Diário de uma man-eater: capítulo 6

Diário de uma man-eater: capítulo 6

Os relatos íntimos de uma recém-divorciada de 45 anos

Sem calcinha, às onze e meia da manhã

A casa já cheirava a bife acebolado quando abri os olhos. O vestido tinha aquele ranço esquisito de quando a roupa seca longe do sol. O rímel fazia um risco que ia da sobrancelha à ponta do nariz, colando a pálpebra na linha d’água. Mas o gosto era dos melhores.

Fechei os olhos e tentei repassar a noite anterior. As imagens vinham em flash. Jorros de água, crises de riso, uma dança aleatória no salão. Tirei o vestido, como se pudesse pensar melhor sem ele.

Não lembrava que tinha dormido sem calcinha.

Deixei minha mão deslizar meu corpo, acordando minhas memórias.

Voltei para o balcão empilhado de garrafas e desencontros.

Do nada, o André.

Mas não o de meses atrás, que tinha o rosto fechado e o ombro sempre doendo. Um André solar, de seis, sete anos passados, que assistia futebol no celular para me acompanhar no almoço chato de domingo, perdia a hora para me ver entrando no banho, deixava a carne passar do ponto porque eu tenho nervoso de comer sangrando.

Tentei fazer meu cérebro entender que ele tinha aberto a gaveta errada, mas me rendi. Daquele André eu gostava.

Deixei ele andar pelo salão, olhar os decotes, se embriagar com outros perfumes. O cara de ontem entrava, a gente começava a se beijar.

Fraco.

Eu que chegava. Acompanhada, íntima. Às gargalhadas com o cara de ontem.

Zero tesão. Próxima.

Meu ex chegava com outra. Eu andava até os dois. A mulher se levantava e, sem dizer nada, começava um jogo de espelho. Minha mão na dela, as coxas, a pele.

Também não.

Abri os olhos. O ventilador girava devagar no teto. Será que o moço da piscina sabe arrumar essa haste capenga? A panela de feijão apitava lá embaixo. Minha mãe gritava para não esquecer a salada.

Quarenta e poucos anos. Minha mãe fritando bifes na minha cozinha. Eu sem calcinha, às onze e meia da manhã. Que fase.

Voltei a fechar os olhos. Meu ex continuava ali. O cara de ontem também. A mulher dele, o homem do bar, o garçom. Uma plateia inteira.

Acho que é hora de voltar para a terapia.

Abri os olhos de novo. Dessa vez, o quarto ficou.