Embora seja frequentemente comparada ao tamanho de uma noz, a próstata continua sendo uma das estruturas menos compreendidas pelos homens.
Pequena, mas fundamental para o sistema reprodutor masculino, ela participa da produção do sêmen e exerce papel importante na fertilidade. Com o passar dos anos, porém, essa glândula tende a crescer, tornando-se fonte de dúvidas, desconfortos e, em alguns casos, de doenças que exigem acompanhamento médico.
Segundo o urologista Ricardo Vita, membro da Comissão de Comunicação da Sociedade Brasileira de Urologia, o tamanho considerado normal da próstata gira entre 20 e 25 gramas. "A principal função dela é no sistema reprodutor masculino, sendo responsável pela produção de 30% a 40% do sêmen, com componentes indispensáveis para a nutrição dos espermatozoides," diz.
Já o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Roni de Carvalho Fernandes, destaca que o tamanho da glândula varia ao longo da vida. "Nascemos com uma próstata de cerca de 3 gramas. Na adolescência ela pode chegar a 15 gramas e, na vida adulta, costuma variar entre 25 e 35 gramas. Depois dos 40 anos, pode crescer em função da hiperplasia prostática benigna," diz.
Esse crescimento, aliás, é considerado um processo natural do envelhecimento masculino. "Todo homem apresenta tendência ao crescimento prostático ao longo da vida por fatores genéticos, hormonais e inflamatórios. Geralmente, esse aumento se torna mais relevante a partir da quinta década," diz Ricardo Vita.
O problema surge quando a glândula cresce a ponto de comprimir a uretra, dificultando a passagem da urina. "Quando isso acontece, o homem pode apresentar dificuldade para urinar, aumento da frequência urinária e até sobrecarga da bexiga e dos rins," diz o especialista.
Fernandes reforça que o processo costuma ser gradual. "Tudo começa lentamente, com aumento da frequência das idas ao banheiro durante o dia e à noite, alterações do jato urinário, urgência para urinar e até necessidade de fazer força para a urina sair."
Um dos maiores desafios é que muitos homens se acostumam aos sintomas e passam a considerá-los parte inevitável do envelhecimento. Para os especialistas, essa é uma percepção equivocada. "Qualquer alteração do padrão urinário habitual deve ser investigada," diz Ricardo Vita. Segundo ele, alguns pacientes convivem há anos com alterações sem perceber que existe um problema. "Muitos homens acreditam que urinam normalmente, mas apresentam um padrão incompatível com a sua faixa etária."
Na prática, sinais como acordar várias vezes durante a noite para urinar, sentir urgência constante, perceber enfraquecimento do jato urinário ou dificuldade para esvaziar completamente a bexiga merecem atenção.
"Não é normal ter que interromper uma reunião por urgência urinária, perder o sono para ir ao banheiro ou precisar procurar um banheiro com frequência durante o trânsito," diz Roni. "Não se acostume com isso. Procure um urologista."
Além do desconforto diário, a dificuldade de esvaziar a bexiga pode gerar complicações mais sérias. A retenção de urina favorece o crescimento de bactérias, aumentando o risco de infecções urinárias e prostatites.
Antes dos 50 anos: a prostatite lidera as queixas
Embora o aumento benigno da próstata seja mais comum após os 50 anos, homens mais jovens também podem apresentar problemas relacionados à glândula. "A prostatite é o problema prostático mais frequente em homens com menos de 50 anos," diz Ricardo Vita. Segundo ele, a chamada síndrome da dor pélvica crônica responde pela maioria dos casos nessa faixa etária. As prostatites podem ser causadas por processos inflamatórios ou infecciosos. "Nos jovens, muitas vezes estão relacionadas a infecções sexualmente transmissíveis. Já nos idosos, podem ocorrer devido ao acúmulo de urina causado pela obstrução urinária," diz Roni.
Os sintomas costumam incluir dor na região pélvica, desconforto ao urinar, dor durante a ejaculação e, em alguns casos, febre.
Após os 50: hiperplasia e câncer entram no radar
Com o envelhecimento, a hiperplasia prostática benigna (HPB) torna-se a condição mais frequente. Segundo Ricardo Vita, ela acomete aproximadamente metade dos homens na quinta década de vida e pode atingir até 90% dos indivíduos aos 80 anos.
O câncer de próstata também ganha relevância. Trata-se do tumor mais comum entre os homens, excluindo os cânceres de pele não melanoma.
"O grande desafio é que o câncer de próstata, em suas fases iniciais e potencialmente curáveis, não apresenta sintomas," diz Ricardo. Por isso, muitos casos só são identificados graças aos exames de rastreamento.
Roni reforça a importância da avaliação médica. "Os sintomas costumam estar relacionados ao crescimento benigno da próstata ou a infecções. Diferenciar essas condições exige consulta médica, exames laboratoriais e de imagem. Em alguns casos, é necessária uma biópsia."
A próstata influencia a vida sexual?
Apesar de muitos homens associarem automaticamente problemas prostáticos à impotência sexual, a relação não é tão direta. "Não existe uma ligação direta entre alterações da próstata e a libido," diz Roni. Entretanto, algumas doenças e tratamentos podem afetar a ejaculação.
Segundo Ricardo Vita, a hiperplasia prostática benigna pode reduzir o volume ejaculado e tornar o orgasmo desconfortável. Já as prostatites podem causar dor ao ejacular e até presença de sangue no sêmen.
No caso do câncer de próstata, os principais impactos costumam estar relacionados aos tratamentos. Cirurgias e radioterapia podem comprometer a função erétil, enquanto a retirada da próstata leva ao chamado orgasmo seco, quando não há ejaculação.
Hábitos saudáveis fazem diferença
Embora não exista uma fórmula capaz de prevenir completamente as doenças prostáticas, manter hábitos saudáveis continua sendo uma recomendação importante. "Sabemos que obesidade, síndrome metabólica, sedentarismo e inflamação crônica favorecem o crescimento da próstata e podem estar relacionados ao desenvolvimento de doenças," diz Ricardo Vita.
Roni concorda. "Manter o peso adequado, ter alimentação equilibrada, praticar atividade física e moderar o consumo de álcool são medidas importantes para a saúde geral e também podem beneficiar a próstata."
Quando começar os exames
Os especialistas destacam que os exames não previnem doenças, mas permitem o diagnóstico precoce, aumentando significativamente as chances de tratamento eficaz. Entre os principais métodos de avaliação estão o toque retal e a dosagem sanguínea do PSA (antígeno prostático específico). Dependendo do caso, também podem ser solicitados ultrassonografia, ressonância magnética e biópsia. "A investigação deve começar sempre que houver sintomas urinários," diz Ricardo Vita. "Para homens sem sintomas, recomenda-se iniciar o rastreamento aos 50 anos." Já indivíduos com fatores de risco, como histórico familiar de câncer de próstata, obesidade ou ascendência africana, devem antecipar essa avaliação para os 45 anos.
Para Roni de Carvalho Fernandes, no entanto, a relação com o urologista deve começar ainda antes. "Uma consulta periódica após os 40 anos é importante para identificar precocemente alterações urinárias e orientar os cuidados necessários ao longo da vida."














