Vinhos do mar, a paixão do momento entre os enófilos

Vinhos do mar, a paixão do momento entre os enófilos

O movimento da vez em Portugal não está em terra, mas envelhecendo a sete chaves no fundo do oceano

Imagine viajar para Portugal e visitar uma adega. Um tanto óbvio? E se ela estiver a 40 metros de profundidade, no fundo do mar da costa alentejana, ao lado de Comporta?

Agora imagine buscar a sua própria garrafa com um grupo de amigos orientado por uma equipe de mergulho superespecializada para, então, degustá-la e compará-la ao mesmo vinho, da mesma safra, só que envelhecido em terra. 

Essa experiência tem sido desenhada pela Associação Portuguesa de Enoturismo (APENO) e está promovendo uma nova relação entre produtores, enófilos e sommeliers há cerca de dois anos, especialmente aqui em Portugal.

APENO

O Porto de Sines fica a duas horas de Lisboa e a 10 minutos de barco da Ilha do Pessegueiro. Lá, a equipe da EcoAlga promove os mergulhos-batismo em que o grande prêmio é resgatar uma garrafa de vinho envelhecido no fundo do mar. 

A ideia, inicialmente recreativa, ganhou contornos econômicos e científicos com o investimento de cerca de 30 vinícolas portuguesas de todo país, que viram na atividade uma chance de lançar um novo produto que desperta muita curiosidade.

Algumas delas passaram a oferecer um pack de dois vinhos da mesma safra, sendo um envelhecido apenas em terra e o outro no fundo do mar. Hoje, a Adega do Mar, do agrônomo, mergulhador e empreendedor Joaquim Parrinha, já abriga cerca de 40 mil garrafas de diversos produtores. Ela abre em solo (ou melhor, em mar tuga) a “caixa de Pandora” de um tema que ficou adormecido por muito tempo nas profundezas do oceano. 

“Como toda ideia nova, foi uma luta conseguir as licenças e parcerias para obter as autorizações. Mas quando entenderam que o projeto colabora e não prejudica o equilíbrio subaquático, muita coisa avançou,” diz Joaquim.

O conceito é totalmente inovador e por isso trata-se de um nicho de difícil acesso, o que torna tudo mais interessante e exclusivo para um viajante ávido por experiências fora do comum. 

Parrinha atua há 25 anos na região e tem trabalhado junto à Entidade Regional de Turismo e à Câmara Municipal de Sines para dar visibilidade ao envelhecimento de vinhos no mar. Mais que isso, a APENO criou um evento anual dedicado ao tema reunindo expoentes do assunto da Espanha, da Itália e de Portugal — um movimento internacional. “A ideia é explorar a ligação entre vinho, ciência, mergulho, gastronomia e turismo,” diz a presidente da Associação, Maria João de Almeida. 

Ou seja, o assunto, ainda que seja um resgate de tradições antigas, é uma novidade que está sendo desbravada e coordenada, e que já permite receber smart travelers fissurados em experiências únicas. Vivi essa experiência em Portugal e conto o que faz deste o movimento da vez por aqui.

Como tudo começou

Vinhos em bom estado têm sido encontrados com frequência em naufrágios ao longo dos anos. Ânforas romanas seladas à cera foram encontradas em grutas no mar da Grécia e remontam ao berço da arqueologia marítima. 

O tema passou a ser alvo de investigação científica desde 2010, quando encontraram, no fundo do Mar Báltico, 168 garrafas de champanhe com rolhas Veuve Clicquot datadas de 1840 e perfeitas para o consumo. As condições subaquáticas foram tão apropriadas que a Maison Veuve Clicquot criou o projeto Cellar in the Sea, que tem garrafas monitoradas no fundo do mar por 40 anos.

Já Pierluigi Lugano, produtor em Portofino sem espaço para armazenar seus vinhos da marca Bisson, se inspirou na história e começou o impensável lá em 2000: criar uma adega no fundo do mar que efetivamente começou a operar só em 2013. Hoje, seu Abissi Spumant Brut estagia de 13 a 18 meses, a 60 metros da superfície, consagrando o produtor como um visionário de um novo setor que se abre na economia vínica mundial. 

“Foi numa noite sem dormir, pensando nos meus problemas logísticos, que o insight surgiu. Lembrei do caso das grutas de Anticítera na Grécia, em que encontraram ânforas de terracota em perfeito estado datadas de 60 A.C. a 50 metros de profundidade. Ou seja, estavam lá há mais de dois mil anos. Bingo! Decidi que faria isso,” diz Pierluigi, que já foi reconhecido em matéria do New York Times como um dos empreendedores mais criativos da área.

