Quando um campo de golfe entra para a nobreza do esporte

Quando um campo de golfe entra para a nobreza do esporte

Ganhar o prefixo Royal é uma tarefa que exige tradição e história — uma conquista de poucos ao longo do tempo

O golfe moderno, do jeito que conhecemos hoje, surgiu na Escócia no século XV e desde sempre foi sinônimo de classe, elegância e poder. Ao longo do tempo, o esporte evoluiu e se aperfeiçoou. Mas o mítico networking e as regras restritas sempre estiveram presentes, o que ajudou a popularizar a prática como algo de gente… rica.

Dentro deste grupo seleto de homens e mulheres que se divertem e fecham negócios aos fins de semana em um dos mais de 38 mil campos ao redor do mundo, existe uma parcela ainda mais reservada, dedicada à nobreza do esporte. Trata-se de um número de pessoas (entre poderosos e campeões consagrados) que têm o privilégio de jogar em um dos atuais 66 clubes que levam o prefixo de Royal.

Até para quem joga habitualmente, estar em um destes é uma conquista. Não só pelo green bem aparado, pelos circuitos desafiadores e bem desenhados e pelas vistas de cair o queixo. Mas pela história.

É que além de todo o ritual que envolve o esporte em si, jogar em um destes campos e clubes, históricos e reservados, é quase como fazer um hole in one. Ou seja, uma baita conquista.

Birkdale, que recebe a 11ª edição do Open em Southport, Inglaterra, até o próximo domingo, foi fundado em 1889 e só recebeu o título de nobreza (passando a se chamar Royal Birkdale Golf Club) em 1951. O clube, que já era um ponto de encontro para poucos, tornou-se ainda mais reconhecido mundialmente depois disso e, três anos após a chancela, recebeu o primeiro torneio oficial.

Para ganhar o título, o campo em questão – ou clube, já que não é necessário ter um campo próprio, apesar de fazer uma grande diferença na decisão – deve receber a “bênção” de um monarca em vida e em atividade. Hoje, a lista dos 66 Royal Golf Courses que existem conta com membros espalhados por destinos como Canadá, Índia, Austrália e Alemanha, sendo que a maior concentração está no Reino Unido, berço do esporte.

Para receber o prefixo, o clube deve fazer o pedido formal à família real ou ter um nome da realeza como patrono ou membro honorário. Também deve estar ligado ao fomento do esporte e manter as tradições vivas. 

Em comum, todos seguem as regras do golfe regulamentadas pela R&A, associação que organiza os torneios Open no Reino Unido – um dos maiores do mundo ao lado do Masters, do PGA e do U.S. Open. Vale saber que ter um título Royal, ainda assim, não garante necessariamente que o clube receba uma fase dos torneios.

Nesta cartilha infinita de regras, seguida praticamente em todo o mundo, está a padronização das penalidades, da pontuação, do stroke e das vestimentas – como a proibição do uso de jeans, de sapatos com spikes de metal e a obrigatoriedade das camisas com colarinho e de roupas adequadas para jantares e almoços formais.

Essas regras da R&A surgiram no Royal and Ancient Golf Club of St. Andrews, um dos primeiros clubes a ganhar o título em 1834 do Rei William IV. Curiosamente o St. Andrews, na Escócia, até hoje não é proprietário de nenhum dos sete campos que compõem o complexo do clube – incluindo o Old Course, onde o esporte surgiu. 

O mesmo aconteceu com o vizinho Royal Perth, que ganhou o título um ano antes, em 1833, e joga no North Inch Golf Course; com o Royal Montrose Mercantile Golf Club, em Montrose, que joga nos arredores da sede; e com o Royal Epping Forest Golf, de Londres, que joga em Chingford.

O último a entrar para o grupo de clubes com título real foi o Royal Balmoral Golf Club, em Balmoral, na Escócia, que recebeu a honraria do Rei Charles III em 2025. 

Atento, caro golfista: se quiser colocar um selo Royal no score card, é importante dizer que o que não faltam são clubes que se apropriam da nobreza sem nem mesmo ter sangue real correndo nas veias. 

É o caso do Royal Links Golf Club, em Las Vegas, que usa o título sem ter coroa; o Royal Spring Golf, na Índia, que usa o nome por estar no mesmo terreno das nascentes naturais usadas por imperadores; e o Royal Tara Golf Club, na Irlanda, que simplesmente está perto de onde os reis uma vez viveram. Haja história!

9 ROYAL GOLF COURSES QUE VALEM A VISITA (OU O SONHO)

Royal County Down Golf Club: Championship

Newcastle, Irlanda do Norte
Fundado em 1889, título em 1908

Greens planos com terreno acidentado, pontos cegos e bunkers, é um campo para quem gosta de bons desafios com vistas impressionantes.

Royal Melbourne Golf Club: East

Blackrock, Austrália
Fundado em 1891, título em 1895

Terreno ondulado em região arenosa. Bunkers com mais de 30 centímetros de altura que invadem os fairways e greens. Um campo considerado um dos melhores do mundo.

Royal Birkdale Golf Club

Southport, Inglaterra
Fundado em 1889, título em 1951

Fairways planos e greens fáceis, com dunas de tirar o fôlego.

Royal Porthcawl Golf Club

Rest Bay, País de Gales
Fundado em 1891, título em 1909

Um campo à beira-mar, com nove buracos próximos à costa e nove buracos em campo elevado. Dificuldade extra dos ventos marítimos.

Royal Liverpool Golf Club

Royake, Inglaterra
Fundado em 1869, título em 1871

Em meio às dunas costeiras, com terreno plano. O buraco um é considerado um dos mais desafiadores do golfe em todo o mundo.

Royal Adelaide Golf Club

Seaton, Austrália
Fundado em 1892, título em 1923

Um dos mais antigos e importantes da Austrália, com fairways amplos e regulares para um jogo divertido e leve.

Old St. Andrews

St. Andrews, Escócia
Fundado em 1745, título em 1834

O Graal de todo golfista, considerado um dos melhores do mundo. O campo serviu como base de projeto para todos os outros campos no mundo e também é considerado um dos mais desafiadores (e agradáveis, justamente por isso).

Real Club de la Puerta de Hierro

Madri, Espanha
Fundado em 1895, título em 1912

Um dos clubes mais antigos da Espanha. Oferece 36 buracos com diferentes níveis de dificuldade, com alguns par 3 que ultrapassam 175 jardas.

Real Golf La Manga Club

Cartagena, Espanha
Fundado em 1972, título em 2017

Perfeito para as férias de verão, oferece três opções de campos no complexo, todos com 18 buracos. A temperatura do destino pode trazer um desafio extra às partidas.