Há uma década, o estilista pernambucano Gustavo Silvestre transformava radicalmente sua trajetória ao eleger o crochê como linguagem criativa. O marco dessa trajetória é a exposição Aracnalização, em cartaz na Galeria Carlos Penna, no centro de São Paulo, que reúne pesquisas e produções do designer até o dia 30 de maio.
O percurso profissional de Gustavo mudou em 2015, quando ele começou a dar aulas de crochê na penitenciária masculina II Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, dando início ao projeto Ponto Firme.
A mostra apresenta 17 trabalhos que transitam entre a moda e a arte, saindo do corpo para ocupar paredes e tetos da galeria. O acervo exibe desde os primeiros experimentos do estilista, com sacos de rede de náilon para acondicionar alimentos, até uma cadeira em upcycling revestida com a técnica manual. Itens de acervo se misturam com peças criadas especialmente para o espaço. “Aqui tem uma pesquisa grande, que passa pelo uso de materiais alternativos, como cabo de aço, fio de metal e fita metaloide, que tem uma relação forte com o maracatu”, diz Gustavo. Um móbile gigante é o resultado da colaboração com o designer de acessórios Carlos Penna.
Já com Vicenta Perrotta, Gustavo desenvolveu uma transmutação têxtil que mistura resíduos dos ateliês dos dois estilistas e joias crochetadas. Outro destaque da exposição é uma criação do desfile de alta-costura inverno 2025 em colaboração com o designer suíço Kevin Germanier. A peça é feita de uma ráfia especial elaborada pelo estilista junto com uma fábrica de plástico. Além das obras, Gustavo apresenta uma série de bijuterias em grande escala desenvolvidas em parceria com Carlos.
O nome da mostra parte do mito de Aracne, tecelã da mitologia grega transformada em aranha após desafiar os deuses com sua habilidade. A ideia de “aracnalizar”, segundo Gustavo, surge desse verbo que vira gesto ao criar tramas, cobrir superfícies, construir enredos e conexões através do fazer manual.
O estilista ocupa espaço importante no mercado de moda nacional pela construção autoral com o crochê, principalmente a criação do tecido que é base para o trabalho exuberante com paetês em tamanhos, formatos e materiais diversos vindos principalmente de reciclagem.
O estilista cresceu em uma família em que as mulheres crochetam. Como tradicionalmente essa foi uma atividade feminina, ele estava sempre por perto, mas apenas observando. Foi em um momento de crise com a moda feita na China dominando o mercado nacional que Gustavo se interessou pela técnica artesanal. “Pedi para a Chiara Gadaleta [stylist, consultora de moda e psicoterapeuta] me ensinar, ela disse que não tinha paciência, mas me levou numa aula na Novelaria e não parei mais.”
Ele comenta que o crochê revolucionou tudo que faz. “Se não começasse a doer a mão, a vista, o pescoço, as costas eu faria 24 horas por dia. Mas faço bastante ainda”, conta, explicando que possui um grupo fixo de 12 crocheteiros, e que a equipe cresce quando chega uma encomenda grande. Durante uma hora de papo, Gustavo repassou sua trajetória ao Page9.
PAGE9: No início dos anos 2000 você se mudou para São Paulo com o movimento gerado pela participação na Casa de Criadores. Como a cidade e a moda te receberam?
GUSTAVO SILVESTRE: Se ainda hoje é tudo centralizado aqui, imagina naquela época. Uma revista me procurava pedindo um look urgente e a roupa estava em Recife. Aos poucos fui entendendo que precisava me mudar para cá, mas eu senti logo de cara. Havia muito preconceito com nordestinos. E eu cheguei cheio de sotaque. Foram bem sofridos meus primeiros anos em São Paulo.
P9: O preconceito diminuiu?
GS: Vejo que as pessoas têm mais cuidado em colocar para fora pontos de vista preconceituosos. Naquela época não, era uma coisa comum e as pessoas falavam na cara. Eu tive que treinar o sotaque. Tive que tomar cuidado porque quando eu abria a boca, não pegava o trabalho. Acho que, agora, as pessoas estão preocupadas com a internet, em viralizar, serem expostas.
P9: Com a marca evoluindo você foi à China, em 2008. O que aconteceu lá que te levou a buscar caminhos mais sustentáveis?
GS: Nessa época, já estava todo mundo deixando de produzir no Brasil e indo para a China, preocupado em ter preço, produção. Eu já trabalhava com bordados, mas estava ficando inviável o preço da minha roupa aqui no Brasil. E eu havia recebido proposta de investimento na marca. Quando eu cheguei na China, vi que era uma loucura a escala. Cada fornecedor já perguntava a quantidade, tipo, um contêiner? Vi que não me encaixava nesse caminho, não é um modelo de negócio saudável, e lá eu vi também a história da cópia.
P9: Você então se aproxima da Chiara Gadaleta...