O movimento ainda é embrionário em termos de potencial, mas despertou o espírito empreendedor de outros produtores, como o enólogo espanhol Ramiro Carbajo, da Bodegueros Quinta Esencia. Ele estudou o tema, começou a produzir vinhos para mergulhar e considera a temperatura da água, a profundidade e como irá posicioná-los antes mesmo de começar a fazer os vinhos. 

A técnica à serviço do conceito lança uma nova forma de pensar o produto final — ou seja, uma nova era para um mercado tradicional que remonta à história da própria humanidade.

O que a Ciência diz

Segundo Cristina Dias, professora de Química e Vice-Reitora da Universidade de Évora, “o vinho é um organismo vivo e reage de forma diferente de acordo com o ambiente”. Fatores como temperatura, luminosidade e até o movimento das marés podem promover um novo tipo de batonnage, aquele processo de girar as garrafas nas barricas para mexer as leveduras. 

Mais que isso, o vinho pode ganhar outro perfil.  Longe de tratar-se de uma ciência exata, há apenas uma certeza: o vinho, de fato, muda.

O que o sommelier relata

Rodolfo Tristão, um expert no assunto que apresentou uma prova de 14 rótulos versão-terra, versão-mar em junho,  atesta que cada vinho tem peculiaridades específicas. Taninos são amaciados em condições marítimas (apesar de alguns apresentarem maior acidez), mas de um modo geral pode-se afirmar que:

• Os brancos  têm mais alterações no sabor e no aroma. “O frescor fica mais evidente nos frutados com acidez mais equilibrada. De um modo geral eles ficam mais redondos,” diz.

• Com os espumantes, ele observa que os bruts geralmente ficam mais estruturados, com um gás mais elegante. Destaque para o Pegōes Rosé.

• Já os tintos precisam de mais tempo que os brancos para evoluir no mar. Os mais estruturados e de alta qualidade ficam ainda melhores se envelhecidos no oceano. Ele cita o Já Te Disse 2021 como uma boa indicação.

Onde encontrar

Pedro Sanches de Baêna é enólogo do Torre de Palma Wine Hotel e coordenou a experiência de envelhecer um rótulo do empreendimento no fundo do mar de Sines. Começaram apenas com 40 garrafas por um tempo de seis meses.

Segundo ele, o vinho do mar resultou em mais frescor e acidez. “Temos a primeira garrafa que tiramos do mar exposta na nossa sala de prova e tem sido impressionante ver o interesse das pessoas,” diz. O hotel é uma das joias raras do interior português que prima por excelência fora das grandes cadeias hoteleiras, com a oportunidade de provar o Torre de Palma Arinto & Alvarinho 2023 em mar ou em terra, com um jantar harmonizado.

Quanto custa

Outra coisa também é certa: uma garrafa envelhecida no fundo do mar custa dez vezes mais caro que uma em terra, muito por conta dos motivos logísticos e comerciais. Além do aluguel da área, mergulhadores especializados também têm que depositar o estoque por lá. 

Ou seja, se uma garrafa normalmente custa € 30 euros, um pack para a prova de comparação terra e mar pode chegar aos € 330, segundo Joaquim Parrinha.

Para além de toda dinâmica que envolve a novidade, pense: o quão divertido pode ser provar com amigos o mesmo vinho conservado em dois ambientes completamente diferentes para tirar suas próprias conclusões? Ou então prová-los com pratos variados e ver com quais harmonizam melhor? 

Imagine, então, se a garrafa do mar tiver sido conquistada por você no mergulho mais cedo… Se a paixão pelo vinho estiver alinhada com a paixão pelo mar, esta pode ser uma das experiências mais fantásticas da sua vida.

Cerveja, rum e gin também mergulham? 

Sim, afinal, quase tudo pode ser envelhecido no fundo do mar? Segundo Parrinha, azeites perdem a acidez e o mel perde a doçura. Mas para além disso, outras bebidas também fazem sucesso. Confira:

• Cerveja Bisson: projeto do brasileiro Daniel Razera junto com o visionário Pierluigi Lugano, trata-se de uma garrafa Magnum belgian strong ale, com 12% de álcool, feita a partir do método clássico e envelhecida com tampa de inox por quatro anos no fundo do mar de Portofino. Será vendida no mercado europeu com rolha de espumante por € 100. De cor alaranjada, notas de tâmaras, café tostado e laranja, esta iguaria eleva a palavra cerveja a um outro patamar sensorial — palavra do sommelier Rodolfo Tristão.

• Gin e Rum Black Pig: marca portuguesa líder no mercado interno, foi uma das primeiras a investir na Adega do Mar. Tanto o gin (€ 160) quanto o rum (€ 140) ganham contornos muito mais redondos, licorosos e menos adstringentes quando envelhecidos no mar,  segundo o proprietário Miguel Nunes. Um produto premium para apreciadores e colecionadores.