Homens mais novos, mulheres mais velhas: a relação em ascensão

Homens mais novos, mulheres mais velhas: a relação em ascensão

A relação entre homens mais jovens e mulheres maduras levanta discussões sobre os fatores por trás dessa dinâmica

Relacionamentos amorosos com uma significativa diferença de idade sempre foram retratados em livros, filmes, novelas e séries. Na maioria, no entanto, é o valor da mulher que costuma ser questionado na dinâmica afetiva. Quando bem mais nova, o interesse financeiro pode ser apontado como o motivo da relação com um homem mais velho, enquanto, mais velha, se não é vista como uma iludida por um rapaz que quer ser sustentado por ela, é associada a termos pejorativos como cougar.

Antes mesmo do termo cougar se popularizar, a ideia da mulher mais velha e “predadora” já era retratada em filmes como The Graduate (1967), onde a personagem interpretada por Anne Bancroft, Mrs. Robinson, se apaixona por Benjamin Braddock, o jovem recém-formado vivido por Dustin Hoffman. Papel parecido foi desempenhado por American Pie —  franquia de quatro filmes que teve início em 1999 — , com a mãe de Stifler, vivida por Jennifer Coolidge, materializando a fantasia masculina da MILF, a mother I’d like to fuck

Apesar da dose de ficção que acompanha todo filme, a forma como esses relacionamentos são retratados nas telas reflete a maneira como são vistos pela sociedade. Se antes, cercados por tabu, apareciam de forma limitada e caricata, hoje começam a ganhar contornos mais complexos e realistas. 

Não por acaso, novas produções que exploram a dinâmica entre mulheres maduras e homens mais novos — especialmente os da Geração Z — têm se afastado dos estereótipos, ao mesmo tempo em que esse modelo de relação também vem se tornando mais comum fora da ficção. 

Filmes como a comédia romântica Uma Ideia de Você (2024) e Babygirl (2024) —  cuja dinâmica de poder profissional entre a CEO vivida por Nicole Kidman e o estagiário muito mais jovem de Harris Dickinson se inverte na relação sexual —  aparecem como exemplos de relações em que a mulher se afasta da figura de predadora ou cuidadora para ter uma relação amorosa/erótica com um rapaz gen-z, que ocupa o lugar de quem demonstra o interesse primeiro e toma a iniciativa. 

A discussão começou a ganhar forma em veículos internacionais, com muitos deles citando dados de aplicativos de relacionamentos como base para apontarem o surgimento desse novo cenário. Segundo informações do The Atlantic, em uma entrevista com mais de 25.000 usuários realizada em 2023, o aplicativo de namoro Bumble concluiu que os entrevistados se diziam cada vez mais abertos à conexão com pessoas com uma significativa diferença de idade, com 59% das mulheres entrevistadas dispostas a namorar alguém mais novo. 

Outro aplicativo de encontros, o Feeld, foi ainda mais específico. De acordo com uma notícia do New York Times, a plataforma registrou um crescimento significativo no interesse de homens mais jovens por mulheres mais velhas. Ao compartilhar um texto sobre a experiência no app, uma das usuárias, de 50 anos, chegou a destacar que cerca de 30% das curtidas em seu perfil vinham de usuários com menos de 35 anos. 

Os aplicativos de relacionamento brasileiros ainda não disponibilizaram nenhuma pesquisa que indique que a tendência também tem aparecido nos matches por aqui. No entanto, outros números indicam que pode ser questão de tempo: dados disponibilizados pelas Estatísticas do Registro Civil do IBGE revelam que, de 2003 a 2024, a proporção de casamentos em que a mulher é mais velha subiu de 12,8% para 16,6%, com uma diferença média de 7 anos entre os cônjuges.

Segundo a Profª. Drª. Célia Regina Rossi, do departamento de Psicologia e do Programa de Pós em Educação Sexual e Escolar da UNESP, a exclusão dos homens de discussões feministas pode fazer com que o interesse por mulheres mais velhas seja consequência da busca por uma escuta ativa e com abertura para as vulnerabilidades. “Muitos vêm de uma redoma machista. Quando acontece de se aproximarem de mulheres mais velhas e acabarem flertando, há um encantamento por se tratar de alguém com quem eles têm segurança de contar as fragilidades, e que também vai falar das suas. Há essa troca. O prazer começa na conversa, no abraço, no carinho… E talvez esse afeto que vem do diálogo seja encontrado nessa minha geração. São pessoas que já passaram por isso, têm uma vivência que as permite ter uma maior reflexão”, diz. 

O crescimento de correntes conservadoras, que colocam a figura masculina como a única provedora, também pode ser uma das consequências desse aumento do afastamento entre casais da mesma geração. “Uma menina que escuta da mãe e do pai que o homem tem que ser provedor fica à mercê disso por ainda estar se constituindo como mulher. A relação é uma parceria e não pode ser sempre pensada no status, na relação econômica. Talvez por isso que esses jovens acabam indo buscar mulheres mais velhas: no geral, elas não têm essa preocupação, e eles também estão buscando suas histórias”, diz Célia Regina.

Além da carreira acadêmica em Educação Sexual, na linha de subjetividade e sexualidade, Célia Regina também tem a própria experiência para compartilhar. Aos 66 anos, ela conta que a maioria de seus relacionamentos sempre foi com homens mais novos. O primeiro deles, com uma diferença de quase 11 anos, se tornou, inclusive, o pai de sua filha. “Terminamos a relação depois de cinco anos porque não estava saudável, independente da idade”, diz.

No outro relacionamento, com diferença de 13 anos, o fim também não se deu por conflitos geracionais, mas por mudanças causadas pelos caminhos da vida. “Terminamos porque ele foi trabalhar em outro estado. Mas eu aprendi muito com ele e ele comigo; foi uma relação de troca, muito afeto e amizade”, diz.

Para Célia, tanto como pesquisadora quanto como uma mulher que se permite viver afetos, o mais importante para quem está em busca de ser feliz em uma relação é não se importar com possíveis reações negativas do entorno. “Se eu estou apaixonada por alguém, não importa se é mais novo, mais velho ou se se veste mal. O parceiro não é um objeto, assim como eu também não. As mulheres têm autonomia para escolher e viver a vida delas por um mês, uma semana, anos. Com uma pessoa mais nova ou mais velha”. 

Em vez do foco estar concentrado no ano marcado na certidão de nascimento, ela considera que o mais importante para qualquer casal é entender o que é esperado dentro de uma relação. Só assim os dois conseguem encontrar o equilíbrio entre as diferenças e as afinidades, o que também é uma maneira de manter o vínculo e a sedução vivos. “Não é só na cama que se seduz. É quando você entende as diferenças, respeita; quando há diálogo e autonomia. Também é quando o homem entende o guia de feminismo das mulheres e quando elas também buscam compreender a fragilidade deles”, diz. 

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