
Jazz: uma volta ao mundo em 9 álbuns
Márcio Pinheiro listou nove álbuns essenciais que narram a evolução do jazz — do improviso à liberdade radical
O jazz tem muitas portas de entradas. E muitas delas se abrem para uma infinidade de outras portas. A mais indefinível das artes, a música tem no jazz sua tradução mais ousada e surpreendente. O jazz nasce do improviso, assim como a vida. Mas mais do que mero improviso, o jazz é uma exaltação à liberdade.
Assim, os nove discos que sugiro aqui nascem de pelo menos duas vertentes. Uma, menor, é o gosto pessoal. Outra, mais relevante, leva em consideração o alcance que esses artistas e seus trabalhos tiveram na música universal.
Em uma lista em que o disco mais recente tem “apenas” 50 anos, nada é novidade. Somente a confirmação de que esses discos ainda não foram completamente assimilados. Ainda bem: a descoberta precisa ser constante. São eles:
Charles Mingus – Mingus Ah Um (1959)

Charles Mingus (1922-1979) foi uma das figuras mais complexas do jazz. Atormentado, irascível, desde cedo – no gueto negro de Watts, em Los Angeles – conheceu a perversidade do racismo. Na juventude, foi proibido de se integrar a uma orquestra sinfônica por ser negro. Ao longo de seus 56 anos de vida, denunciou e combateu essas adversidades com músicas e palavras. Seus discursos eram inflamados; seus discos, manifestos.
Mingus Ah Um não apenas valoriza a massa sonora – seu grupo era um octeto, maior do que o quinteto convencional, menor do que uma big band – como presta homenagem a seus mestres em quatro composições: Jelly Roll Morton (Jelly Roll), Lester Young (Goodbye Pork Pie Hat), Charlie Parker (Bird Calls) e Duke Ellington (Open Letter To The Duke). Diante de uma persona tão múltipla, Mingus revela seu autorretrato musical com a angulosa Self-Portrait In Three Colors.
Django Reinhardt – Djangology (1961)

A maneira de tocar era singular. A mão esquerda – como uma aranha disforme – tinha um jeito único de firmar as cordas ao braço do violão. Apenas dois dedos (o indicador e o médio) se moviam, já que o polegar prendia o instrumento, e o anelar e o mínimo não tinham movimento por causa de um acidente. Assim, Django Reinhardt criava acordes com um mínimo de notas e redefinia a maneira de tocar violão.
Entre 1928 e 1953, Django – nascido num acampamento cigano em um lugarejo belga – gravou mais de 900 músicas, a maioria em discos de 78 RPM que, por descuido e/ou desinteresse, se perderam. O que não se perdeu foi reunido em Djangology, coletânea lançada em 1961 e que junta Django ao violinista Stéphane Grappelli interpretando alguns clássicos como Minor Swing e Swing ‘42. Django nunca chegou a conhecer esse registro. Oito anos antes, em 16 de maio de 1953, ele estava num bar conversando com amigos quando se sentiu mal. Levado para casa, não resistiu a um derrame fulminante. Tinha 43 anos.
Duke Ellington – The Afro-Eurasian Eclipse (1971)

Num mundo fragmentado como o do jazz, Duke Ellington foi uma unanimidade. “Todos deveriam agradecer de joelhos o fato de Ellington ter existido”, reconheceu o idiossincrático e pouco afeito a elogios Miles Davis. No meio dessa agilidade – no jazz, artistas e estilos se modificam por completo em cerca de dez anos –, Ellington manteve uma orquestra por cinco décadas (muitos músicos o acompanharam até a morte), influenciando uma infinidade de pequenos e grandes conjuntos. E até hoje, passados mais de 125 anos de seu nascimento (em 1899) e mais de 50 de sua morte (em 1974), Ellington é reverenciado pelas novas gerações.
Inspirado no conceito de aldeia global, de Marshall McLuhan, Ellington compôs The Afro-Eurasian Eclipse. Estudioso e interessado, ele pesquisava sonoridades africanas, latinas, europeias e orientais e as adaptava ao estilo de sua orquestra. Como um solista que precisa de um instrumento para se expressar, Ellington revolucionava ao utilizar a orquestra como instrumento.
John Coltrane – A Love Supreme (1964)

John Coltrane (1926-1967) estava com 38 anos quando engendrou uma das mais radicais insurreições na história da música. O conceito proposto previa conceder ao que era produzido musicalmente liberdades até então inimagináveis. O jazz misturava-se à música modal, aos sons africanos e orientais, ao flamenco espanhol, e enveredava por caminhos sinuosos e irreversíveis. A fase coincidia ainda com o interesse de Coltrane por temas místicos e espirituais. Coltrane se mostrava paradoxal pelo fato de ser um grande improvisador que se interessava por estudar teoria.
A síntese estaria em A Love Supreme, suíte traduzida em faixas como Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm. Pelos três anos seguintes, a música se tornaria uma missão, e suas novas composições (Om, Cosmic Music e Meditations) ficariam ainda mais impregnadas pelo caráter religioso. A ampliação dos limites sonoros colocaria sua arte no nível da superação, da busca pela iluminação.
Keith Jarrett – The Köln Concert (1975)

