Por dentro da residência artística da Swatch em Xangai

Por dentro da residência artística da Swatch em Xangai

Criado em 2011, o Swatch Art Peace Hotel oferece refúgio criativo para artistas do mundo todo - incluindo uma representante ítalo-brasileira

Xangai — O Swatch Group, um dos maiores fabricantes de relógios do mundo, ocupa um edifício histórico em Xangai, no coração da cidade que hoje parece a mais pulsante do planeta. Por lá, a marca recebe artistas de diversas áreas e nacionalidades, que são convidados a desenvolver seus projetos com tranquilidade, infraestrutura e até luxo.

O Swatch Art Peace Hotel está naquele que é o maior cartão-postal de Xangai, mais precisamente na esquina da East Nanjing Road com o mundialmente famoso Bund, de frente para a paisagem futurista de Pudong. Inaugurado originalmente em 1906, esse ícone arquitetônico chinês sediou muitos eventos importantes ao longo dos primeiros 40 anos de sua existência, entre os quais a assinatura da Convenção do Ópio (primeiro tratado internacional destinado ao controle de drogas) e o noivado de Chiang Kai-shek. O casamento de Chiang Kai-shek com Soong Mei-ling foi um dos eventos políticos mais estratégicos da história da China, resultando na união do poder militar de Chiang ao prestígio financeiro e político da família Soong.

Quem explica a presença da marca suíça de relógios no edifício histórico é o próprio CEO do Swatch Art Peace Hotel, Carlo Giordanetti. “O Swatch Art Peace Hotel foi criado em 2011 como uma forma criativa de concretizar a longa relação entre a Swatch e as artes, em um mercado onde o valor imaterial dos bens ainda não era bem compreendido. Ao trazer artistas de todo o mundo para Xangai, permitindo que interajam com a cultura local, com a cena artística e dentro da comunidade que eles próprios criam, conseguimos associar a marca Swatch às artes em um outro nível – e demos ao luxo uma nova definição: a do tempo e espaço que concedemos aos artistas para se expressarem”, disse.

A ideia básica da residência é oferecer aos artistas um refúgio seguro e tranquilo, mas cercado pela energia vibrante da cidade. Dois andares do edifício são totalmente dedicados à residência artística. Eles abrigam 18 ateliês e apartamentos onde artistas de todo o mundo vivem e trabalham por períodos de três a seis meses. O terceiro andar inclui também áreas comuns, como uma cozinha comunitária, biblioteca e lounge. Os quartos são espaçosos, confortáveis e com toda a estrutura de uma hospedagem de alto padrão.

O quarto andar é reservado a suítes exclusivas para hóspedes. A diária das suítes standard sai por aproximadamente R$ 2.400 (cotação média de maio). Já as suítes de luxo podem ultrapassar o valor de R$ 30.700 por noite.

Os artistas

No início de maio, passei uma semana no hotel, acompanhando a rotina de artistas de diferentes áreas, culturas e nacionalidades. O dia da minha chegada foi marcado pela despedida de um dos residentes, o escritor americano Daniel Tam-Claiborne. De cara, vivenciei um dos pontos mais importantes de uma residência artística de longa duração: a criação de laços e a troca de experiências entre os participantes.

A despedida de Daniel foi emocionante, até para mim, que tinha acabado de chegar e mal havia me apresentado ao artista. “Toda vez que alguém parte, eu me sinto triste, não importa quanto tempo passamos juntos. Mas acho que isso é muito bonito: as coisas terminarem é uma outra forma de preparação para o próximo encontro”, disse a artista chinesa Xun Wang, especializada em pintura tradicional chinesa e escultura.

No momento da minha visita, a residência tinha uma representante ítalo-brasileira, a cenógrafa, figurinista e ilustradora Giorgia Massetani. Ela, que trabalha há 15 anos com ópera lírica no Brasil, conheceu o trabalho da Swatch durante uma visita à Bienal de Veneza, em 2019. “Ao caminhar pela Bienal, visitei uma área que era reservada aos residentes do hotel. Fiquei curiosa, achei interessante e fui atrás para entender o que era...”, disse.

Giorgia considera a participação em uma residência um momento importante na vida de qualquer artista. “Ter a oportunidade de se recolher, ter foco exclusivo no trabalho e criar conexões com outros artistas é um privilégio”, afirmou. Na residência, a artista desenvolveu ilustrações e figurinos sobre personagens do folclore brasileiro e uma instalação sobre as relações entre China e Brasil por meio de balões típicos de festas juninas.

