Nasci em Jundiaí, a cerca de 50 minutos de São Paulo, em um dia tranquilo de setembro, contam meus pais. A tranquilidade daquele dia não é exceção no ritmo da cidade: linda, segura, com aquele ar bom de respirar e um clima bom de se viver. Só que, lá na minha adolescência, Jundiaí começou a ficar pequena para mim.
A tranquilidade começou a incomodar, as escapadas para São Paulo no trem metropolitano começaram a se tornar cada vez mais frequentes e o sonho de morar na “cidade grande” estava cada vez mais forte.
Talvez pelo que via na TV quando criança, talvez pelo que via pela janela do carro quando ia à praia com meus avós e passava pela Marginal Pinheiros: uma cidade realmente grande, com prédios a perder de vista e aquela sensação de que era ali, em São Paulo, que tudo acontecia.
A desculpa para a mudança veio com a faculdade e o trabalho. E quase como se o destino tivesse escrito, eu, sim, me mudei de cidade – mas não só para São Paulo. Eu ia morar no Copan, uma cidade dentro da cidade e um sonho especial para mim, que, na hora de escolher a profissão, fiquei na dúvida entre a comunicação e arquitetura.

A busca para achar o apartamento dos sonhos não foi tranquila: com cerca de 1.160 que existem no Copan, encontrar um lugar para chamar de meu nesse gigante não foi fácil. Mas eu consegui, e ele não era tão dos sonhos assim: uma kitnet de 23 m², com vista para os fundos, nada do brise lindão que todo mundo fala e espera. O piso frio estava todo rachado, o banheiro não tinha janela e a geladeira não cabia na cozinha, ficava do lado da cama.
Ali, descobri que o Copan tem um CEP próprio. Descobri também as rampas paralelas do bloco B, com seus corredores curvos cavernosos, a locadora do térreo, que funciona até hoje (acredite!), o superfaturado Bar da Dona Onça e a charmosa floricultura Existe Flor em SP.

Vivi amores e decepções, demissões e paixões. Conheci os porteiros, que viraram amigos, e os figurões do prédio – aqueles moradores com histórias incríveis, de Walério Araújo ao diretor Sergio Glasberg e Mika Lins, passando por outros tantos anônimos, de mágicos a atores de filmes adultos e acompanhantes.
Ouvi as histórias de assassinatos e de fantasmas, vi brigas conjugais e vi também a polícia baixar algumas vezes.

Descobri que o Copan, patrimônio cultural de São Paulo, tinha um time próprio de marceneiros, eletricistas e encanadores prontos para atender a quase todo e qualquer serviço dos moradores. Aprendi a duras penas que conseguir internet aqui é complicado por conta da alta demanda, e que os elevadores quebram semana sim, semana não – a sorte é que nunca faltou um deles entre os muitos disponíveis; eles decidem, por sorte, parar de funcionar de forma alternada e nunca me obrigaram a descer pela escada de emergência externa em caracol, uma prova de resistência para a vertigem.
Conheci também o síndico Affonso Prazeres – o “seu” Affonso –, que morreu em dezembro de 2025 e ficou mais de 30 anos no cargo. Ele era uma entidade e impunha respeito só de olhar. Ficava na administração, ali no mezanino, em uma sala cheia de maquetes e painéis dos elevadores originais, olhando tudo com olhos de águia pelos monitores das câmeras que ficam espalhadas pelos corredores e elevadores. Pegava o rádio e, na hora, mandava um recado para um dos mais de 100 funcionários exemplares que organizam o caos dessa cidade, caso visse algo que fugisse do comum (a maioria destes funcionários, inclusive, está aqui há anos e conhece os moradores pelo nome).
Mas seu Affonso não era ditador: sempre disponível, queria ajudar a fazer do Copan um lugar melhor e a manter vivo o legado desse prédio. Foi ele, inclusive, que tirou a fama de “treme-treme” e da bagunça que o prédio tinha lá nos anos 80 ou 90. Aumentou a segurança e cercou a rua que dá acesso ao térreo com portões, nunca fechados para visitantes, e onde, hoje, brincam soltos os cachorros do condomínio e as cervejas rolam nas cadeiras de praia aos fins de semana.
Depois de três anos vivendo naquela kitnet, decidi me mudar. De novo, aquilo ficou pequeno demais para mim, tal qual a cidade onde nasci. Fui para um apartamento maior, com pouco mais de 30 m² (uau!) no bloco F, onde vivo até hoje.
Ainda não tenho uma vaga na garagem subterrânea, como os moradores do bloco D, com seus apartamentos que passam dos 200 m², nem a vista para a parte da frente, com os brises. Mas tenho espaço para uma máquina de lavar, a geladeira fica na cozinha e consigo receber amigos para jantares – um deles, antes de mudar por um tempo para Londres, reuniu mais de 30 pessoas (quase uma por metro quadrado, não me pergunte como).

Agora, encontro novos rostos no elevador, como Paulo Vieira e Caio Blat. E é divertido, porque no Copan, ninguém parece ser famoso — famoso mesmo é o prédio, e você simplesmente faz parte da comunidade.
Hoje, o Copan volta aos holofotes. Muito por conta de toda uma revitalização que tem acontecido no Centro de São Paulo. O novo síndico, antes advogado do prédio, quer abrir museu, transformar o famoso terraço na cobertura (fechado para visitação há anos) em espaço para shows e festas, trazer cada vez mais as pessoas para perto com iniciativas culturais; trouxe um novo aplicativo para a gestão dos moradores e do condomínio, que antes era feita por e-mail, e, – polêmicas à parte – dizem que também quer monetizar a fachada com publicidade.
As polêmicas, inclusive, fazem parte de qualquer ecossistema de uma cidade como esta: os fantasmas geram interesse; os aluguéis de apartamentos para Airbnb causam a revolta entre os moradores nos grupos de Whatsapp. Têm também os ótimos restaurantes, como o mais novo Brisa, e os clássicos Copanzinho, para os boêmios, o Cuia, para um brunch gourmet, na livraria Megafauna, a Tem Umami, sorveteria hype no Instagram, e o histórico cinema, que está em reforma para reabertura.

Esse cotidiano, com seus altos e baixos, brigas de condomínio, vizinhos que causam tumulto – eu mesmo já passei por um deles, com um desequilibrado em épocas de eleição para presidente que, depois, foi expulso pelo mesmo seu Affonso – e o dia a dia são retratados no documentário Copan, da diretora Carine Wallauer – recém-lançado e que vai rodar as principais capitais do Brasil. Um olhar artístico para esse ecossistema vivo com, inclusive, passagens hilárias das reuniões de condomínio gravadas em tempos de pandemia.
Morar no Copan é viver no meio do caos, do agito. Mas ainda assim é um lugar para chamar de casa. Um lugar com aquele senso gostoso e real de comunidade, com pessoas prontas para estender a mão quando você precisa. É o meu lugar de reunir amigos, das festinhas intermináveis e dessas histórias boas de contar; quase já não ouço as britadeiras no Centro, a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ ou a Virada Cultural.

















