Start me up! Os Rolling Stones estão de volta

Start me up! Os Rolling Stones estão de volta

A banda britânica com mais de 60 anos de estrada lança seu 25º disco, renovando seu posto de melhor banda de rock do planeta

Quando entrevistei Mick Jagger, em 2003, perguntei a ele se os Rolling Stones estavam para o rock n’roll assim como Ludwig von Beethoven está para a música erudita e Duke Ellington para o jazz

“Não tenho a menor dúvida,” me disse o vocalista, cujo ego equivale ao tamanho dos lábios de borracha (como foi chamado certa vez por um produtor de TV). “Pode ter certeza de que enquanto estamos conversando, em algum canto do mundo haverá uma banda ensaiando numa garagem. E ela está tocando uma canção dos Rolling Stones.”

O conjunto, hoje reduzido a Jagger (vocais) e aos guitarristas Keith Richards e Ronnie Wood, está lançando seu 25º disco de estúdio, Foreign Languages, que chega nesta sexta-feira (10.07) às principais plataformas de streaming. 

E embora os tempos de Exile on Main Street (1972) e Tattoo You (1981) – duas obras-primas de sua extensa carreira – estejam distantes, por certo o material deve render um punhado de novas e boas canções para serem ensaiadas na garagem mais próxima.

Em Foreign Languages, Jagger, Richards e Wood (acrescidos pela seção rítmica formada pelo baixista Darryl Jones e pelo baterista Steve Jordan, além de convidados especiais que serão citados ao longo desse texto) repetem a parceria com o produtor Andrew Watt. 

Menino prodígio do pop, com trabalhos ao lado de Miley Cyrus e Lady Gaga no currículo, ele nos últimos anos tem dado sobrevida a alguns dos principais nomes do rock clássico. Watt produziu Pearl Jam (Dark Matter), Ozzy Osbourne (Ordinary Man e Patient Number 9) e trabalhou com os veteranos ingleses em Hackney Diamonds (2023), um ponto alto de sua discografia recente.

Uma das características de Watt como produtor é colocar os cantores e/ou bandas com quem trabalha tocando juntos — o mais comum é que cada um faça sua parte em separado. 

A maioria das composições de Foreign Tongues foi gravada no estúdio Metropolis Studios, no oeste de Londres, e depois foram feitos registros adicionais em salas localizadas nas cidades de Nova York e Los Angeles, e nas Bahamas.

Embora tenha esse approach “raiz”, Watt, acostumado ao mundo pop, entrega um trabalho por vezes excessivamente polido, sob medida para as rádios e plataformas de streaming.

O novo álbum do conjunto traz essa sonoridade, mas não estamos falando de um talento qualquer. Os Stones usam esse recurso para potencializar o que eles têm de melhor: um punhado de canções ancoradas na escola do blues e do rock’n’roll, que lhes garantiu por anos o posto de melhor banda do gênero no planeta.

Canções como Rough and Twisted e Mr. Charm são, como se pode dizer na linguagem popular, “puro sucos dos Rolling Stones”. A primeira é um blues, com direito a slide guitar, e que fala de um sujeito que se deixa levar pelas promessas falsas de uma pessoa do sexo oposto — lançado no início de abril, o single foi inicialmente creditado a uma banda chamada The Cockroaches, mais uma das piadas de Jagger, Richards e Wood. 

Mr. Charm é um rock direto que narra as estratégias de um sedutor — e tem até uma citação a um certo Mr. Musk, que todo mundo deve saber de quem se trata. Jealous Lover é outro destaque, com os vocais em falsete de Jagger (um recurso que, para quem escutou sucessos como Fool to Cry e Emotional Rescue sabe que ele faz isso como poucos) e com Stevie Winwood, lenda do rhythm’n’blues britânico, nos teclados. 

Hit Me in the Head, um rock acelerado, tem como atrativo o uso de uma gravação póstuma de Charlie Watts, baterista e metrônomo oficial do grupo inglês (por conta da sua precisão) e que morreu em 2021.

Mais destaques? Ringing Hollow, música country inspirada nas composições do americano Gram Parsons — de quem Keith Richards teria roubado o sucesso Wild Horses, mas essa é outra história — e que traz uma declaração de amor aos Estados Unidos. “Bem, eu era loucamente apaixonado por você / Antes mesmo de nos conhecermos/ Vi todos os seus filmes/ Fumei seus cigarros,” canta Jagger, para em seguida fazer uma crítica ao governo atual do país. 

“A Estátua da Liberdade está de cara feia,” pontua o cantor. Some of Us, por sua vez, é uma belíssima balada cantada por Richards e com solo de teclados de Chuck Leavell, diretor musical da banda.

Foreign Tongues está repleto de participações especiais. O já citado Stevie Winwood, Robert Smith, do grupo pós punk The Cure (guitarras em Divine Intervention, uma das melhores faixas do álbum, e teclados em Never Wanna Lose You), Paul McCartney (baixo — e que baixo!) na balançada Covered in You e Bruno Mars, que toca cowbell em Never Wanna Lose You, uma brincadeira deles com a disco music

Mas com exceção de McCartney, sabemos da presença desses ídolos porque são citados na ficha técnica. Eis mais uma das peculiaridades dos Stones: por mais estelares que sejam os convidados de seus discos, eles estão ali para realçar o repertório do conjunto. 

Uma situação que se estende também para a releitura de You Know I'm no Good, de Amy Winehouse. Fiel aos arranjos da canção do disco Back to Black, ela traz um Jagger atingindo tons mais altos do que a autora desse clássico do blues/soul dos anos 2000.

No final das contas, Foreign Tongues honra a tradição de uma das melhores bandas do planeta. Preparem as garagens: os Rolling Stones estão de volta.