Também conheci o ateliê da americana Dorothea Sandra, artista visual focada no impressionismo floral e na pintura abstrata. Segundo Dorothea, o período em Xangai já influenciou seu trabalho, resultando em uma série de quadros chamada The Flowers of Shanghai. “Tenho uma exibição online chegando com esse nome. As obras são inspiradas nas jardineiras da cidade. Elas estão por toda parte e fico muito impressionada com elas”, disse.

Outra artista residente com trabalho bastante consistente é a chinesa Zhang Zixuan, natural de Pequim. “Meu trabalho é sobre as pessoas e o toque humano. Pinto principalmente pessoas em movimento e as inter-relações entre elas. Geralmente, eu as pinto de costas, porque acho que é um ângulo visual ao qual prestamos pouca atenção. Normalmente focamos no rosto em vez da linguagem corporal. Eu acho que a linguagem corporal diz tudo”, disse.

O espanhol Adolfo Serra, ilustrador e professor de arte, contou que estar em Xangai e conhecer artistas locais foi um dos pontos altos da experiência. “É como se meu cérebro se expandisse, porque existem tantas formas, tantas histórias diferentes; a arte deles, o sentimento deles, a maneira de ver e de fazer as coisas. Acho que este é um bom lugar para compartilhar e crescer”.

Apesar de muitos artistas serem ligados às artes plásticas e visuais, a residência também é aberta a escritores, que mantêm uma rotina de trabalho um pouco diferente dos demais. A escritora britânica Susan Finlay contou que tenta escrever diariamente. “Tomo um café forte logo após o café da manhã e começo. Às vezes é entediante, e ainda tenho reuniões online com o Reino Unido que acontecem à meia-noite por causa do fuso horário. Em Londres, eu costumava escrever em cafés barulhentos após dar aulas, mas aqui em Xangai sinto meu cérebro mais fresco para criar”.

Na residência, Susan está escrevendo um livro sobre uma cineasta e roteirista chinesa que viveu em Xangai nos anos 1930. “Ela era muito corajosa e envolvida na política da comunidade, mas morreu antes do expurgo dos intelectuais. É interessante porque ela não é alguém que a história oficial destaca muito. O livro é uma produção anglo-chinesa sobre a vida em Xangai, misturando política com a visão ocidental daquela era”, disse.

No momento em que conversamos, no lobby do hotel, Susan disse ter um rascunho da obra e que definitivamente ainda estava no processo de escrita. “Eu escrevo muito, cerca de 100 mil palavras de rascunho, para depois encontrar a estrutura do livro. Se eu deixar Xangai agora, esqueço os detalhes, então preciso estar aqui para capturar as descrições dos lugares enquanto estão frescos na memória”, disse.

O ‘Traço’

De acordo com o CEO, Carlo Giordanetti, o projeto reflete a atitude da Swatch; por isso, a seleção de artistas é ampla, multifacetada e inclusiva. “Estamos interessados em talentos criativos que tragam um ponto de vista único, que tenham uma linguagem distinta, que transmitam uma energia positiva e uma atitude colaborativa. Temos recebido artistas de disciplinas, nacionalidades e gerações extremamente diversas. Estamos orgulhosos de facilitar o diálogo entre eles, testemunhando o nascimento de novos projetos interdisciplinares”, disse.

“Também continuamos o diálogo com alguns deles por meio de exposições e eventos. Os artistas são totalmente livres para se expressar da maneira que desejarem; a única coisa que exigimos deles é um ‘traço’ (trace) do seu período no Swatch Art Peace Hotel.”

Quando fala em trace, Giordanetti refere-se ao momento em que, ao final da estadia, cada artista deixa uma obra de arte que marca sua passagem pelo local. Esta peça, conhecida como um "traço", incorpora seu estilo, linguagem e visão criativa distintos. Geralmente escolhida pelo próprio artista, a obra serve como um testemunho de sua experiência na residência e passa a integrar o acervo de exposições e mostras desenvolvidas pela marca ao longo dos anos.

Como se inscrever

A inscrição para a residência artística do Swatch Art Peace Hotel em Xangai é feita exclusivamente online, por meio do site oficial do programa (www.swatch-art-peace-hotel.com/en/apply). A candidatura está aberta a artistas de diversas áreas — como artes visuais, música, literatura e dança — e as inscrições são aceitas em fluxo contínuo, o que significa que não existe um prazo final fixo.

Advertisement
Advertisement