No éden selvagem da Bahia
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No éden selvagem da Bahia

Entre trilhas extensas, vinhos improváveis e dias sem sinal, a Chapada Diamantina é uma imersão em um Brasil que entrega beleza em estado bruto

A cada dez palavras que o Ney, meu guia na Chapada Diamantina, dizia, eu entendia uma, com sorte duas. O sotaque, as gírias e um tom de voz particular demandavam toda minha concentração. Ney é mucugeense e me guiou pelo Vale do Pati na Páscoa. Foi com ele e duas de suas amigas, assistentes sociais da área, que fiz uma trilha de 22km. Pensa em um lugar bonito, daqueles que dão até raiva na hora de fotografar porque é impossível registrar a beleza real. Fiz várias fotos tentando capturar a imensidão daquele vale repleto de cachoeiras e mirantes de tirar o fôlego, mas nenhuma reflete o que vi. 

Há tempos que a Chapada Diamantina pulula no meu imaginário; as histórias de suas quedas-d'água e trilhas, de sua natureza titânica, me enfeitiçavam. Recentemente, me apresentaram um vinho delicioso e, quando fui ver o rótulo, descobri que era feito na Diamantina. Entendi que já tinha passado a hora de conhecer aquele éden brasileiro. 

Aproveitei que agora tem um voo semanal saindo de Salvador para Lençóis — a outra opção é ir de carro de Vitória da Conquista, uma viagem longa — e fui. Consegui separar 4 dias para essa primeira ida; nem perto de ser o bastante para desbravar todas as maravilhas do parque — são 152 mil hectares, distribuídos por 5 municípios — mas suficientes para ter um gostinho e querer voltar sempre. 

O encanto começou logo no aeroporto: uma pequena casa onde não existe sinal de telefone. Aliás, celular na Chapada é só com WiFi, em poucos lugares. Amém! 

Dirigi 120 quilômetros de Lençóis até Mucugê, que seria minha base para os próximos dias. Me hospedei em uma pousada ótima, a Refúgio na Serra, com direito a “cardápio de travesseiros”, e café da manhã com delícias produzidas na casa: pães, geleias, iogurte… Com pouquíssimos quartos, e restrita para adultos, é o pouso perfeito para quem quer relaxar. 

No primeiro dia, acordamos cedo e dirigimos mais algumas horas entre terra e asfalto para conhecer a Cachoeira do Buracão. São 3 quilômetros de caminhada até chegar embaixo da queda de 85 metros com suas águas avermelhadas. Lá, o ar chega a faltar diante da magnitude do paredão. 

Na volta, pulamos as famosas coxinhas de jaca de Ibicoara para chegar a tempo na vinícola UVVA. Fomos ao restaurante Arenito, que abre apenas para almoço, em dois horários. Uma dica: não vá direto de uma trilha — estavam todos arrumadíssimos, e nós cheias de terra, molhadas do mergulho na cachoeira.

As instalações da UVVA são inacreditáveis, difícil crer que fica no meio da Caatinga brasileira. Se tivessem dito que eu estava na Califórnia, no vinhedo de um bilionário de Vale do Silício, eu teria acreditado. Mas é justamente por conta desse cenário que as uvas funcionam ali – a Serra do Sincorá, que circunda a vinícola, protege os vinhedos da umidade excessiva e cria um microclima único a 1.150 metros acima do nível do mar. Para quem tem interesse em conhecer melhor a produção, eles oferecem diferentes tours da vinícola.

O projeto é da família Borré, gaúchos que estão há 40 anos na região, donos da Fazenda Progresso, uma das maiores produtoras de batata e café da área. São eles os proprietários da pousada em que me hospedei, além de outros empreendimentos na Chapada. Em sua vinícola ultramoderna, com investimento multimilionário, produzem vinhos brancos – Sauvignon Blanc, Viognier, Chardonnay, tintos – Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Petit Verdot e blends, e espumantes. Para o meu gosto, muitos deles ótimos! 

Ao longo dos dias, reparei que não só as uvas crescem felizes naquelas bandas. Descobri plantações de frutas especiais — comi divinas framboesas, amoras e mirtilos, direto do pé de um sítio familiar — e um meliponário que produz diversas variedades de mel e outros produtos de abelhas sem ferrão. Os chocolates da Adamas também fazem sucesso, junto com os produtos naturais da Essências da Chapada. Boas lembranças para levar para casa. 

Visitamos também Igatu, uma vila ainda menor e mais bucólica. Tombada pelo IPHAN, é conhecida como Machu Picchu Baiana, por conta de suas ruínas de pedra da época da mineração de diamantes. Puro charme. 

Fui embora triste de deixar aquele paraíso mágico, esquecido no tempo, mas não sem antes tomar um último banho de cachoeira — é inacreditável que a estonteante Mosquito fica há vinte quilômetros do aeroporto, e acenar para o Morro do Pai Inácio, o cartão postal da área. 

Depois desses dias na Chapada, passei a entender melhor o Ney. O que ele diz vem da pureza de quem mora em Mucugê, da bondade de quem caminha todo dia, sem celular, pelo vale encantado do Pati. Para entender, só estando em outra frequência mesmo. 

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