Angela não costuma receber convidados. Artista malograda e desempregada que agora se dedica a decorar o próprio apartamento, ela quase não tem vida social. E quer mudar isso: aproveitando que a filha de 12 anos vai passar a noite na casa de uma amiga, chama o casal que mora no apartamento de cima para uma noite de queijos e vinhos.
Joe, marido de Angela, protesta contra a ideia. Ele não gosta dos vizinhos que o acordam de madrugada com os gemidos e grunhidos do sexo. Mas não dá mais para cancelar o convite: Piña e Hawk já estão batendo à porta. E no decorrer da noite eles retribuirão a gentileza dos anfitriões com uma proposta inesperada: querem incluir Angela e Joe em suas barulhentas sessões de sexo grupal.
Terceiro filme dirigido por Olivia Wilde, que também interpreta Angela, O Convite (The Invite), em cartaz nos cinemas, tira o máximo proveito cômico do encontro entre dois casais tão diferentes.

Os diálogos às vezes carregam uma ironia digna de Woody Allen, sobretudo nas tiradas ferinas que Joe dirige aos convidados (e à própria esposa). Também há momentos quase tolos — e muito hilários — de comédia corporal.
Mas essa é uma comédia com um doloroso centro dramático: o desgaste fatal do relacionamento de Angela e Joe, que só se espantam com a liberdade erótica de seus vizinhos porque já não têm uma vida sexual digna do nome. A ousadia do filme está em extrair graça dessa desgraça.
O Convite é uma adaptação de Sentimental, filme espanhol de 2020 dirigido por Cesc Gay, com base em uma peça teatral do próprio diretor.
A cenografia enxuta do filme americano denuncia sua remota origem no palco: afora as breves cenas iniciais em que vemos Angela comprando queijo brie e Joe voltando do trabalho em uma bicicleta ridiculamente pequena, toda a ação se passa no interior do apartamento do casal.
Esse espaço limitado permite uma grande variedade de composições de imagem: os personagens marcam seu antagonismo situando-se, de pé, em pontos opostos da sala (e da tela), ou se acomodam no sofá em momentos de proximidade íntima.
Olivia Wilde filmou O Convite na sequência cronológica dos eventos, em cerca de três semanas.
O elenco se resume a quatro atores, todos perfeitos em seus personagens. Seth Rogen compõe o músico Joe com todo o cansaço de quem já não espera alcançar a felicidade amorosa ou a realização profissional (ex-membro de uma banda que teve um breve vislumbre do sucesso, ele agora dá aulas para adolescentes em um conservatório).
Como Angela, Olivia Wilde carrega a permanente ansiedade da dona de casa que tenta ser a anfitriã perfeita para compensar a falta de propósito em sua vida.
Edward Norton faz Hawk, um ex-bombeiro que entende de tapetes persas e é propenso a dar lições de vida não requisitadas. E Penélope Cruz brilha como a psicoterapeuta e sexóloga Piña, uma mulher que sabe perfeitamente o que quer — e, mais importante, o que deseja.

A infelicidade matrimonial de Angela e Joe fica estabelecida logo nas primeiras cenas. Está presente no tom seco com que ela manda que o marido tire os sapatos ao entrar em casa e na censura velada com que ele reclama da quantidade exagerada de comida que ela comprou para agradar os convidados.
Quando Piña e Hawk chegam, Joe deixa mais ou menos claro que não os queria em sua casa. Em uma sucessão de gafes e constrangimentos, o filme se equilibra entre o riso e a tensão.
Aos poucos, porém, Joe vai se encantando com a atitude ao mesmo tempo impositiva e sedutora da sexóloga espanhola. E Angela está enfeitiçada pelo ex-bombeiro que, a julgar pelos gritos que já ouviu do apartamento de cima, leva sua mulher a orgasmos sísmicos.
Quando os visitantes se põem a falar de suas experiências com sexo grupal, os anfitriões ouvem essas histórias com uma excitação quase infantil. E é então que Piña e Hawk convidam os vizinhos para uma troca de casais — uma espécie de aquecimento para futuras orgias com um número maior de participantes.
Piña e Hawk parecem representar tudo o que Angela e Joe desejariam ser: desinibidos, sensuais, seguros de si, sem amarras ou filhos. Mas há um elemento curiosamente pudico na forma com que falam de suas experiências sexuais na linguagem pasteurizada do wellness: o importante é “se abrir para o outro,” e os plugues anais são apenas um caminho para chegar a essa abertura mística. “Nós evitamos os clichês da pornografia”, explica Hawk quando Angela pergunta sobre dupla penetração.
Nas sequências finais, O Convite desvia-se para o registro dramático. Piña, com seriedade profissional, recita o receituário de Esther Perel, badalada psicoterapeuta belga com consultório em Manhattan que atuou como consultora da produção. Ao abandonar a comédia, o filme também perde sua ousadia.
Em entrevista ao jornal The Guardian, Olivia Wilde falou da qualidade terapêutica de seu filme: os espectadores adultos riem de personagens em que se reconhecem, e assim se sentem menos solitários em suas frustrações sexuais.
No fim das contas, O Convite conforma mais do que questiona o público. É um quase feel-good movie — e, com exceção do final, uma das melhores comédias dos últimos anos.