GS - Em 2009, Chiara estava fazendo as primeiras pesquisas e me convidou para viajar pelo Brasil para a gente entender os biomas e quais eram as tradições de artesanato. Visitamos polos de produtores em Minas Gerais, Alagoas, Pernambuco, Manaus, Belém. Essas viagens nos levaram ao EcoEra, que era um encontro para reunir pessoas como eu, que estavam perdidas sem saber o que fazer na indústria da moda, mas estavam fazendo alguma coisa sustentável. A Chiara fazia crochê nas viagens, enquanto a gente esperava transporte ou na estrada. Pedi para ela me ensinar, ela disse que não tinha paciência, mas me levou em uma aula na Novelaria e não parei mais. Então comecei a transferir tudo que eu fazia de moda, para o crochê.
P9: Qual a diferença entre seguir os processos tradicionais da moda e o crochê?
GS: Na moda tem corte, pilotagem, estampa, costura.... É preciso administrar muitas etapas e eu fazia tudo sozinho em um ateliê independente. Com o crochê eu conseguia dar conta de tudo. Foi essa independência que o crochê me trouxe. Eu conseguia criar, pensar, fazer modelagem, estampar e entregar a peça pronta para a minha cliente.
P9: Como na sua casa as mulheres sempre crochetaram, a técnica também é um retorno à sua infância e juventude?
GS: Quando fiz o primeiro mapa astral, bem no início dos anos 2000, o meu astrólogo falou que havia uma herança de mãe e perguntou se ela fazia alguma manualidade. Todas as mulheres da minha família, minhas avós, mãe e tias faziam crochê. Por ser coisa de mulher, nunca me ensinaram. Quando a Chiara me levou na aula e eu destravei, percebi que estava tudo na minha cabeça de tanto ver elas fazendo. E foi essa a minha herança manual. Comecei fazendo bijuterias com pedras brutas de cristal, depois fui adaptando para a moda. Fui me profissionalizando, entendendo, aplicando, pesquisando e misturando fios. A partir daí fui criando a minha linguagem. Ninguém fazia crochê como eu porque, por ser estilista, eu fazia o pano e trabalhava ele em moulage, bem diferente das modelagens clássicas de crochê, que são feitas com receita.
P9: Você acabou criando uma assinatura.
GS: Assinatura, individualidade e autonomia. Então, em 2015, veio a história de criar o projeto Ponto Firme, para dar aulas de crochê dentro da cadeia. Naquele ponto, eu já vivia do crochê. Seria um workshop com cinco encontros no máximo, mas quando eu cheguei na penitenciária os meninos estavam tão interessados...
Eu abri 11 vagas porque foi o número de kits de linhas e agulhas que eu consegui. Quando cheguei lá havia 11 alunos me esperando. Entendi que minha presença ali faria diferença. Depois das cinco aulas, os diretores perguntaram se eu não gostaria de continuar. E assim foi.
Em 2018, estávamos explorando tapeçaria sob o olhar do design, mas esses meninos já estavam fazendo roupas, mesmo sem eu direcionar. Então fui falar com Paulo Borges, que amou o projeto, e fizemos nosso primeiro desfile no SPFW, no mesmo ano. Ainda era um projeto social dentro da cadeia e por isso as peças não podiam ser vendidas.
P9: Como o Ponto Firme evoluiu para escola e ateliê?
GS: Dentro da cadeia estava tudo sob controle, os meninos estavam seguros do mundo do crime. A gente começou perceber que o problema era quando eles saíam. Na época eu tinha um ateliê coletivo na Casa do Povo. Era difícil, havia preconceito porque o pessoal não queria conviver com ex-detentos.
Entendi que eu precisava cuidar dessas pessoas que saíam e queriam trabalhar com crochê. Para isso precisava ter nosso espaço, com as nossas políticas, com a nossa pedagogia para fazer esse acolhimento. Então escrevemos um projeto para o Brazil Foundation, fomos contemplados e a partir daí conseguimos abrir a escola em 2021, que foi onde aconteceu o desfile no SPFW, com 80% da coleção produzida por alunos que tinham saído da prisão.
Eu fui fazer uma pós-graduação em artes manuais para a educação. O Ministério Público viu o projeto, fez uma parceria e começou a encaminhar pessoas em situação de vulnerabilidade que tinham afinidade com manualidades e roupas para os nossos cursos. Também convidava outros estilistas e marcas para ver o que estávamos fazendo e se queriam encomendar alguma coisa ou contratar as pessoas. E nada. Meu ateliê era pequeno, a gente estava fazendo poucas peças ainda, e não dava vazão para a quantidade de gente que estávamos formando.
P9: Foi quando você decidiu reconfigurar a marca?
GS: Peguei as rédeas disso. Havia meu lado estilista, a gente já desfilava, já tinha clientes influentes, já vestia gente muito famosa. Vi que precisava focar na minha marca para acolher essas pessoas. Mudei em dezembro de 2023 o nome da marca para Gustavo Silvestre, comecei a vender e abri um showroom, então passei a gerar trabalho e renda para as pessoas.
P9: Quando e como surgiu seu tecido exclusivo?
