquela pequena mudança no rosto dos adultos, que ela logo decora: faz certo, ganha carinho; faz errado, corre o risco de perdê-lo. O amor condicionado ao comportamento correto é a primeira escola de etiqueta de qualquer pessoa, e o resto da vida é só variação sobre esse tema. Crescemos, trocamos a colher do Mickey pela taça Baccarat, mas a fantasia conserva o mesmo desenho: aprender o modo certo de fazer protege de qualquer acusação de não pertencer.

A ansiedade de classe encontra aí terreno fértil. O Brasil gosta de se imaginar informal, espontâneo, uma grande varanda em que todo mundo se trata pelo primeiro nome, mas construiu ao longo de gerações um sistema bastante preciso para localizar cada pessoa na paisagem social: o bairro, a escola, o sotaque, a roupa, o restaurante, o destino de férias, a pronúncia de uma palavra em inglês. O País que jura não ligar para a formalidade passou décadas aperfeiçoando maneiras de descobrir de onde cada um veio. O Instagram só acrescentou o tutorial.

Existe também, nesse sistema, um capítulo colonial que ninguém gosta de nomear. Colônia sempre olhou para a metrópole feito espelho torto, tentando reproduzir de memória um gesto visto de longe, e o resultado carrega a marca de quem copia sem ter assistido ao original de perto. 

O último grito em Paris ainda ecoa nos trópicos décadas depois de ter emudecido na origem, porque em Paris ninguém confundiu bons modos com moda alguma: lá as pessoas continuam brigando com o chuveiro, morando em apartamentos sem elevador, tratando etiqueta como coisa de museu ou de casamento de gente muito velha. A imitação sobrevive melhor fora de casa do que dentro dela. É uma versão doméstica do que teóricos pós-coloniais chamam de mímica: a periferia reproduzindo o estilo da metrópole de um jeito quase igual, nunca idêntico, e é exatamente nesse quase que mora o desconforto de quem imita e o divertimento de quem observa.

O mundo que essas contas tomam como referência, a velha aristocracia europeia, a família americana de sobrenome antigo e casarão hipotecado, come frugal, detesta receber e já perdeu, há muito, a mesa, a vontade e o dinheiro para convidar sequer os próprios parentes para um almoço de domingo. Enquanto isso o Brasil do dinheiro novo tira a toalha boa do armário, põe a prataria à mostra e se apronta como quem caminha para o último baile do império: um espetáculo de fartura oferecido a uma plateia que, na origem tão admirada, já cansou de oferecer qualquer coisa a quem quer que seja.

Bourdieu escreveu páginas inteiras sobre como gosto, hábito e maneira funcionam como formas de distinção social; o algoritmo conseguiu resumir o assunto em quarenta segundos e emprestar uma trilha sonora. Norbert Elias foi mais longe e mostrou de onde vem o mecanismo inteiro: nas cortes europeias, controlar o próprio corpo, o riso, o volume da voz e o comportamento à mesa era a forma que a nobreza encontrou de se distinguir de quem não tinha esse controle, numa época em que ainda dava para confundir um duque com um lavrador bem vestido. 

O curioso é que, quanto mais acessíveis ficam os antigos sinais de distinção, mais sinais novos precisam ser inventados. Quando todo mundo descobre a marca da bolsa, passa a importar o jeito de usá-la; quando todos já conhecem o restaurante, importa saber o que pedir. E depois que qualquer um consegue comprar a louça boa, resta aprender a dispô-la sobre a mesa. A fronteira se desloca porque uma fronteira que todo mundo atravessa deixa de servir para separar coisa nenhuma.

A posição dos talheres sobre o prato é código combinado com o garçom, que lê o desenho e sabe se pode recolher o prato ou se o convidado ainda não terminou. Some a isso o jeito certo de andar, de descer escada, de se abaixar para pegar algo que caiu, os assuntos permitidos à mesa, o momento certo de rir, e é tanta informação que só de enumerar aqui eu já me sinto tendo que andar numa passarela com três livros equilibrados na cabeça pra manter a postura ereta, como se fazia na Socila. Para quem nasceu depois de 1990: a Socila era um curso de etiqueta cuja figura elegantíssima, a senhora [o nome a memória apagou], ditava, como o nome sugere, as pequenas éticas de uma vida cotidiana mais, como dizer, humm, bem, civilizada. O exercício do livro na cabeça não era força de expressão: escolas de moças do mundo inteiro usaram esse método durante décadas, porque a postura ereta sinalizava disciplina antes mesmo de qualquer palavra ser dita.

Surge daí uma figura bem contemporânea: a pessoa que se vigia enquanto vive. Ela não entra em um restaurante, observa-se entrando num restaurante. Não bebe vinho, acompanha a própria mão se aproximando da haste da taça. Não recebe os amigos, contempla a mesa posta imaginando o diagnóstico que alguém fará da disposição dos copos. Foucault descreveu a torre do panóptico como o desenho perfeito de poder porque o prisioneiro se comporta mesmo sem ninguém vigiando, só de saber que poderia estar sendo visto; o Instagram construiu a mesma torre em formato de aplicativo e conseguiu instalar a vigilância dentro de casa, no jantar de terça-feira sem visita nenhuma. O olhar social continua funcionando mesmo quando ninguém está prestando atenção: uma forma bastante trabalhosa de jantar sozinho.

