
Você sobreviveria a uma festa sem celular?
Em pistas, festivais e bares ao redor do mundo, o radicalismo phone free surge como resposta ao cansaço digital
Celular? Melhor não tê-lo. Mas, se não o temos, como saber? Começo este texto parafraseando uma sentença de Vinicius de Moraes porque, decididamente, smartphone é a praga e a delícia da humanidade desde o seu surgimento. E a música, que é a parte que me cabe nesse assunto, talvez seja a mais prejudicada.
O fim da mídia física, a escravidão do algoritmo nas plataformas digitais escondendo os verdadeiros tesouros sob camadas de repetição pasteurizada e o TikTok, que ensina, diariamente, às novas gerações que um hit deve durar o tempo de uma dancinha, devastaram a especificidade do som. Mas, felizmente, para toda ação existe uma reação. E ela já começou. É chegada a hora dos listening bars, onde DJs priorizam o som do vinil e o público é convidado não a dançar, mas a embarcar num setlist relaxante instalado em poltronas e sofás e degustando um belo drink. Ali, se ouve LPs de todas as décadas como quem aprecia uma especiaria. E o melhor: muitos desses lugares restringem o uso do celular em nome da experiência: ouvir e sentir sem mediação.
Sempre que chego a Nova York corro para a festa Mister Sunday, onde seguranças praticamente “sobrevoam” a pista de dança retirando qualquer frequentador que não resista a dar uma espiadinha em sua rede social. O mesmo se dá no clube Berghain, em Berlim, onde seu telefone é devidamente lacrado na entrada e um aviso é sussurrado no ouvido pelo hostess: usou, está fora. Para sempre.
A essa altura, você pode estar incomodado com tanto radicalismo. Mas o ser humano, convenhamos, não prima pelo autocontrole. Às vezes, não há outra saída. Foi assim com a proibição do cigarro em ambientes fechados: houve resistência, reclamação, mas veio o hábito e com ele, um ganho coletivo.
Até o Coachella esse ano resolveu encarar a questão e, em parceria com o Pinterest, incentivou o público a diminuir o uso do celular durante os shows. Um gesto ainda simbólico talvez mas necessário.
Lembro de mim ainda menino, ouvindo um disco a semana inteira. Decorando letras, descobrindo nomes escondidos nas fichas técnicas, criando intimidade com aquele documento sonoro. Ir a um show era um acontecimento que reverberava por dias porque não havia vídeo, não havia replay. Era memória, imaginação, emoção pura. Hoje, não aplaudimos um desfile de moda porque estamos ocupados filmando a fila final. Tentamos dar zoom na lua, no gol de placa, num palco a quilômetros de você. Entupimos HDs com fotos e vídeos tremidos, desfocados, incapazes de reproduzir a beleza da vida real. O prazer da arte virou a angústia do registro. No final das contas, talvez o maior luxo contemporâneo seja este: viver algo sem telemóvel, como chamam os portugueses. É o movimento phone free.
Não se trata de nostalgia, nem de demonizar a tecnologia, é sobrevivência emocional num planeta onde se vive conectado o tempo inteiro. Hoje, em média, uma pessoa checa o celular mais de 140 vezes por dia. Ou seja, carteira assinada num emprego invisível. Estar off-line virou luxo e necessidade.
O chamado digital detox é uma tentativa urgente de recuperar a saúde mental. Ouvir um álbum inteiro do seu artista preferido. Comprar uma máquina fotográfica analógica e esperar a revelação do filme. Ir ao teatro ou cinema e acionar o modo avião. E agora o mais difícil: procurar amor ou sexo casual na base do alive and kicking. Afinal, estar inteiro a vida inteira é a glória do saber querer, como um dia escreveu Caetano Veloso numa canção.


For You














