
Sou casada há 15 anos. Meu marido disse que me ama, não quer se separar, mas está interessado em homens. Como navego nessa relação?
O psiquiatra Dr. Filipe Batista responde dúvidas do cotidiano
Vamos começar pelo que você não perguntou.
Você não perguntou se quer continuar casada. Perguntou como navegar. Mas, antes de se preocupar com o balanço do mar, vale o questionamento: para onde você pretende ir?
Existe uma parábola antiga sobre a Verdade e a Mentira. Elas se encontram em um poço; a Mentira convence a Verdade a se despir para nadar, a Mentira rouba suas roupas e foge vestida com elas. A Verdade, recusando-se a usar o que não é seu, sai do poço nua. E as pessoas fogem dela — porque a verdade sem disfarces é, para a maioria, insuportável.
Você está diante de uma verdade assim. O problema de enxergar é que, depois, é impossível “desver”.
Ele diz que a ama e não quer a separação. É uma frase bonita, mas o que ela esconde? Ele propõe um novo contrato ou apenas comunica um fato consumado, esperando que você se adapte ao desejo dele? Quinze anos de história pesam, eu sei. Mas, às vezes, o tempo não é apenas um alicerce; é uma âncora que nos mantém presos a um navio que já mudou de rota.
Precisamos falar sobre o seu lugar nessa conta.
Não se trata apenas de haver outros. Trata-se de quem são esses outros e o que isso diz sobre o lugar que você ocupa no desejo dele. É o golpe mais duro no narcisismo: descobrir que o que ele busca é algo que você, por natureza, jamais poderá ser.
Há um luto particular aqui. Você não chora apenas o fim de uma exclusividade, mas o fim da versão de casamento que você acreditava habitar. Amamos sempre, em alguma medida, a imagem que projetamos no outro. O que acontece com essa imagem agora que o espelho se estilhaçou? O que sobra de você quando o reflexo que ele lhe devolvia não é mais o mesmo?
Ao revelar o próprio desejo, ele fez um convite. Mas o convite dele é para a vida dele. E a sua?
Às vezes, a revelação do outro serve apenas como o empurrão que nos faltava para olharmos para nossas próprias verdades incômodas. O fato de você ter escrito já é, à sua maneira, o início de um desembarque.
Não há saída limpa. Toda escolha é uma renúncia sangrenta. Mas há escolhas que, embora dolorosas, nos devolvem a nós mesmos.
A verdade, uma vez nua, não volta a se vestir. Ela agora habita a casa, senta-se à mesa e exige um lugar que não lhe foi dado. O “como navegar” que você buscou talvez seja, no fundo, um pedido de autorização para não ter que escolher. Mas a verdade é implacável: ela nos devolve a uma solidão onde ninguém pode decidir por nós. O que você fará com essa visita incômoda que não pretende ir embora?


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Filipe Batista