O espontâneo segue sendo o inimigo número um das boas maneiras, e a rigidez cerimonial dos tempos da aristocracia próspera segue sendo, para a burguesia emergente, o retrato do que significa ter chegado: uma cerimônia que promete, através da postura certa, a garantia de finalmente pertencer. O que costuma unir de fato as duas pontas da mesa é bem mais prosaico do que ritual algum: um evento de caridade, uma gala beneficente, o amiguinho novo que a filha mais nova arranjou depois que resolveu fazer curso de DJ em Londres, e mesmo nessas ocasiões ninguém troca endereço nem confunde os dois salões.

A ironia se aprofunda quando lembramos que quem cresceu dentro desses códigos costuma manejá-los com o desleixo de quem aprendeu uma língua na infância, e pode inclusive infringir uma regra sabendo que a posição social não depende dela. A pressa febril em acertar aparece com mais força em quem teme ser flagrado errando. O garfo vira prova, a mesa vira exame, o jantar ganha a atmosfera de uma entrevista de emprego para uma vaga que ninguém anunciou.

Faz sentido que essa figura tenha voltado justamente agora, porque o problema deixou de ser estar bem na frente da vizinhança ou da sociedade de sempre, aquele conjunto finito de gente que já nos conhecia. Hoje é preciso estar bem na frente de um mundo inteiro de gente que nem sabíamos que existia, um mundo que só está olhando porque nós mesmos abrimos a porta, convidamos, ligamos a câmera e mostramos o que comemos e como nos comportamos.

Nesse grande filtro em que a vida se tornou, a professora de etiqueta presta um serviço de polimento: pega hábitos que já tínhamos deixado para trás, gestos naturais que qualquer um fazia sem pensar duas vezes, e devolve tudo numa versão apresentável, pronta para essa plateia nova. O resultado é que até o ato mais banal passou a pedir correção, e ninguém mais consegue, sem risco de reprovação pública, comer uma simples omelete usando a faca – aliás, segundo uma influenciadora de boas maneiras paulistana, não se come ovos com faca. Fica a dica!

Em tempos de superexposição, nada pode sair do script, e o problema é que ninguém garante mais que quem escreveu o roteiro tenha autoridade de verdade para isso. Basta seguir as próprias redes: tem gente com pé-direito de altura de sauna, chandelier arranhando o chão, decoração gritando Ikea em cada centímetro, comandando em vídeos diários o que pode e o que não pode à mesa, apesar de um gosto duvidoso que por si só já bastaria para desqualificar a autoridade que essa pessoa se atribui. Ninguém questiona, porque o que circula ali é permissão disfarçada de gosto, e o brasileiro tem fetiche antigo por essa distinção entre o pode e o não pode, um jeito prático de terceirizar o próprio julgamento para qualquer um disposto a se declarar juiz. Confundir obediência com elegância, no fim, é hábito de sotaque bem reconhecível: colonizado, ajoelhado diante de uma autoridade que ninguém convidou para a mesa, mas que ocupou a cadeira à força de tanta gente aceitar sem perguntar por quê.

Etiqueta é também uma forma bastante simpática de ditar a rigidez, enaltecer a disciplina e colocar cada um em seu devido lugar sem precisar levantar a voz para isso. É espartilho no humor, cinto de castidade na personalidade, e o efeito colateral de tanta regra costuma ser gente engraçada fingindo comedimento e gente à vontade fingindo formalidade, o corpo inteiro aprendendo a esconder o que realmente é. Não estou aqui defendendo a anarquia à mesa, longe disso, mas ainda acredito no bom senso do ser humano antes de acreditar em qualquer manual: existe gente que nunca fez curso nenhum e sabe exatamente quando parar de falar, quando ceder o lugar, quando baixar o tom do riso. O manual serve para quem já não confia nesse instinto, ou para quem o perdeu de vista faz tempo.

Os influenciadores de etiqueta prestam, nesse sentido, um serviço real: ensinam um vocabulário que abre portas e evita constrangimento. Mas sobra no gênero inteiro um quê de melancolia, porque a gente nunca sai do estamos quase, versão doméstica da mímica colonial de que falamos lá atrás: quase prontos, quase lá, quase entendendo o código por completo, sem nunca alcançar o original que se pretende copiar.

O país do futuro adiado se apronta com esmero para receber em grande estilo, guarda a louça boa no armário fechado, espera o dia especial, o dia de gala que todo mundo saberia reconhecer se ele chegasse, só que o dia não chega nunca, e a mesa fica posta apenas na cabeça, entre um vídeo e outro. Sobra aí um quê de ingenuidade, um romantismo meio bobo, quase enternecedor: acreditar que existe, em algum lugar do calendário, uma ocasião à altura de tanto preparo.

Enquanto isso, em algum jantar, alguém segura a taça pelo bojo, ri alto, parte o pão com a faca e segue sendo convidado para tudo. É bem capaz de ter aprendido uma regra que ainda não chegou ao Instagram. Ah, lembrei: as professoras de boas maneiras da Socila se chamavam Maria Augusta Nielsen e Christine Yufon. Que gafe a minha.

 

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