Nascido em 1945, ano em que Charlie Parker gravou Koko, no apogeu do bebop, Keith Jarrett foi um talento precoce que aos três anos já tinha aulas de piano e aos sete já se apresentava em recitais. Era, em suma, uma espécie de Mozart da cidade de Allentown, na Pensilvânia. A partir de então, pelos próximos anos, ele apenas confirmou todas as expectativas.
Exímio nos recitais de piano-solo – são mais de duas dezenas de registros ao logo de sua carreira –, Keith Jarrett elevou a performance ao mais alto patamar com The Köln Concert. Gravado na Alemanha em janeiro de 1975, The Köln Concert tornou-se o best-seller dos álbuns solos de piano do jazz, chegando a mais de quatro milhões de cópias vendidas. E quem melhor definiu a sensação vertiginosa que o disco transmite foi o próprio Jarrett: “Tocar solo é como pular de um rochedo sem saber o que há embaixo: pedra ou água”.
Miles Davis – Kind Of Blue (1959)

Miles Davis (1926-1991) mudou os rumos do jazz como nenhum outro músico. Entre o final dos anos 40 e meados dos anos 70, ele redefiniu o estilo de tocar trompete, revelou dezenas de seguidores, empilhou revoluções e gravou discos que até hoje são referências máximas.
Kind of Blue, por exemplo. No dia 2 de março de 1959, sete músicos (Miles mais John Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Paul Chambers, Jimmy Cobb e Wynton Kelly) entraram em uma velha igreja em Nova York transformada em estúdio. Não tinham muita certeza sobre o que pretendiam gravar, mas tiveram uma margem de erro próxima de zero. Kind of Blue é a síntese de todo o gigantesco repertório artístico de Miles Davis. Obra perfeita na concepção (com exceção de uma faixa, tocada duas vezes, tudo foi registrado no primeiro take, de maneira espontânea), Kind of Blue até hoje tem o poder de silenciar tudo ao seu redor.
Ornette Coleman – The Shape of Jazz to Come (1959)

Mais radical dos inovadores do jazz, Ornette Coleman (1930-2015) é também o mais difícil de ser compreendido. Sua música não é de fácil assimilação, suas ideias, são tortuosas. “Não sei o que ele toca, mas não é jazz”, definiu Dizzy Gillespie. “Este sujeito é maluco!”, completou Thelonious Monk, um indivíduo que jamais pôde ser encaixado em qualquer parâmetro de sanidade.
The Shape of Jazz to Come é o manifesto-musical de Ornette e a declaração mais escancarada do estilo de que ele foi o precursor, o Free Jazz. A liberdade residia no fato de que, dentro dessa proposta, o músico deveria pegar a melodia, a harmonia, o ritmo e destruir com tudo. The Shape of Jazz to Come, quase batizado de Focus On Sanity, nome da quarta faixa interpretada pelo quarteto liderado por Ornette – Don Cherry (trompete), Charlie Haden (contrabaixo) e Billy Higgins (bateria) – levava ao extremo todas as experiências. Do caos é que iria nascer a nova arte.
Thelonious Monk – Underground (1968)

Nesta lista foram citados músicos geniais, inventivos, inovadores e revolucionários. Nenhum foi tão único e teve um caráter musical tão específico quanto Thelonious Monk. Morto em 17 de fevereiro de 1982, Monk, nascido em 1917, havia abandonado a música uma década antes, quando – por motivos até hoje insondáveis – se recolheu a um silêncio muito maior que o que sempre o caracterizou.
Underground, gravado pouco antes desse exílio, vale não apenas pela qualidade musical, mas pela originalidade da capa. Feita pelos fotógrafos Steve Horn e Norman Griner, a imagem reproduz em cenário um abrigo da resistência francesa durante a II Guerra. Em cena, entre os elementos, aparecem um prisioneiro nazista, uma guerrilheira, dinamite, granadas e... uma vaca. Presente ao estúdio apenas para fazer a foto, Monk chegou, passou o braço em volta do pescoço do animal e sussurrou: “Muuu!”. Ficou por mais meia hora, tocou um pouco no piano enquanto as fotos eram feitas e saiu sem falar com ninguém – apenas com a vaca.
The Quintet – Jazz At Massey Hall/The Greatest Jazz Concert Ever (1953)

O quinteto ao qual o disco se refere tinha à frente Charlie Parker (1920-1953) e Dizzy Gillespie (1917-1993), pais-fundadores do bebop. Atrás, o trio formado por Bud Powell (piano), Charles Mingus (contrabaixo) e Max Roach (bateria). Ou seja, o suprassumo da modernidade jazzística naquele início dos anos 50.
Dessa maneira, Jazz At Massey Hall, realizado em maio de 1953, é o melhor resumo do rumo que o jazz tomara desde que, pouco mais de uma década antes, esses cinco instrumentistas revolucionaram a música. Ponto culminante do bebop, o concerto teve ineditismos (foi a única vez que os cinco músicos gravaram juntos), desencontros (a Toronto New Jazz Society propôs que os músicos dividissem os lucros, mas, devido à baixa renda, eles foram pagos com cheques sem fundos) e uma melancólica despedida (foi o último encontro gravado de Parker e Gillespie). Mas nada disso transparece no disco. O que fica é a história. E a confirmação de que não há nenhum exagero no título.
*Márcio Pinheiro é editor do site AmaJazz (www.amajazz.com.br)


For You














