O fim de semana na ilha de Ivo Pitanguy não foi propriamente um encontro de amigos: foi uma espécie de pecado tropical com hospedagem, gelo e vista para o mar. Tom Jobim chegou sereno, com aquele silêncio de quem já havia entendido o barulho do mundo e decidido não responder. Trazia no rosto a calma dos gênios e, no passo, uma discreta pressa de encontrar o bar.
Havia uísque, charutos, pássaros por toda parte e uma churrasqueira monumental, dessas capazes de assar um boi, alimentar um batalhão ou destruir três dietas num único almoço. Ao lado dela, a verdadeira aparição da ilha: uma chopeira reluzente, servindo Brahma gelada.
Tom viu aquilo e esqueceu as garrafas de Krug, safra 62. O champanhe francês ficou num canto, humilhado como um aristocrata sem convite para o samba. O uísque perdeu a gravidade. Afinal, nenhum rótulo estrangeiro consegue competir com um chope bem tirado diante do mar.
Jobim sabia dessas coisas. Olhava o horizonte, sentia a mudança do tempo e decretava: “Vento noroeste é sexo puro.” Ninguém perguntava por quê. Certas frases de Tom não pediam explicação, pediam apenas outro chope. Coisas de Jobim. De leve.
Pitanguy ria e recordava os almoços com Tom na Churrascaria Plataforma. Mas Jobim, com a autoridade reservada aos gênios e aos bêbados muito lúcidos, mandava buscar quentinhas no Bracarense.
Rabada, buchada, ensopado: pratos capazes de levantar um morto e derrubar um vivo. “Comida de bêbado,” explicava. Dizia isso com a solenidade de quem acabara de descobrir um novo acorde. A gordura boiava no molho como um iate sem culpa. O cheiro atravessava a sala, desmoralizava o sashimi e fazia o Krug perceber que havia nascido no País errado.
A noite avançou entre risadas, fumaça e espuma dourada. Pitanguy falava como quem esculpia rostos. Tom respondia como quem redesenhava nuvens. Em determinado momento, apareceram pássaros pousados no chapéu de Jobim. Ele continuou conversando normalmente, como se aquilo fosse apenas mais uma reunião da Academia Brasileira de Letras.
Entre ostras abertas e fatias de sashimi cortadas pelo próprio Pitanguy, a ilha foi perdendo a solenidade. Aos poucos, transformou-se num boteco do Leblon cercado de água por todos os lados — sem conta, sem hora para fechar e sem mulher perguntando quantos chopes você já tomou.
Mais tarde chegaram Sérgio Mendes e Paulo Fernando Marcondes Ferraz, trazendo um bongô e um tamborim. Na sala já havia piano e violão. Preciso mesmo contar o que aconteceu?
O melhor da música brasileira começou a tocar para uma plateia improvável: pacientes suecas de Pitanguy, loiríssimas, recém-operadas e transformadas em passistas nórdicas ao som de sambas da Mangueira e sob os efeitos da cachaça. Era uma cena que Freud teria cobrado caro para interpretar.
Uma delas sambava com a precisão de um guarda de trânsito em Estocolmo. Outra tentava acompanhar o tamborim enquanto protegia o nariz novo com as duas mãos. A terceira rodopiou tão feliz que, por alguns segundos, ninguém soube dizer se aquilo era samba, vertigem ou efeito tardio da anestesia.
Tom tocava. Sérgio acompanhava. Pitanguy sorria, provavelmente calculando quantos pontos seriam necessários na manhã seguinte. Na ilha ninguém era exatamente o que chegou sendo. Os médicos viraram músicos, as pacientes viraram passistas, os pássaros viraram convidados e o champanhe francês acabou reduzido à condição melancólica de água mineral com sobrenome.
Na manhã seguinte, ainda tentando recolher as lembranças espalhadas pela cabeça, um funcionário da casa comentou, com a sobriedade de quem já havia visto tudo e continuava passando o café: “Se alguém tivesse gravado aquele fim de semana, dava um documentário.” Ninguém gravou.
Talvez tenha sido melhor assim. Há fins de semana que não foram feitos para virar filme. Foram feitos para sobreviver nas versões de quem estava lá — cada vez mais exagerados, mais engraçados e, justamente por isso, absolutamente verdadeiros. Porque certas noites não terminam quando o sol nasce: apenas começam a mentir com elegância.















