
O nobre motivo que traz a primeira bailarina do The Royal Ballet ao Rio
A russa Natalia Osipova, uma das maiores estrelas da dança clássica mundial aterrissa no Rio para o Prix Osipova – Latin America, projeto que seleciona jovens brasileiros a concorrer vagas em companhias internacionais
Dois adjetivos costumam traduzir os melhores bailarinos: perfeição formal e controle rigoroso do gesto. A russa Natalia Osipova conseguiu avançar acrescentando sensação de urgência e emoção genuína aos personagens que interpreta. Seu solo comovente em Giselle é considerado forte ingrediente na sua trajetória ao posto de uma das maiores estrelas da dança clássica mundial. E é o segundo ato desse balé, o seu preferido, que ela leva para o palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro na gala que encerra a primeira edição latino-americana da premiação que leva seu nome.
O Prix Osipova – Latin America acontece nos dias 27 e 28 de abril e foi idealizado por Natalia, que é primeira bailarina do The Royal Ballet, em Londres, junto a Anna Koblova, amiga dos tempos de Bolshoi, na Rússia, atualmente professora do Conservatório Dança e Arte, instituição responsável pela realização do concurso, com apoio das secretarias estaduais de Esporte e Lazer e de Cultura e Economia Criativa do Rio.

“Acredito na importância de apoiar e inspirar a próxima geração de bailarinos. O objetivo é criar uma oportunidade real para jovens talentos. Também vejo muita aptidão e expressividade nos bailarinos brasileiros, o que despertou ainda mais o meu interesse em estar presente,” afirma Natalia em entrevista exclusiva ao Page 9.
Nicole Abramoff, diretora artística e uma das três sócias do CDA, conta que o projeto foi concebido para se consolidar ao longo dos anos e ampliar sua relevância no cenário internacional da dança. Os participantes concorrem a vagas em companhias e escolas internacionais, além de bolsas integrais, incluindo passagens e hospedagem para quatro finalistas. “A grande final acontecerá em Londres, no Royal Opera House, ainda sem data definida, e há planos de expansão para outras regiões, como Estados Unidos e Ásia, ampliando ainda mais o alcance do prêmio”, detalha.
As etapas de inscrição e pré-seleção dos bailarinos, entre 15 e 26 anos, começaram em março, em um processo de observação, orientação e seleção. No dia 28 de abril ocorre a cerimônia de premiação e a gala com o solo de Natalia. Ela dividirá o palco com convidados e bailarinas da Companhia Jovem CDA Para Todos, projeto social que atualmente reúne 29 bolsistas. A remontagem do espetáculo será feita por Anna, com coreografia de Marius Petipa e Coralli.
Encerrando a programação, no dia 29 de abril, Natalia Osipova, Jason Kittelberger e Anna Koblova vão ministrar masterclasses de balé clássico e dança contemporânea, mediante agendamento prévio e com vagas limitadas.

Russa radicada no Brasil, Anna conheceu Natalia ainda na adolescência, quando ambas dividiam o mesmo camarim de solistas no Theatro Bolshoi. “Cheguei no teatro três anos antes dela. Tínhamos grades de treinamentos diferentes, mas conversávamos nos intervalos. Em 2015, vim para o Brasil e Natalia foi para Londres. Passávamos horas ao telefone à noite falando de nossas experiências com costumes e línguas diferentes”, recorda. Anna foi professora no Bolshoi de Joinville por nove anos antes de se mudar para o Rio.
Pela primeira vez no país, Natália conta que suas expectativas são altas, sobretudo porque sempre ouviu falar da energia e do entusiasmo do público brasileiro. “Acredito que será uma experiência especial, não apenas no palco, mas também pelo contato com os bailarinos e com a cultura local”, diz. Mesmo com pouco tempo de estadia no Rio, afirma que, além do Theatro Municipal, pretende conhecer as belezas naturais da cidade e vivenciar um pouco do cotidiano local. A seguir, confira trechos da entrevista com a bailarina:

Você vai interpretar no Rio seu icônico solo em Giselle, na remontagem de Anna Koblova. Isso traz novas nuances à sua interpretação?
Natalia Osipova: Giselle é um dos papéis mais marcantes da minha carreira, e tive a liberdade de escolhê-lo para esta apresentação no Brasil. É um papel que evolui comigo ao longo da vida, nunca é fixo. Cada apresentação traz novas nuances e emoções, guiadas pelo momento, pela minha própria maturidade artística e pela troca com os bailarinos e o público.
Por que a escolha do Ato II para a apresentação no Brasil?
O segundo ato de Giselle representa, para mim, a essência mais profunda do balé clássico. Existe ali uma atmosfera quase etérea, onde técnica e emoção precisam caminhar juntas de forma precisa. É também o momento em que a personagem atinge uma dimensão mais espiritual e intangível, o que torna esse ato especialmente forte em cena. Além disso, exige grande controle e elevação, qualidades que sempre fizeram parte da minha identidade como bailarina, especialmente no trabalho de saltos, e que, junto à entrega artística, encontram nesse momento do balé uma forma muito particular de expressão.
Entre todos os papéis, Giselle é o mais associado ao seu nome. Como você consegue interpretá-lo sempre com frescor?
Cada vez que volto a Giselle, sinto como se estivesse redescobrindo o papel, e é isso que mantém a interpretação viva. Eu nunca tento reproduzir uma performance anterior. Para mim, cada apresentação é um momento único. Eu adoro Julieta e Kitri, de Dom Quixote, mas Giselle tem um lugar especial para mim. A emoção vem da verdade daquele instante, da minha conexão com a personagem, com a música e com tudo o que está acontecendo em cena. É essa entrega que mantém Giselle sempre viva e diferente a cada vez.
Hoje, seu nome também representa uma referência na formação de novos artistas. Como tem sido essa experiência?
É uma experiência muito significativa para mim. Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de aprender com grandes mestres, e sinto que compartilhar esse conhecimento é uma forma de dar continuidade a essa tradição. Mais do que ensinar técnica, procuro incentivar os jovens bailarinos a desenvolverem sua própria identidade artística, algo que considero essencial para uma carreira verdadeira e duradoura.
Seu estilo é marcado por grande virtuosismo atlético. Como é sua rotina atual de preparação física e cuidados com o corpo?
Minha base continua sendo a aula diária de balé, que é essencial para manter a técnica. Além disso, incorporo outras práticas como dança contemporânea, pilates e yoga, que me ajudam a desenvolver força, consciência corporal e equilíbrio. Com o tempo, aprendi que o cuidado com o corpo vai além do treino, envolve também recuperação, descanso e escuta. E, sempre que possível, nas férias, gosto de fazer atividades diferentes, até surfar, como forma de renovar a energia e o corpo.
Que conselho você daria a jovens bailarinas que desejam se destacar?
Disciplina é fundamental, e precisa vir acompanhada de curiosidade, coragem e, acima de tudo, autenticidade. A técnica constrói a base, mas o que realmente diferencia um artista é a sua capacidade de transmitir algo verdadeiro. Não tenham medo de serem diferentes, é isso que faz com que o público se conecte de forma real.


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