Herança e memória na CasaCor São Paulo 2026

Herança e memória na CasaCor São Paulo 2026

Com o tema Mente e Coração, a edição mostra que quanto mais fundo mergulhamos em nossas próprias histórias, mais tocamos algo em comum a todos nós

A CasaCor São Paulo acontece novamente no Parque da Água Branca, uma das localizações mais bucólicas da cidade.

Entre árvores centenárias e construções históricas, o espaço dialoga naturalmente com o tema desta edição, Mente e Coração. Para mim, porém, a visita começou antes mesmo de atravessar os portões. Ao passar pelas ruas Bartira e Germaine Burchard, lembrei que foi ali que meus avós e bisavós viveram quando chegaram a São Paulo. Antes de entrar na mostra, eu já estava pensando em memória, pertencimento e herança.

Há uma frase atribuída a Tolstói que me acompanhou durante toda a visita: "Pinte sua aldeia e serás universal." Quanto mais fundo mergulhamos em nossas próprias histórias, mais tocamos algo comum a todos nós. E foi justamente isso que mais me marcou nesta edição. Não os ambientes que tentavam representar grandes conceitos abstratos, mas os que partiam de histórias íntimas. A herança familiar é tratada de forma sutil, não literal nem caricata. Uma leitura sensível que trouxe o passado ao presente sem congelar nada, e que usou a madeira e a excelência do artesanal como reafirmação de identidade.

Passo a vida acompanhando o que acontece quando alguém decide que uma história não pode se perder. Já vi esse movimento em famílias, em institutos, e fundações na proteção do legado design brasileiro como patrimônio cultural. E aprendi que a diferença entre preservar e engessar é sutil: uma peça, uma técnica, uma memória só sobrevive de verdade quando volta a se relacionar com a vida. Ver esse mesmo entendimento em espaços criados por arquitetos a partir de histórias pessoais foi uma das experiências mais gratificantes desta edição. 

A arte é sempre onipresente nas mostras da CasaCor, de formas muito diversas. Mais do que a seleção das obras que compõem os ambientes, o que me cativou foi o processo de trazer uma obra ou um artista específico como ponto de partida para todo o projeto. E aqui, de novo, as referências não são diretas e o resultado não é literal. A obra traz uma bússola, um norte, a emoção que aquele artista evoca no arquiteto.

O ambiente de Nildo José tem como ponto de partida uma tela do Dalton de Paula, artista que admiro profundamente. A composição cromática particular dele, o berinjela, o celadon, trouxe frescor e contemporaneidade para o celeiro da fazenda do pai reinterpretado pelo arquiteto. A lareira de travertino esculpida a mão, marcada com pássaros, ferros de gado e símbolos da fazenda, completa um arquivo afetivo que não pesa. O que me tocou foi exatamente isso: a leveza com que Nildo carregou algo tão íntimo.

Espaço de Nildo José, inspirado em uma tela do artista Dalton de Paula

No espaço de Gabriel Fernandes, a homenageada é Janete Costa, arquiteta e designer de interiores pernambucana nascida em 1932, uma das figuras centrais no design de interiores no Brasil. Ao longo de mais de três mil projetos, Janete foi pioneira na valorização da arte popular como elemento legítimo de linguagem arquitetônica, em um momento em que o Nordeste raramente era reconhecido nesse sentido. 

Espaço de Gabriel Fernandes em homenagem a Janete Costa

A forma como Gabriel traduziu os valores de Janete sem cair em homenagem literal me impressionou. Ele não decorou o espaço com referências dela: ele pesquisou como ela pesquisava, com o mesmo rigor, a mesma curiosidade, a mesma reverência pelo fazer manual. As volutas entalhadas por Nelinho, artista ligado à tradição barroca de Tiradentes, nos nichos da estante, são exatamente o tipo de escolha que Janete faria. Senti que ela estava presente sem que ninguém precisasse colocá-la lá. 

Espaço de Gabriel Fernandes em homenagem a Janete Costa

Felipe Carolo celebrou os 100 anos do avô Jacob com um projeto mais íntimo. Móveis herdados entram em diálogo com seu olhar contemporâneo: o piso de tacos em espinha de peixe, a cômoda com espelho tripartido que veio da casa dos avós, a luz pela janela arqueada. Foi um dos espaços que mais me fez pensar sobre o que fazemos quando guardamos alguma coisa de quem amamos.

Espaço de Felipe Carolo que homenageia seu avô

Há também um espaço que olha em outra direção. A Arena do Conhecimento, criada pelo Estúdio Guto Requena em parceria com alunos do Senac-SP, não fala de herança recebida, mas de herança que está sendo construída. Um ambiente com paredes revestidas de painéis de plástico reciclado, produzidos com uma cooperativa, e um sofá circular vermelho que abraça o ambiente inteiro como um convite ao encontro. Parabéns, CasaCor, pela abertura. Parabéns, Senac e Guto, pela trajetória. Ver jovens aprendendo o ofício e colocando as mãos na massa me lembrou que preservar o passado e formar o futuro são, no fundo, o mesmo movimento. 

A Arena do Conhecimento, criada pelo Estúdio Guto Requena em parceria com alunos do Senac-SP

E então cheguei ao espaço idealizado por João Panaggio: Ode à Marcenaria Brasileira: uma homenagem a Etel Carmona. Importante dizer que não sou uma observadora isenta aqui. Etel Carmona é minha mãe, e foi ela quem fundou a ETEL em 1985 com a convicção de que a madeira brasileira é uma joia da floresta, e que o artesão que a transforma carrega um saber irrepetível.

O espaço começa com uma dendroteca, uma biblioteca de madeiras, ao lado de ferramentas e pequenos objetos pessoais dela. Depois, a linha cronológica: Joaquim Tenreiro, Zanine Caldas, Branco & Preto, Percival Lafer, Lina Bo Bardi, a própria Etel. Mais de cem anos do design brasileiro dispostos com o silêncio de quem compreende o peso do que está mostrando.

Espaço idealizado por João Panaggio em homenagem a Etel Carmona

Saí da mostra pensando que esse mesmo movimento estava em toda parte. Poucos dias antes, tinha assistido ao desfile da Mondepars, onde a diretora criativa Sasha Meneghel trouxe a avó Alda como inspiração e o uso pontual da madeira como referência declarada ao design modernista brasileiro, sobretudo Zalszupin. 

Sasha me contou que a Mesa Pétala foi uma das inspirações para as primeiras coleções. Moda e design, de novo, com caminhos que se cruzam. Não é por acaso. É o espírito do tempo: uma geração inteira descobrindo que o material mais verdadeiro com que pode trabalhar está na história de quem veio antes. "Pinte sua aldeia." O que vi foi exatamente isso.

Espaço idealizado por João Panaggio em homenagem a Etel Carmona

Recomendação de leitura

A Casa: Pequena História de uma Ideia, de Witold Rybczynski. O arquiteto e teórico polonês-canadense reconstrói a história de ideias como conforto, intimidade e privacidade para mostrar que a casa não é apenas arquitetura, mas invenção cultural. Uma leitura que dialoga com o que a CasaCor 2026 propôs: pensar o lar como construção emocional e simbólica, não apenas espacial.

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