Em 2017, Ai Weiwei esteve no Brasil pela primeira vez para uma viagem de pesquisa artística. No ano seguinte, voltou mais cinco vezes para cuidar de todos os detalhes da maior retrospectiva já dedicada à sua obra até então, que aconteceu em um espaço de 8 mil metros quadrados na Oca do Ibirapuera.
Ele já era um dos artistas contemporâneos mais relevantes do mundo, e aquele foi um momento de euforia para nós.
Conhecido por seu ativismo político, o artista nascido em Pequim teve uma infância vivida no exílio e, em 2011, foi detido pelas autoridades chinesas por 81 dias, oficialmente por evasão fiscal, mas visto como consequência de suas críticas ao governo chinês. Após sua libertação, permaneceu sob severas restrições de liberdade até 2015.
Questões urgentes ligadas à luta pelos direitos humanos e à censura são levantadas em suas obras através de esculturas, instalações, cinema, fotografia e arquitetura, muitas delas em escala monumental.
Desta vez, Ai Weiwei apresenta a exposição Button Up! em Manchester, cidade que esteve no centro da Revolução Industrial. “Esta é uma exposição monumental, porque trata de um tema intimidador, carregado pelo peso da história e da memória. Manchester merece uma mostra como esta,” disse Ai Weiwei na abertura da mostra, em entrevista à Wallpaper.
Na mostra, o artista aborda dois séculos de relações entre a China e o Reino Unido — da industrialização à globalização —, para alertar sobre as consequências do imperialismo britânico que ainda ecoam nas crises humanitárias e políticas da atualidade.
O título da exposição, Button Up!, é um trocadilho que combina o sentido literal de “feche os botões!” com uma referência aos botões usados pelo artista chinês em suas obras.
Instalações inéditas e trabalhos já existentes são exibidos, em sua maioria, pela primeira vez no Reino Unido. Entre elas estão Law of the Journey (2017), um barco inflável de cerca de 50 metros de comprimento repleto de figuras humanas que representam refugiados. A obra foi exibida no lago do Ibirapuera, em 2018.

La Commedia Umana (2017–2021), um lustre de vidro negro de Murano composto por mais de 2 mil peças e com peso próximo de três toneladas; e History of Bombs (2019), uma instalação de 25 metros de largura que retrata diferentes tipos de bombas utilizando 3,5 milhões de peças de brinquedo, também integram a mostra.
A trilha sonora é uma obra em si. Nian Nian foi gravada por 300 voluntários para homenagear as 69 mil pessoas que morreram no terremoto que atingiu Sichuan em 12 de maio de 2008. O envolvimento de Ai Weiwei não se limita à homenagem: o artista foi impedido de testemunhar no julgamento do ativista de direitos humanos Tan Zuoren, que denunciou a corrupção local que havia contribuído para a má qualidade das construções.
Nian Nian, que menciona os nomes de 5.197 crianças em idade escolar que morreram no terremoto, é executada continuamente durante 39 dias, sem interrupção.
Outro momento comovente acontece em Sewing a Button, performance de 24 horas que recria os 81 dias em que o artista foi detido pelas autoridades de segurança pública da China, em 2011.
Em alusão ao 15º aniversário desse episódio, os visitantes puderam acompanhar, no dia 3 de julho, o artista comendo, dormindo e sendo interrogado por jornalistas e escritores de diferentes países em uma réplica de sua cela.
“Todos deveriam observar o que aconteceu, como aconteceu e os detalhes de como o poder foi exercido sobre pessoas que tinham opiniões e pontos de vista diferentes. O público deve considerar os efeitos dessas medidas, refletir sobre elas e se colocar no lugar daqueles que foram afetados,” disse o artista à revista britânica Wallpaper sobre a performance, que agora pode ser vista por meio de telas.

Ai Weiwei: Button Up!
Em cartaz até 6 de setembro.
Aviva Studios, Manchester














