Manosfera: afinal, o que significa ser homem?
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Comportamento

Manosfera: afinal, o que significa ser homem?

Aquele que mais grita sobre isso é quase sempre aquele que menos sabe responder à pergunta

A manosfera, essa rede de liturgias digitais devotada a restaurar uma virilidade anacrônica, prospera exatamente aí, nesse tipo de homem à deriva. Enquanto as mulheres reinventaram seus lugares no mundo, ele ficou paralisado, agarrado a um roteiro que não funciona mais. É para esse homem que o Stedelijk Museum, em Amsterdã, olha, a partir de abril, com a exposição Beyond the Manosphere – Masculinities Today. A mostra reúne 35 artistas, com obras dos anos 1960 até trabalhos inéditos, criados especialmente para a ocasião. O arco histórico é parte do argumento: a masculinidade como encenação não foi inventada por Andrew Tate, ela antecede em décadas a manosfera.

SoiL Thornton materializa a tensão em Husband Chair, uma cadeira inflável cujo nome evoca o tédio dos maridos à espera de suas mulheres durante as compras. Uma presença que obstrui o caminho, mas é oca. Zhana Ivanova desenvolve uma performance em que examina como o “ser homem” se sustenta numa coreografia de gestos e posturas, um script repetido para não ter que improvisar. Essas obras tocam na ferida que a manosfera prefere não nomear. Na psicanálise, o falo não é o órgão; é um emblema de poder total que nenhum homem jamais possuiu de fato. Essa ficção, antes sustentada pela exclusão das mulheres, pela promessa econômica e pela ilusão de uma ordem natural, agora desmorona. Quando a autonomia feminina, a precariedade do trabalho e o esvaziamento da família como instituição de poder corroem as bases dessa fantasia, a resposta é o ataque: se o trono sumiu, a culpa deve ser de quem ocupou a sala.

A mostra, porém, não para por aí. Jasmine Gregory expõe como a riqueza continua sendo enquadrada como privilégio branco e masculino. Reba Maybury subverte hierarquias numa releitura de Reclining Nude (1910), de Leo Gestel, devolvendo ao homem a sua vulnerabilidade. A masculinidade aparece como campo em disputa, atravessado por queerness, raça, classe e trabalho, em que dominância e fragilidade, fantasia e fracasso coexistem no mesmo corpo. O ódio à mulher, ou ao mundo, poupa o trabalho mais árido — olhar para dentro. A arte tem a ambiguidade que falta aos algoritmos: ela não divide o mundo em vítimas e algozes, não distribui culpa, não sentencia. Onde a manosfera fecha, ela abre. Para que a pergunta sobre o que significa ser homem surja não como um grito de guerra, mas como uma pergunta de verdade.

Beyond the Manosphere – Masculinities TodayStedelijk Museum, Amsterdã17 de abril a 2 de agosto de 2026.​​​​​​​​​​​​​​​

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Piti Vieira
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