O que fica quando uma mãe se vai?
Ilustração: Teresa Berlinck

O que fica quando uma mãe se vai?

Autora do livro “Como Navegar o Abismo” narra a vida após a morte (antes da hora) de uma mãe

Quando perdi minha mãe, nasci de novo do lado avesso. Tive que aprender a comer, trabalhar, ficar triste, feliz, doente pela primeira vez em uma realidade em que ela não mais habitava. Se uma versão de nós sempre vai junto com quem amamos, então eu também morri naquele dia besta de março.

Achava que meu amor seria o suficiente para driblar o diagnóstico do câncer de pâncreas que atestava, mas eu não sabia, que a vida da minha mãe só duraria alguns meses.

Descobri que mães, que até pouco tempo antes eu julgava serem imortais, também partem antes da hora, e acabei me tornando um símbolo para os meus amigos de que as mães deles também morreriam um dia.

Comecei a fazer um inventário de todas as coisas que eu viveria sem que ela estivesse presente. Um casamento formal? Meu próximo livro? O nascimento de um possível filho? Eu, uma escritora com muitas palavras e formas de explicar o mundo, nunca seria habilidosa o suficiente para contar para esse bebê imaginário quem era a minha mãe, e passei a questionar se teria coragem de trazer ao mundo alguém que não sei se saberia amar como ela. O luto desmonta tudo.

Perdi minha base, a pedra fundamental onde plantei minha vida, mas também o conceito de família, os almoços de domingo, meu passado — minha mãe era testemunha ocular e o inventário amoroso da minha história. Eu dizia que vim pra essa terra ser filha da Laura. 

Morávamos em cidades diferentes há mais de 20 anos. Quando saí de Campos dos Goytacazes e vim morar no Rio, muita gente duvidou que eu conseguiria ficar longe, mas ela sempre disse que eu ficaria bem. E fiquei.

Segui independente, trabalhei, publiquei os livros que ela sempre teve certeza de que eu publicaria. Mas mesmo com bem mais de trinta anos, eu ainda tomava as decisões baseadas no que ela dizia.

Então como seguir depois da sua partida do mundo?

Existe muito ineditismo na perda e a ausência me fez perceber outras coisas sobre o amor. Eu achava que o repertório sobre minha mãe ficaria parado no tempo como as fotos que temos juntas, mas ainda descubro coisas incríveis ao conversar com suas amigas.

Um dia desses, sua melhor amiga me disse: “Você não tem noção de tudo o que vivi com sua mãe. Só eu e ela sabemos. E que assim seja!,” me fazendo rir em um dia em que estava triste. Percebi sua existência além da maternidade, e que o luto não era só meu.

Em outras conversas, também ouvi que a relação com a minha mãe era um privilégio desses raros. Ao falar sobre ela aprendi que “nem toda mãe”.

Nem toda mãe e filha têm uma relação próxima, nem toda mãe é assim tão incrível, nem todo sangue é garantia de amor incondicional. A descoberta acabou virando motor do meu livro novo: Como Navegar o Abismo (editora Record).

Quando minha mãe ficou doente, eu escrevia no bloco de notas do telefone o que eu chamava de “diários do câncer,” uma forma de tentar digerir sozinha o absurdo daquela doença. Quando ela morreu, algum tempo depois, resolvi abrir esses diários. Estava lá a frase “como navegar o abismo,” mas em formato de pergunta.

Como se navega um abismo?

Foi o que pensei quando ela morreu. Na minha nova versão, não coube muita coisa que eu julgava imutável, como alguns sonhos, desejos, concessões, um casamento. Se eu tenho então que permanecer, por onde começo?

A resposta veio com o tempo, o tal senhor da razão. Tive vontade de matar todas as pessoas que me diziam no luto fresco que só o tempo amenizaria a saudade.

É ele, só ele, orixá soberano que coloca as coisas no lugar… Os anos foram soprando no meu ouvido que minha permanência não era só tática de sobrevivência, era realmente existência, dessas grandes, bonitas, cheias de significado.

À medida que o tempo foi passando e novos desafios e belezas vieram, eu descobri que tinha um manual de navegação pronto, colado em mim.

Ao permanecer de pé, funcional, olhando para a vida que insistia e me chamava, eu entendi que meu manual tinha sido deixado pela minha mãe. Ela continua em mim no amor que me deu estrutura, no meu repertório. Eu me recuso a não ter uma relação com ela.

Sei que posso seguir pela vida sentindo e ouvindo sua voz através de um arquivo amoroso que vai sempre me dizer qual caminho seguir. Ter sido tão amada me deu superpoderes. E isso ninguém tira de mim. Nem mesmo a morte.