A torre tem 70 metros de altura, é revestida de granito cinza trazido de New Hampshire e, dependendo do ângulo e da luz, pode parecer um farol ou uma fortaleza. O ex-presidente Barack Obama queria que ela lembrasse quatro mãos erguidas. O apelido que pegou na cidade foi outro: "Obamalisk.”
Obelisco ou não, a torre do Obama Presidential Center, que começou a rabiscar o skyline de Chicago em 2021 finalmente irá abrir as portas dia 19 de junho – Juneteenth, feriado que comemora a emancipação de escravos negros nos EUA.
Um dos objetivos do local é transformar um bairro historicamente pobre e negro de Jackson Park, onde Michelle Obama cresceu e onde o ex-presidente começou sua carreira política.
Por lá o ex-presidente construiu campos de esporte, parquinhos e mesas de piquenique. Há também uma cozinha didática com horta de frutas e verduras supervisionada pelo Chicago Botanic Garden, além de um edifício chamado Forum, com estúdios de gravação e salas de reunião para uso público, além de um auditório em forma de leque com 291 lugares, espaço suficiente para um debate presidencial.

A ideia é que o local não seja apenas um museu, mas um centro comunitário para atender a todos da região.
As obras custaram US$ 850 milhões e ocupam 78 mil metros quadrados entre a torre e um vasto parque, obra do paisagista Michael Van Valkenburgh, responsável também pelo Brooklyn Bridge Park, em Nova York.
Para construir o campus, a cidade removeu uma avenida de seis pistas que cortava Jackson Park desde os anos 1960. No lugar, há caminhos para pedestres e ciclistas.
O local ainda conta com um lago artificial com capacidade de reter água de chuva e churrasqueiras, um pedido pessoal de Obama, que sempre falou do prazer de assar uma carne no parque quando morava na cidade.
A vocação para o uso público do Obama Center também fica clara com a disposição das obras por lá.
No parque há muitas das 30 obras comissionadas pela ex-primeira-dama Michelle Obama exclusivamente para o centro.

No John Lewis Plaza, a escultura monumental Bending the Arc, de Martin Puryear, homenageia o legado de Martin Luther King e John Lewis.
Na biblioteca, Book Bird, última obra de Richard Hunt antes de sua morte em 2023, retrata um pássaro emergindo das páginas de um livro, uma metáfora sobre o poder libertador da leitura.
No terraço batizado com o nome da mãe de Obama, Ann Dunham, a artista Maya Lin criou Seeing Through the Universe, uma fonte de pedra com um óculo vertical que emite névoa e uma "pedra" plana por onde a água escorre.
Na fachada do museu, a artista etíope-americana Julie Mehretu assina Uprising of the Sun, uma janela de vidro pintado de 25 metros de altura inspirada no discurso de Obama em Selma. No lobby da torre, Njideka Akunyili Crosby apresenta o primeiro retrato conjunto de Barack e Michelle Obama, criado a partir de arquivos, álbuns de família e efêmeros históricos.
A ideia é que cada canto do Obama Center tenha uma obra, quase como um caça ao tesouro para os visitantes. A diretora fundadora do museu, Louise Bernard, disse ainda que as obras feitas exclusivamente para o local buscam retratar o que ela chamou de “legado de Obama”: senso de esperança e conexão com o lugar.
Dentro da torre revestida de granito, o destaque é o museu – cujo ingresso de US$ 30 o coloca entre o mais caro entre as bibliotecas presidenciais americanas.
O piso térreo tem um saguão com escada ornamental e pilares de pedra esculpida. A exposição permanente começa com peças sobre a abolição da escravidão e a luta por direitos civis e continua por vários andares cobrindo a trajetória dos Obama e os anos do Presidente na Casa Branca.
Uma das principais atrações é uma réplica em tamanho real do Salão Oval. Visitantes podem sentar à mesa presidencial e tirar fotos. A gaveta superior guarda uma carta escrita por George W. Bush e o famoso BlackBerry de Obama.
Outras partes do museu falam sobre feitos do Presidente e o momento em que ele cantou Amazing Grace num funeral em 2015.
Há também uma seção para fashionistas. Cerca de uma dúzia de vestidos de Michelle estão expostos, entre eles, o preto e vermelho Narciso Rodriguez usado na noite da eleição de 2008 e o dourado em malha de Atelier Versace do último jantar de estado, em 2016.
Outro destaque são as cartas enviadas por americanos durante o mandato. "Algumas ainda me fazem chorar," disse Obama em vídeo publicado nas redes sociais.
O andar mais alto, chamado Sky Room, é gratuito e oferece vista panorâmica de Chicago através de 458 letras de concreto que formam um trecho do discurso de Obama em Selma, em 2015. De dentro, a cidade aparece emoldurada pelas palavras. De fora, no parque, as letras se amontoam no alto da fachada e mal se leem.
O terreno também conta cum uma biblioteca pública municipal, que ocupa um prédio de um andar com um mural de 21 metros representando figuras literárias como Walt Whitman e James Baldwin. No centro do mural, Toni Morrison lê para um menino de camiseta laranja – uma representação do jovem Obama.
Os arquitetos da torre são os nova-iorquinos Billie Tsien e Tod Williams, os mesmos que assinam a Barnes Foundation, em Filadélfia.
A cerimônia de abertura acontece no dia 18 de junho. O evento será transmitido ao vivo a partir das 11h (horário de Chicago) pelas redes sociais da Obama Foundation. O line-up inclui Stevie Wonder, Bruce Springsteen, John Legend, Jennifer Hudson, Christina Aguilera, Bono e The Edge, Common e The Roots. Barack e Michelle Obama discursarão na cerimônia de abertura.














