A fundadora do hotel mais luxuoso de São Miguel dos Milagres

A fundadora do hotel mais luxuoso de São Miguel dos Milagres

Conheça a trajetória de Maria Gil, da tradição familiar no sertão ao comando do hotel mais concorrido para destination weddings

À beira-mar de São Miguel dos Milagres, pela qual se estende uma das maiores barreiras de corais do mundo e estão resguardadas praias quase desertas em Alagoas, um sofisticado empreendimento de hospitalidade virou objeto de desejo dos turistas. 

Um terreno de 40 mil m², com paisagismo exuberante, de espécies nativas, e suítes espaçosas integradas à natureza e distribuídas com privacidade, acolhe o Mahré, o hotel mais luxuoso da região, que também é um dos mais cobiçados destination wedding do Brasil. 

O projeto pé na areia, a poucos passos do mar – transparente, quente e calmo –, teve uma mãozinha glamourosa do arquiteto João Armentano, uma grife do mercado brasileiro, que assina a ambientação, com obras de artistas populares brasileiros, e os desenhos das suítes masters, cuja diária chega perto dos mil dólares. O combo de piscina e jardim privativos é comum a todas as suítes, igualmente rodeadas de um paisagismo com espécies tropicais e árvores frutíferas.

Para consolidar seu prestígio, o Mahré cercou-se de marcas fortes: elegeu enxoval Trousseau, amenities Bulgari e montou um restaurante que se tornou destino independente. 

Sob liderança do chef Rafa Gomes, com experiências internacionais relevantes — trabalhou nas cozinhas do Mirazur, na Riviera Francesa, e do Eleven Madison Park, em Nova York, ambos três-estrelas Michelin —, o cardápio tem identidade regional e traços autorais, com estética minimalista e moderna. Seus preparos são servidos no restaurante Tahí, com área interna e climatizada e uma varanda espaçosa, com vista para o jardim e, ao fundo, para o mar.

Outros espaços de convivência compõem o Mahré. Uma piscina com raia semiolímpica, às vezes embalada por música alta — uma quebra na calmaria da região —, quadra de tênis, academia 24 horas, e um rooftop com área aberta para o mar e vista do pôr do sol.

De certa forma, o Mahré é fruto do sucesso estrondoso da Haya, uma pousada rústica e elegante na mesma praia, primeira incursão de Maria Gil, uma das sócias, na hotelaria, cuja história familiar é típica dos interiores do Nordeste. 

Primos de segundo grau, seu pai e sua mãe se conheceram acidentalmente no enterro de uma tia em comum, numa cidadezinha do interior da Paraíba, de onde toda a família se originou.

Seu pai, com uns trinta e poucos anos, chegou a Pombal para o sepultamento em um carro conversível e causou frisson na antiga cidade sertaneja, fundada no período colonial. Sua mãe, à época com 15 anos, bela e inocente, rapidamente se rendeu aos seus encantos. No dia seguinte, ele foi à porta da casa do futuro sogro pedir sua mão em noivado. Em poucos meses, estavam casados e morando em Picos, no sertão do Piauí, onde foi prefeito três vezes.

Separaram-se alguns anos depois. Sua mãe volta com os filhos para a Paraíba — Maria Gil à época tinha nove anos. Mudam-se, mais tarde, para Juazeiro do Norte, no sertão do Ceará, um dos maiores polos de turismo religioso do Brasil, quando o avô materno adquire três concessionárias de veículos na cidade, ramo em que toda a família atuava e que lhes rendia bons dividendos.

O pai de Maria Gil deixou os estudos no ensino fundamental para dedicar-se ao trabalho e ajudar com o sustento da família — tinha 15 irmãos. Aos 12 anos já dirigia caminhão e trabalhava na roça. Ensinou a filha a dirigir aos 11 anos. Trabalhou em posto de gasolina, depois construiu o próprio posto; também foi dono de uma empresa que fornecia máquinas de obra para aluguel, e atendia com frequência o terceiro batalhão de construção do Exército. Com o dinheiro, comprou terras que à época não valiam nada, com as quais hoje faz bons negócios em função da demanda de área para a plantação de soja.

“Minha mãe nem precisou trocar de sobrenome, os sobrenomes dela e do meu pai já eram o mesmo. Minha avó também é prima do meu avô. Isso é muito comum nos interiores do Nordeste”, diz Maria. “As famílias são enormes, com muitos filhos e todo mundo é meio parente nessas cidades. Meus dois irmãos também se casaram com primas.”

Ela, porém, não seguiu a mesma sina. Foi numa praia do Rio Grande do Norte que conheceu Bruno, com quem se casou e foi morar em Maceió — partiu do Ceará para Alagoas. Em Juazeiro do Norte, onde sua mãe passou a tocar uma das concessionárias e se tornou uma mulher independente, Maria estudou administração a contragosto. Seu sonho era ser arquiteta. De certa forma, teve oportunidade de exercitar um pouco de seu impulso criativo ao erguer o Mahré.

Largou o trabalho na concessionária de veículos do avô em Juazeiro do Norte para se mudar, já casada, para Maceió. Experimentou trabalhar nos negócios do marido, uma grande construtora de edificação elétrica e um posto de gasolina.

Graças ao encontro com Mirian Vital, 65, de quem se tornou sócia numa empresa de locação de mobiliário para festas, Maria encontrou seu rumo, que viria a se desdobrar em outros negócios bem-sucedidos. “Temos três galpões enormes, que ocupam quarteirões de ponta a ponta em Maceió, cheios de móveis. Devemos ter mais de cinco mil cadeiras”, diz a empresária, que tem ainda caminhões para transporte e equipe de montagem.

Na pandemia, as sócias se refugiaram com as respectivas famílias em uma pousada em São Miguel dos Milagres, que, pouco depois, compraram, reformaram, repaginaram com os móveis mais bonitos da empresa de aluguel e a transformaram na Haya, um destino de charme, com elementos decorativos feitos à mão, a partir de matéria-prima reciclada.

“A gente tinha muita mesa bonita, cadeiras, poltronas. Usamos as madeiras da linha de trem para fazer as cabeceiras das camas com marceneiros locais. Foi tudo meio no improviso, mas ficou muito charmoso e único.”

Nessa região de Mata Atlântica em que convivem mangue, mar e um rio de águas avermelhadas, os bangalôs próximos ao mar são guarnecidos pelo restaurante Banami, cuja cozinha está sob comando de Wanderson Medeiros, um dos chefs mais badalados de Alagoas, sobretudo pelas noivas, atraídas pela famosa Capela dos Milagres.

Nenhuma lei, àquela época, proibia o funcionamento das pousadas, e a Haya passou lotada ao longo de toda a pandemia. “Foi um perrengue danado, a gente recebia elogios e críticas ao mesmo tempo, mas deu tudo certo.”

Foi o sucesso da Haya, que até hoje opera frequentemente com a lotação esgotada, que despertou o desejo de investir num novo hotel, no qual pudessem fazer todas as melhorias almejadas para construir um projeto de luxo, na mesma São Miguel dos Milagres. O nome do município, aliás, tem origem na devoção a São Miguel Arcanjo, santo protetor muito cultuado desde o período colonial.

Segundo a tradição local, pescadores e moradores atribuíram ao santo episódios de proteção no mar, curas e graças alcançadas, interpretados como milagres. São narrativas que vêm vencendo o tempo e ajudam a consolidar o prestígio da praia, associado à fé, à memória popular e à ideia de um território exuberante e ainda preservado.

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