Michael além das excentricidades

Michael além das excentricidades

Cinebiografia do popstar americano omite fatos importantes em sua carreira — e que fazemos questão de contar aqui

Quando Michael Joseph Jackson retornou ao seu planeta de origem (porque, convenhamos, ele não era deste mundo), no dia 25 de junho de 2009, o cantor não passava pelo que poderíamos chamar de um bom momento. Atolado em dívidas que, estima-se, chegavam aos US$ 500 milhões, o maior popstar do século XX iria se embrenhar em uma maratona de 50 concertos na O2 Arena, em Londres, a fim de fazer caixa. A turnê Is This It, claro, também serviria para reafirmar seu nome no panteão dos maiores artistas do entretenimento.

Michael também era assombrado pelos abutres dos tabloides americanos, que zombavam de sua aparência e de seu comportamento pouco ortodoxo — como, por exemplo, mostrar seu filho Blanket para os fãs do alto do Hotel Adler, em Berlim, no qual o bebê corria o risco de cair. O afeto exagerado do popstar por adolescentes, que incluía até dar guarida para os rapazes em Neverland, o rancho de sua propriedade localizado em Los Olivos, na Califórnia, rendeu um quinhão de aborrecimentos e acusações de abuso sexual. O cantor chegou a ir a julgamento e no dia 13 de junho de 2005 foi absolvido de todas as acusações, embora sempre pairassem dúvidas sobre sua inocência.

Se existe um mérito em Michael (Estados Unidos, 2026), cinebiografia fantasiosa do rebento mais talentoso da família Jackson, é mostrar que sua importância vai muito além de gerar dividendos para os jornais, sites e canais de televisão que alardeavam suas excentricidades. Michael Jackson é um dos personagens mais importantes do showbiz do século. Sua influência vai muito além da música (ah, sim, ele criou o álbum mais bem-sucedido de todos os tempos, Thriller, que contabiliza cerca de 70 milhões de cópias vendidas), mas eliminou a divisão entre a parada afro-americana e branca que grassava nos Estados Unidos. Elaborou coreografias de palco que posteriormente foram assimiladas por outros nomes da soul music e do hip-hop. Os seus videoclipes foram além da fórmula “músico finge que canta e toca num cenário exótico,” tão comum no período: tinham um storytelling; uma trama que era desenvolvida em colaboração com o que estava sendo cantado. Por fim, quem nunca se encantou com aquela luvinha prateada na mão esquerda, que Michael usou em algumas de suas aparições especiais, que levante a mão (direita, claro, porque a outra está ocupada com a luva!).

O Jackson 5, grupo que nasceu da obsessão de Joseph “Joe” Jackson, patriarca da família (e cujo talento foi moldado às custas de abuso moral e surras de cinta) foi contratado pela Motown, principal gravadora de música negra dos Estados Unidos, em 1968. A companhia burilou seus talentos com aulas de canto, dança e o melhor time de compositores que tinha à disposição. Michael, no entanto, sempre se destacou. “Ele era uma alma velha,” declarou certa vez Smokey Robinson, um dos maiores nomes da gravadora, referindo-se ao fato do astro de Thriller ser mais experiente e inquieto do que sua idade revelava. Tanto que, desgostoso com os royalties abaixo da média dos outros contratados da companhia e da pouca liberdade criativa, iniciou uma rebelião para que o grupo — rebatizado como The Jacksons — saísse das asas de Berry Gordy, “capo” da Motown e fosse para a CBS.

A escolha pela mesma gravadora de Janis Joplin, Santana e Bruce Springsteen não foi por acaso. A CBS tinha em suas fileiras Kenneth Gamble & Leon Huff, dupla responsável pelo chamado “som da Filadélfia” (uma batida pré-disco music), que permeou os discos iniciais da companhia. Mas Michael sempre esteve no comando. Foi ele, por exemplo, quem chamou o percussionista Paulinho da Costa para tocar nos discos do grupo que tinha com seus irmãos. Foi ele também que estreitou os laços com Quincy Jones que trabalhou na trilha sonora de O Mágico Inesquecível e comandou a tríade Off the Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987). Foi a união perfeita de sensibilidade e talentos na ponta dos cascos com uma visão musical mais elaborada — Jones veio do universo do jazz — e a capacidade de chamar os melhores músicos que ele tinha disponíveis. Foi o que ele fez. Off the Wall e Thriller tinham a guitarra e o baixo dos Brothers Johnson e canção do hitmaker Rod Temperton, Thriller contou com o grupo de estúdio Toto, vocal do ex-Beatle Paul McCartney e guitarra solo de Eddie Van Halen. Quando a parceria com o produtor esfriou, Michael correu atrás da dupla Jimmy Jam e Terry Lewis (que, ora vejam só, trabalharam com Prince e depois com Janet Jackson). Dangerous, de 1991, talvez seja seu último trabalho de real impacto no universo musical.

O sucesso de Michael borrou para sempre a linha que separava o universo do rock, consumido pela plateia branca, do universo da música afro-americana, representada pela soul music, pelo funk e pela disco. Nos três trabalhos ao lado de Quincy, o cantor talhou as linhas de baixo e bateria na medida para as pistas de dança; mas associou-as à vibração do rock’n’roll. Até mesmo as origens de um fenômeno social notável entre os jovens americanos, o dos adolescentes brancos que querem falar, dançar e agir como negros, podem ser traçadas diretamente à sua influência.

Michael Jackson se alastrou por diversos estilos e gerações. Você gosta de hip-hop? Pois o new jack swing — uma combinação de batidas eletrônicas de bateria com vocais adocicados — que Michael trouxe em Dangerous foi assimilado por vários intérpretes e versejadores de hoje. Uma dessas pessoas foi Mary J. Blige, rainha do hip-hop soul, que disse que era tão fã de Michael que ensaiava as coreografias dele na frente do espelho. No universo do rap, Jay-Z e Kendrick Lamar criaram canções a partir dos samples de Michael — o primeiro em Izzo (Hova) e Lamar fez uma interpolação em King Kunta

Todo popstar americano da atualidade tem um pouco de Michael Jackson. Alguns por conta da extravagância — caso de Lady Gaga. Outros preferiram o estilo vocal — Justin Timberlake, Bruno Mars, Beyoncé, The Weeknd… a fila é enorme. E se o seu caso é K-pop, então… Os grupos do gênero são useiros e vezeiros na apropriação de coreografias do cantor e, também, muitas vezes em covers. Recentemente, Hongjoong, do ATEEZ, fez uma bela versão de Beat It e Black and White, e Tae Yang coverizou — com direito a coreografia e tudo — Smooth Criminal.

Michael, o filme, tem sido achincalhado pela crítica (nacional e internacional, diga-se) por causa de sua pouca profundidade, omissão de fatos históricos e pelo fato de que personagens importantes em sua biografia serem relegados ao segundo, terceiro e quarto plano. O executivo Berry Gordy Jr. e o produtor Quincy Jones, por exemplo, aparecem menos tempo do que John Branca, empresário do cantor (que, aliás, é um dos produtores do filme. Mas deve ser só coincidência). Porém, há momentos musicais maravilhosos, todos relacionados ao mega-sucesso Thriller. São os que o cantor se une com gangues para ensaiar a coreografia de Beat It ou quando pede para que o cineasta John Landis, que dirigiu o clipe de Thriller, foque mais a câmera nos pés de Michael e sua trupe no lugar de fazer closes do rosto dele.

O E.T. Michael voltou ao seu planeta de origem. Mas os astros que foram abduzidos por sua música e comportamento até hoje carregam seu legado.

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