GS: O primeiro desfile no [Edifício] Copan foi um divisor de águas, também em 2023. Foi quando eu inventei o tecido que tem a base do crochê com os paetês de materiais variados. Até então, ninguém fazia algo parecido. A partir daí a gente começou a ter muita procura, clientes internacionais, lojas querendo comprar para revender. Hoje, o Ponto Firme virou nosso ateliê também. O crochê foi dando esse ritmo, me trazendo uma pesquisa riquíssima, o lado empresarial, o desenvolvimento de produto e as pessoas.
P9: Percebo que, coleção após coleção, o tecido que você criou amadurece tecnicamente e até mesmo em termos de materialidade.
GS: Totalmente. Cabe muita coisa no crochê. A gente consegue estampar, dar volume, tirar volume, deixar transparente, ficar completamente fechado, colocar a manga ou tirar a manga, usar como base... Por exemplo, agora a gente está fazendo com o corset de alta-costura, de Paris, que o Kevin [Germanier, estilista suíço que faz desfiles em Paris] usa.
Também estamos pegando resíduos de couro, cortando a laser e fazendo nosso próprio paetê, porque nesse meio do caminho, marcas começaram a nos copiar. Contratamos o melhor escritório de direitos autorais, mas na moda a regulamentação é muito vaga. Começamos a fazer notificações que geraram algum efeito, mas o que mais gerou efeito foi aquele vídeo que eu postei falando de cópias [em janeiro, em seu perfil no Instagram].
Era uma coisa sobre o meu trabalho que começou a reverberar; estamos falando de cópia até agora. Fiquei revoltado, triste, quase deprimi. Mas acredito que quem é verdadeiro sempre vai ter seu espaço.
P9: E como o seu trabalho foi parar em Paris?
GS: Quando o projeto estava estabelecido, a gente recebeu no ateliê o Dudu Bertholini [estilista, stylist e apresentador], que estava organizando a visita de um grupo de franceses. No meio estava o Kevin Germanier, que era o estilista revelação daquela temporada. Ele tinha feito um desfile impressionante com miçangas de lixo da China no museu Baccarat.
O Kevin viu que a gente estava fazendo praticamente a mesma coisa e sugeriu uma parceria. Quinze dias depois ele já estava me ligando para fazer uma collab. Fizemos quatro coleções na semana de moda de Paris e duas na semana de alta-costura. Paralelamente, a gente vem desfilando nossas coleções mais comerciais. Eu falo que é comercial porque no final das contas vende. Fazemos muitas noivas, além de resort e carnaval. E já vendo em alguns pontos fora do Brasil, como em Ibiza e Dubai.
P9: Você ficou emocionado de ver suas peças na alta-costura?
GS: Quase morri do coração. Eu não tenho verba, não tenho acesso. Eu fiz um curso de verão em Firenze em 1999 que abriu minha cabeça, mas sou autodidata porque nunca tive condição de pagar um curso de faculdade de moda. Tive que começar a trabalhar desde cedo para me manter.
P9: Na exposição, você sai do suporte do corpo para ocupar as paredes e o teto. Essas criações ficam entre moda e arte. Qual é a sua leitura dessa sinergia?
GS: Moda é moda, arte é arte. O que a gente faz na moda é utilizar dos elementos da arte. Mas eu amo quando essas fronteiras são borradas. Como o trabalho que fiz com a [artista] Sônia Gomes, em 2020, cujas obras são feitas a partir de roupas, de roupa de cama... [fizeram parte da terceira edição do projeto Masp Renner, entre 2021 e 2022]. São sensacionais porque não dá para saber se é moda ou se é arte. É um lugar que eu pesquiso e exercito muito. Então, para a exposição [Aracnalização] direcionei o que que não deu para ir para o corpo e foi para a parede, para o chão ou tem que ser pendurado.
P9: Qual a sua missão com o crochê?
GS: Mostrar essa amplitude de aplicações. A exposição mostra um pedacinho do que é infinito. Quando eu estava aprendendo crochê, a artista polonesa Agata Olek [famosa por suas intervenções urbanas em crochê] veio a São Paulo fazer um projeto no Sesc [Desobjetos: O Exercício do Olhar da Mostra Sesc de Artes, em 2012]. Ela ia cobrir um jacaré [escorregador revestido na forma de um jacaré colorido no Sesc Interlagos] e precisava de crocheteiros. Quando eu conheci essa gata, já foi uma bomba, porque ela estampava com crochê. Vi que era com essa turma que eu queria fugir com o circo, sabe?
P9: O que te faz levantar da cama todos os dias?
GS: Eu estava falando sobre isso com a minha terapeuta. Eu me faço com o meu trabalho. O crochê vai me tornando. Então eu acordo de manhã para eu me tornar cada vez mais: o primeiro estilista brasileiro que levou o crochê para a semana de moda de Paris e depois para a alta-costura, o primeiro a vestir celebridades com crochê, o primeiro a fazer roupa de metaloide. Vou me construindo com essas coisas que eu vou fazendo para ser é uma pessoa melhor, lidar com os meus monstros e as minhas sombras. O crochê ajuda muito, porque é uma introspecção. Em cada pontinho daquele você está se revendo, se fazendo, se organizando. É muito terapêutico.
Em cartaz até 30 de maio na Galeria Carlos Penna, em São Paulo.

















