Na virada para o século 21, pesquisas apontavam que o período máximo de concentração de uma pessoa diante de um conteúdo era de sete minutos.
O ator Antonio Fagundes se inspirou na informação e escreveu a peça Sete Minutos — Uma Comédia no Tempo Certo, que, dirigida por Bibi Ferreira, estreou em São Paulo em 2002. O próprio artista fez o papel do ator surtado diante da desatenção do público que abandona o palco no meio da apresentação.
O personagem perdeu o foco por causa de um celular que tocou, do barulho do pacote de batatas fritas e das conversas paralelas em uma cena da tragédia Macbeth, de Shakespeare. O ápice do desrespeito, porém, foi um homem da primeira fileira tirar os sapatos e apoiar os pés no palco.
Quase 25 anos depois, Sete Minutos — Uma Comédia no Tempo Certo ganhou nova montagem, desta vez dirigida pelo próprio Fagundes, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo.
“É curioso perceber que passei por todos os processos com essa peça como autor, produtor, intérprete e diretor,” diz o artista, em entrevista ao Page9.
O alter ego do galã é interpretado pelo ator Norival Rizzo em um elenco completado por Ana Andreatta, Conrado Sardinha, Fábio Esposito, Natália Beukers e Walter Breda.

A diversão continua garantida não apenas porque Fagundes puxa a orelha do público, mas ri de si mesmo e da imagem de profissional exigente e inflexível.
“Todas as situações que escrevi aconteceram comigo e muita coisa piorou,” compara. “Se eu tivesse que fazer uma alteração, trocaria o título para ‘Sete Segundos’ porque ninguém presta atenção em nada por um tempo maior hoje em dia.”
Fagundes não entende o que leva um sujeito a comprar um ingresso, sair de casa e enfrentar o trânsito para chegar a um lugar em que não relaxa. “A gente pode chamar de falta de educação, mas chegamos a esse ponto por uma questão mais triste,” observa. “As pessoas ficaram tão solitárias que não se sensibilizam com mais nada.”
Em 2002, os celulares eram só aparelhos para fazer e receber ligações que, com o avanço da tecnologia, viraram computadores de bolso prontos para promover a discórdia.
Além dos alarmes, incomodam quando acionados para fotografar e filmar as cenas ou para uma mera consulta de mensagens — algo que evidencia a incapacidade de a plateia se desconectar das preocupações externas.
“Depois da pandemia, o vício que parecia controlado se intensificou e o cara entra em crise se não tocar na telinha,” critica Fagundes.
Os telefones móveis podem ser apontados como o grande vilão da etiqueta teatral, mas Fagundes garante que outros inconvenientes precisam ser evitados pelo público.
Qualquer cidade grande sofre com congestionamentos, então programar-se para chegar ao teatro com quinze ou vinte minutos de antecedência deveria ser natural.
“Empecilhos acontecem e não tenho a pretensão de penalizar ninguém, mas faço questão da pontualidade em respeito à maioria,” diz o ator, que já foi alvo de processos de espectadores atrasados e venceu todos.
O elenco de Sete Minutos — Uma Comédia no Tempo Certo também dá conselhos para uma melhor experiência.
O ator Conrado Sardinha avisa que, quem chega com folga ao teatro e imagina que possa sentir fome, deve comer antes de entrar na sala, e o colega Walter Breda completa que, mesmo se não estiver com uma vontade absurda, não custa passar no banheiro. É inoportuno se levantar durante a peça.
A atriz e produtora Natália Beukers sugere que o espectador preste atenção no número da poltrona para não ocupar o assento errado ou fazer pessoas se levantarem para que ele passe e, depois, perceba que se equivocou de fileira.
O ator Fábio Esposito recomenda que pode ser bom o sujeito se informar sobre a peça, já que, muitas vezes, chegou ao teatro estimulado por outra pessoa e o tema pode não ser do seu interesse.
“E se a pessoa achar a peça chata vai ligar o celular, vem aquela luz em um ponto da plateia e todos se atrapalham,” completa Ana Andreatta.
Fagundes levanta um fenômeno recente que testa a sua paciência. Parte do público carrega garrafas de água para se hidratar e, às vezes, leva champanhe para tomar na sessão.
“O que me irrita é que a garrafinha faz barulho na hora de abrir, lá pelas tantas, cai no chão e a pessoa resolve procurá-la entre as cadeiras,” reclama.
O álcool, por sua vez, gera desinibição e impulsiona comentários paralelos. “No teatro, não existe conversa discreta,” avisa o ator Norival Rizzo. “A gente sempre ouve tudo, ainda mais se a acústica for boa.”
Quando o assunto é rede social, todo mundo deseja compartilhar o programa com os seguidores. Então, basta terminar o espetáculo para que a plateia saque o celular do bolso e se esqueça de aplaudir os artistas — a última é uma das mais importantes etapas deste ritual.
“As pessoas que filmam não batem palmas e perdem um momento gratificante para o elenco e o público,” ressalta Fagundes.
Os artistas, porém, reconhecem que as redes servem de importante divulgação. A dica deles é fotografar os cartazes e fazer selfies na plateia antes do início da peça para postar na saída — de preferência, quando já estiver em casa —, sugerindo aos amigos o espetáculo.
Fagundes acredita que é hora de reavaliar a liturgia que envolve o teatro para que o público volte a valorizar esta experiência coletiva. Como ele gosta de afirmar, reunir centenas ou até milhares de pessoas em torno de um espetáculo é um ato revolucionário.
“Fazemos um trabalho de formiguinha e é impossível aceitar que o público abra mão de momentos que podem ser inesquecíveis,” disse. “Sete Minutos não é uma bronca, é uma declaração de amor ao teatro e a todas as emoções que a arte oferece a quem se deixa tocar por ela.”

Dez mandamentos da etiqueta teatral
1. Chegue, pelo menos, com quinze ou vinte minutos de antecedência ao teatro.
2. Se estiver com fome ou sede, coma ou beba antes de entrar na sala.
3. Vá ao banheiro antes da peça começar, mesmo se não estiver com muita vontade.
4. Preste atenção no número da poltrona para não se sentar no lugar errado.
5. Se o teatro não estiver lotado e desejar trocar de lugar para uma poltrona vazia, faça apenas depois do terceiro sinal.
6. Fotos e selfies são bem-vindas para a divulgação da peça se tiradas antes do início da apresentação.
7. Diante do terceiro sinal, desligue o celular. Não adianta baixar o volume ou diminuir a luz.
8. Deixe para comentar a peça na saída
9. Não leve garrafas de água para dentro do teatro. Bebidas alcoólicas são totalmente dispensáveis.
10. Aplauda no fim da apresentação e, se não gostou de nada, pode ficar quieto. A vaia deixou de ser elegante faz tempo.














