Durante as décadas de 1970 e 1980, ninguém ameaçou a supremacia da Rede Globo quando o assunto era novela.
A tradicional TV Tupi faliu em 1980. O SBT e a Band, com investimentos esporádicos, nunca intimidaram. E a Rede Manchete, fundada em 1983, apesar de ambiciosa, se limitava a disputar o segundo lugar com as concorrentes.
Até que um autor frustrado e inquieto, injustamente considerado do segundo time, trocou de emissora para causar a maior dor de cabeça já sentida no departamento de teledramaturgia da Globo.
Este homem foi Benedito Ruy Barbosa, criador da novela Pantanal, exibida pela Manchete em 1990, com uma média de audiência que nunca baixou dos 35 pontos quando a expectativa eram cinco, e uma linguagem inovadora que entrou para a história do audiovisual nacional.
O paulista Benedito Ruy Barbosa morreu aos 95 anos nesta terça-feira (07.07), em São Paulo, devido às complicações de uma insuficiência renal crônica, como um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira.
Seus folhetins tratavam de temas que ele conhecia bem através da própria origem familiar: as disputas de poder nas fazendas, a batalha dos trabalhadores rurais e de imigrantes pela sobrevivência e o contraste entre os valores do interior e da metrópole.
Além de Pantanal, Benedito foi celebrizado por Renascer (1993), O Rei do Gado (1996), Terra Nostra (1999), Esperança (2002) e Velho Chico (2016), novelas produzidas depois de seu retorno triunfal à Globo.
Mas, se não fosse a ousadia de trocar de emissora na hora certa, talvez tivesse ficado limitado ao rótulo de um bom autor da faixa das seis que escreveu Paraíso (1982), Sinhá Moça (1986) e Vida Nova (1988).
O projeto de um folhetim gravado no Pantanal Mato-grossense, com 70% das cenas externas, foi recusado pela Globo, que considerou a produção inviável em uma época em que a prioridade eram as temáticas urbanas.

Inconformado, Barbosa mostrou a sinopse para a Manchete que, mesmo sem saber o seu salário, ofereceu o triplo caso trocasse de empresa.
Sob a direção de Jayme Monjardim, Pantanal deixou os telespectadores fascinados com as paisagens da região, as longas cenas próximas da linguagem cinematográfica e uma trama em que personagens realistas se misturavam às criaturas míticas.
Restou à Globo reconhecer o erro e chamá-lo de volta oferecendo carta branca para que escrevesse o que bem entendesse.
Em Renascer, de 1993, ele focou a trama na região cacaueira da Bahia e, três anos depois, em O Rei do Gado colocou no horário nobre a defesa da reforma agrária através das discussões de latifundiários e sem-terra.

Barbosa era conhecido pelo gênio forte, pela ideologia de esquerda que sempre permeou a sua obra e pelo seu fascínio pelo interior do Brasil.
Ele nasceu em Gália, no interior paulista, filho de um fazendeiro que também era jornalista, e cresceu ouvindo “causos” de empregados, peões e imigrantes que, no futuro, inspirariam suas histórias.
O exercício da escrita começou pelo jornalismo e ganhou repercussão através do teatro. Em 1960, Barbosa estreou como dramaturgo com a peça Fogo Frio, dirigida por Augusto Boal (1931-2009), no Teatro de Arena, em São Paulo. O texto mostrava os trabalhadores das lavouras de café afetados pelas variações climáticas.
Somos Todos Irmãos e O Anjo e o Vagabundo foram as primeiras novelas escritas para a TV Tupi, as duas protagonizadas pelo ator Sérgio Cardoso (1925-1972) e a atriz Rosamaria Murtinho.
Barbosa chegou à Globo em 1971 com Meu Pedacinho de Chão, considerada “a primeira novela educativa da TV brasileira,” e atravessou a década em um vai-e-vem por outros canais, como a Tupi e a Band, onde realizou a épica Os Imigrantes, em 1981.
A trama, dividida em quatro fases, cobria a saga de italianos, espanhóis e portugueses no Brasil entre 1892 e 1954. A mesma temática seria explorada em Terra Nostra e Esperança.

Foi esta ambição que a Globo demorou a perceber até Benedito provar que o santo da casa era capaz de fazer milagres em outras freguesias.
As novelas de Benedito Ruy Barbosa a partir de 1990 conquistaram a audiência ancoradas na estrutura clássica de um folhetim costurado por conflitos sociais e políticos refletidos no ambiente rural.
Através desta essência, o autor mostrou fazendeiros conservadores desafiados pelos filhos, mulheres submissas que se apoderam no decorrer dos capítulos e homens fortes fragilizados pelo amor tendo como cenário o interior do Brasil.
A escrita de Benedito Ruy Barbosa levou ao vídeo um país que o telespectador, acostumado às paisagens do Rio de Janeiro e São Paulo, não conhecia ou valorizava.
Não à toa, a partir da década de 2000, grande parte das novelas de Barbosa ganharam adaptações assinadas pelas filhas Edilene e Edmara Barbosa e pelo neto Bruno Luperi.
Cabocla (2004), Sinhá Moça (2006), Paraíso (2009), Meu Pedacinho de Chão (2014), Pantanal (2022) e Renascer (2024) conquistaram novos espectadores com as abordagens de um país que virou moda e ganhou até o nome de Brasil Profundo.
Certamente, Benedito Ruy Barbosa foi um dos grandes responsáveis pela divulgação desta cultura que, abordada na literatura, no cinema e na música, demorou tanto para chegar à televisão.















