A próxima grande onda etílica vem do Japão. E não é Saquê
Cold cocktail with lime, lemon, tonic, vodka and ice on vintage background
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A próxima grande onda etílica vem do Japão. E não é Saquê

O país que nos deu o saquê, o shochu, o awamori e o umeshu – e que também é uma referência de excelência quando o assunto é o uísque – promete elevar a experiência daqueles acostumados com o sabor tradicional e a predominância do zimbro de um London Dry Gin

Embora exista no Japão desde os anos 30, o gim começou a ganhar uma identidade nacional a partir de 2016. Nessa época, destilarias gigantes como a Suntory e a Nikka já produziam versões mais simples e genéricas do destilado, mas só existia uma (apenas uma!) destilaria dedicada a um produto verdadeiramente artesanal.

A The Kyoto Distillery foi a primeira a criar um produto artesanal, o KI NO BI — gim feito com álcool neutro de arroz, botânicos locais e sabores mais delicados. O sucesso do produto criou, literalmente, um mercado.

Hoje, o Japão tem mais de 50 destilarias dedicadas ao gim artesanal (algumas delas são microdestilarias urbanas), com vendas que já ultrapassaram os 5,5 milhões de litros em 2024. Além disso, o país tem uma associação dedicada somente ao gim, bem como veículos especializados no tema, como o Gin Lab Japan. Suntory e Nikka também entraram no jogo e lançaram expressões premium de seus gins.

“Entre as pessoas que bebem gim japonês, a primeira coisa que costumam mencionar é a diversidade do destilado-base. Em países como Reino Unido e Austrália, há uma tendência de usar quase sempre destilados de grãos. Já no gim artesanal japonês, vemos o uso de shochu de arroz, shochu de batata-doce, awamori, shochu de borra de saquê, destilado de arroz… há uma grande variedade de bases. Acho que esse é um primeiro ponto,” disse Hiroaki Onodera, proprietário do Bar Soutsu, localizado em Tóquio, que disponibiliza mais de mil rótulos de gins artesanais aos seus clientes.

“Se eu fosse destacar mais um detalhe, seria a diversidade da origem dos produtores. No Japão, há produtores que vieram do universo do saquê, outros do shochu, outros do uísque, e até pessoas que antes atuavam em áreas completamente diferentes. Essa diversidade de origem é algo muito único no gim artesanal japonês”, disse Onodera.

Os botânicos

Os botânicos japoneses trouxeram delicadeza e suavidade ao gim, com destaque para aqueles que representam o DNA deste destilado: yuzu (cítrico), sakura (flor de cerejeira), sansho (pimenta japonesa), gyokuro (chá verde), hinoki (cipreste japonês) e kuromoji (arbusto da família do louro).

As duas estrelas da receita são, sem dúvida, o yuzu e a sakura. O primeiro pode ser descrito como uma mistura de limão com tangerina, mais aromática e menos ácida que um limão comum; já a sakura é a responsável pelas notas florais e um discreto adocicado.

“Essas características criaram a tendência de uma valorização do produto por si só. Por isso, o consumidor japonês prefere misturas mais diretas e simples, como o gin soda, sem açúcar nem limão. A ideia é facilitar a apreciação e ressaltar a qualidade da bebida,” disse o bartender e sócio do The Punch e do Provador, Ricardo Miyazaki.

Onodera aponta outra característica: o gim artesanal japonês não é “apenas japonês e pronto”. Ele traz diferenças substanciais a partir da cidade em que é produzido. “Em Quioto, sinto uma tendência a gins com chá, hinoki e sansho — perfis muito delicados, com textura suave e sedosa. Em Kyushu, há muitos gins com base de shochu e aromas mais intensos de cítricos do sul. Em Okinawa, a base costuma ser o awamori. Já em Hokkaido, usam botânicos do norte, como menta, lavanda e haskap. É realmente muito variado,” disse.

Para o consultor de viagem e sommelier de saquê e shochu, Roberto Maxwell, a cena vem crescendo nos últimos anos. “Com a crise na venda das bebidas tradicionais, em especial o saquê e o shochu, vemos produtores diversificando a cartela de produtos, e o gim surge como uma opção natural,” disse.

“Estrangeiros ainda conhecem pouco esta cena, mas se surpreendem com a criatividade. Gins com yuzu já são mais conhecidos, mas produtos com chá e sansho — que é uma pimenta aromática com efeito leve, parecido com o do jambu — surpreendem muito,” disse Maxwell.

Para atingir o patamar do uísque, o gim artesanal japonês ainda enfrenta desafios. “No caso do uísque japonês, houve bastante confusão sobre o que exatamente poderia ser chamado de ‘japonês’. O setor de gim precisa estabelecer critérios próprios para definir o que é o gim artesanal japonês. Isso me parece o mais importante,” diz Onodera.

“Outro ponto é a concorrência de preços. Hoje, muitos gins artesanais de pequeno lote custam, em geral, entre 4.000 e 6.000 ienes por 500 ml. Em comparação com concorrentes do exterior, talvez sejam um pouco caros. Há também a questão da logística para o mercado internacional,” diz Onodera.

E no Brasil?

Por aqui, existem poucas opções para quem quiser experimentar. A mais famosa e fácil de encontrar é o Roku Gin, produzido pela Suntory. “O gim japonês é uma reinterpretação da categoria tradicional. Ele é moderno, autoral, com foco em ingredientes locais e estética própria. Não tenta competir com o gim ocidental, mas propõe uma nova leitura,” diz o Brand Ambassador e Advocacy Manager da Suntory, Edu Gaidies.

No caso do Roku, a produção obedece às quatro estações do ano, e cada botânico japonês é colhido em seu período específico (shun):

  • Flor e folha de sakura: colhidas na primavera (aromas florais e delicados).

  • Sencha e gyokuro: colhidos no verão (notas herbais e umami).

  • Pimenta sansho: colhida no outono (leve picância).

  • Yuzu: colhido no inverno (final cítrico e frescor).

Além do Roku, outra marca acaba de desembarcar no país: o Togedama Gin, produzido pela destilaria Matsuzaki Musashino e importado pela Nippon Bebidas. “O diferencial deste gim é que o zimbro é plantado na própria fábrica. A destilaria usa três vezes mais zimbro do que o gim tradicional, com uma destilação cinco vezes mais lenta. Eles cuidam de tudo, da plantação à garrafa,” disse Shin Kawazoe, sócio da Nippon Bebidas. As garrafas do Togedama são numeradas e custam cerca de R$ 700 para o consumidor final.

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