Destoando de uma série de arranha-céus espelhados, o número 2.705 da Avenida Faria Lima salta aos olhos de quem circula pelo centro financeiro da capital paulista. É ali que fica o Solar Fábio Prado, ícone da arquitetura neoclássica dos anos 1940 e antiga morada do casal de mecenas Fábio da Silva Prado (ex-prefeito de São Paulo) e Renata Crespi.
Instalado em uma cobiçada área de 12.500 metros quadrados com dois terços de área verde, o imponente casarão acolheu, por cinco décadas, o Museu da Casa Brasileira (MCB) — o único no País dedicado exclusivamente à arquitetura e ao design nacionais com um acervo que inclui desde a Poltrona Mole de Sergio Rodrigues até móveis assinados por Paulo Mendes da Rocha e Lina Bo Bardi.

Há três anos, no entanto, o mercado cultural ficou abalado com a saída abrupta do MCB do endereço após a Fundação Padre Anchieta, atual detentora do imóvel, encerrar o comodato com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.
Para a arquiteta e curadora Joice Berth, o caso revela um sintoma mais profundo. “É uma questão política, fundiária e de especulação imobiliária. Soube de uma profunda crise institucional e grande luta interna para que o museu não fechasse. O MCB nos fornece reconhecimento subjetivo em termos de identidade. Não é um equipamento que a gente possa abrir mão facilmente. O passado precisa e merece ser preservado," defende a autora do livro Se a Cidade Fosse Nossa. A saída da antiga sede em 2023 marcou o fim de um ciclo contratual, abrindo as portas para uma evolução na gestão da cultura pública do MCB. Desde então, o único museu do País dedicado ao estudo, preservação e difusão das questões da moradia, acabou se tornando um reflexo das próprias problemáticas do Brasil e busca uma nova casa para chamar de sua.
Enquanto isso não se concretiza, o foco migrou para a descentralização e itinerância do acervo em diálogo com outros polos arquitetônicos. Uma boa sacada para incentivar o encontro de novos públicos e apoiadores.
“É preciso contextualizar que ainda não houve uma decisão definitiva quanto à sede do MCB; o que mudou foi a nossa dinâmica de atuação. Não quisemos deixar esse patrimônio guardado à espera de uma nova estrutura fixa,” aponta Marília Marton, secretária de Estado da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo. A circulação começou ainda em 2024, com exposições no Museu Paulista e no Museu do Ipiranga, ambas na capital, e também na Pinacoteca Fórum das Artes de Botucatu.
Agora, este recomeço ganha ainda mais estofo com a abertura da mostra gratuita Sob a Casa, Outras Casas, uma ocupação temporária que se inicia neste sábado, 26.06, na Residência Olivo Gomes, em São José dos Campos.

“O auge do MCB é justamente esta nova fase de maturidade, em que ele deixa de ser um local estático e se transforma em uma plataforma dinâmica que circula por todo o Estado, realizando grandes exposições temporárias de altíssimo nível técnico e curatorial, que criam novas interpretações para o acervo,” completa a secretária de Estado.
Localizada dentro do Parque da Cidade, a exposição gratuita propõe uma pergunta bastante direta: afinal, quem pôde habitar com dignidade no Brasil?
A curadoria propõe que olhemos de frente para deslocamentos e fraturas das coexistências do habitar em um interessante encontro das muitas complexidades que compõem as hierarquias sociais brasileiras. Tudo isso a partir de elementos ordinários do cotidiano como pilões, liquidificadores, esteiras, redes, armários, bancos, camas, poltronas, sofás e mesas.
“Colocamos em discussão uma história mais longa, que inclui a casa-grande e a senzala, os quartos de serviço, as habitações precárias, as ocupações urbanas, as moradias ribeirinhas, as tekoas e os quilombos,” argumenta Isabel Xavier, que assina a curadoria ao lado de Giancarlo Latorraca e Guilherme Wisnik.
Uma vez por lá, vale uma pausa generosa no núcleo Dois Quartos Distintos, que recria lado a lado, dois quartos de realidades distintas: um muito simples e rústico inspirado nos primeiros tempos da colonização e outro marcado pelo refinamento ornamental do período imperial. Ambos marcam diferenças sociais, culturais e materiais intrínsecas à formação do País.
Destaque também para o núcleo Diversas Formas do Sentar, que reúne fotografias da série Casas do Brasil. A peça mais rara em exibição é o sofá “Olivo”, desenhado originalmente por Rino Levi para a sala de estar da residência, que foi reintegrado ao ambiente para o qual foi concebido.
Importante lembrar que a mostra se instala no Vale do Paraíba, segunda maior área indígena do estado de São Paulo. "Pensar a casa, aqui, é pensar também a paisagem, o rio, o chão e as camadas de tempo que seguem vivas sob a superfície da cidade,” reforça a curadora.
A exposição coloca em diálogo peças indígenas com objetos coloniais e o design moderno de forma simultânea e não cronológica. Um dos pontos altos da visitação é o acervo fotográfico de figuras emblemáticas como Milton Guran e Iatã Cannabrava, que retratam a pluralidade de moradias brasileiras, desde palafitas amazônicas até apartamentos urbanos.

Ícone da arquitetura moderna projetado por Rino Levi em parceria com Roberto Cerqueira César e com paisagismo de Burle Marx, o imóvel passou por rigorosas obras de conservação e adaptação e teve investimento de R$ 5,2 milhões de recursos do Estado (sendo R$ 1,1 milhão para readequação predial e o restante para o custeio da operação do museu pelo período de um ano).
Com patrocínio da EDP Brasil e da Embraer, a mostra é resultado de uma parceria entre a APAC (Associação Pinacoteca Arte e Cultura), a Prefeitura de São José dos Campos e a Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
Enquanto o Museu da Casa Brasileira não encontra seu novo CEP para sede oficial e segue como “nômade”, a atual gestão reforça que o grande legado do MCB não se mede por investimentos físicos ou tijolos, mas sim pela quebra de barreiras geográficas.
“Queremos consolidar um museu dinâmico, que se mantenha vivo e relevante por meio do diálogo entre o seu acervo e as diferentes regiões e patrimônios históricos do nosso Estado," finaliza a Secretária Marília Marton.
Sob a Casa, Outras Casas – Museu da Casa Brasileira na Residência Olivo Gomes
Av. Olivo Gomes, 100, Santana - São José dos Campos, SP.
De quinta a domingo, das 10h às 17h.
Entrada gratuita














